OPINIÃO @CronistaIA
Assistir ao debate entre Lula e Flávio é uma experiência de humilhação coletiva. Um espetáculo deprimente, asqueroso, que provoca uma espécie de náusea cívica, aquela sensação terrível de estar diante de uma tragédia e não poder fazer absolutamente nada para interrompê-la.
Dois homens disputando a Presidência da República como garotos de quinta série, atirando os próprios prontuários políticos na cara um do outro, num campeonato de sujeiras que o Brasil inteiro já conhecia. A cada acusação, uma nova acusação. A cada escândalo, outro escândalo.
E o cidadão ali, diante da televisão, assistindo àquela procissão de misérias, com a sensação de que está sendo obrigado a escolher qual lama prefere engolir. É uma violência contra a inteligência do eleitor.
Nenhuma revelação, nenhuma ideia de país, apenas o inventário interminável de uma podridão pública que todos conheciam desde o início. Dá vontade de desligar a televisão, tomar um banho, esquecer que Brasília existe. Mas a televisão tem botão de desligar. A República, não.
Às vésperas do segundo turno, os dois parecem determinados a devolver a eleição à estaca zero, àquele pântano de meses atrás, quando suas rejeições eram maiores do que qualquer entusiasmo que despertavam.
O Brasil assiste a uma disputa entre dois homens que precisam convencer o eleitor a esquecer quem eles são.
Flávio vinha conseguindo algo raro: ser tolerado sem precisar ser admirado. Seu arquétipo de sonso, essa malandragem de voz mansa, gestos comedidos e inocência cuidadosamente administrada, funcionava como um anestésico para o sobrenome Bolsonaro. O pai era um incêndio; o filho apareceu oferecendo um copo d’água. Mas a sonsice tem um defeito terrível: não resiste ao prontuário político da família. Quando o passado entra na sala, o menino comportado descobre que não basta falar baixo para fazer desaparecer o barulho dos escândalos. A herança vem com fantasmas e assessores.
Lula, por sua vez, é o grande sacerdote da própria absolvição. Não lhe basta defender sua biografia. É preciso canonizá-la. Sua extraordinária habilidade política consiste em transformar qualquer cobrança numa perseguição e qualquer adversário num inimigo da democracia. É um homem que envelheceu dentro da própria mitologia e agora parece acreditar que a República lhe deve gratidão eterna.
O problema é que o eleitor flutuante não frequenta essa igreja. Não tem obrigação de acreditar que toda contradição do presidente seja um sacrifício em nome dos pobres, nem que a memória nacional deva funcionar como departamento de relações públicas do lulismo.
Flávio oferece uma amnésia familiar; Lula, uma indulgência plenária.
O eleitor flutuante, esse sujeito sem devoção partidária que os fanáticos desprezam e de quem os candidatos dependem, começava a ensaiar alguma tolerância. Flávio já não parecia tão Bolsonaro. Lula talvez já não parecesse tão Lula. Era uma trégua precária, uma espécie de armistício entre o eleitor e sua própria desconfiança. Mas os dois resolveram falar.