Batom, esmalte e pé na estrada

Aos 38 anos, caminhoneira Silvana Cenci tem paixão pela profissão. Estudante de Direito, sonha com o negócio próprio, sem abrir mão da boleia

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Atualizado há 12 anos

Por Mariana Honesko

Silvana dirige caminhão desde os 12 anos: paixão desde a adolescência
Silvana dirige caminhão desde os 12 anos: paixão desde a adolescência

O preconceito ainda existe e, até nos editores de texto dos computadores, é latente. Basta tenta digitar a palavra “caminhonheira”. Logo haverá uma sugestão para correção: o “certo”, para o editor, é colocar a palavra no gênero masculino. Silvana Cenci está acostumada com gracinhas. Afinal, desde os 12 anos sabe dirigir caminhão e há sete tem a profissão de motorista registrada em sua Carteira de Trabalho. Para a loura, de conversa fácil, uma conquista mas, também, uma oportunidade de viver daquilo que entende bem, desde a infância. “Aprendi a dirigir com meu pai. Eu era a filha mais velha e precisava ajudar na agricultura. Comecei com trator, fui evoluindo e agora dirijo caminhão”, explica.

Silvana é natural de Videira (SC) mas desde dezembro mora em União da Vitória. Na cidade, trabalha como motorista na empresa Rodec e todo dia enfrenta uma jornada pesada, de idas e vindas no trânsito, com toneladas na carroceria de “seu” Volvo. “Transporto madeira, pedra, areia. O que tiver”, sorri. Atrás das roupas mais fechadas, próprias para o trabalho, esconde-se uma mulher de ambições, mas pautada no bem-estar da família.

A mudança de cidade, inclusive, foi necessária para que Silvana atendesse melhor as necessidades de suas duas filhas. Separada desde 2012, não conseguiu mais, sozinha, encontrar compatibilidade entre distancias, compromissos pessoais e o trabalho. Era hora de voltar para a casa dos pais. “Voltei no final do ano (2013). Meus pais já estavam aqui há uns 12 anos”, explica. Os pais trabalham com a produção e venda de vinho. Hoje, a vida está mais fácil: durante o dia, as filhas de Silvana ficam na escola ou na companhia dos avós. “E eu posso trabalhar tranquila”, diz.

A motorista cursa o primeiro ano de Direito. Mas, mesmo mais perto do diploma, Silvana garante que não quer abrir mão da boleia. “Quero ter meu escritório, mas ter algo próprio. Talvez um caminhão só meu ou uma empresa, com empregados. Quero ter um caminhão à disposição, para que eu possa sair quando tiver vontade”, revela.

Vida sobre rodas

A estabilidade conquistada às vésperas dos 40 anos é fruto de muito esforço. Antes de ter um trabalho com carga horária fechada, Silvana enfrentou os desafios das estradas brasileiras. Em Videira, quando trabalhava para uma fabricante de material plástico, encarou destinos então desconhecidos. Com o tempo e com as trocas de empresa, foi ampliando seu próprio mapa. “Conheço tudo. De Goiás para baixo, conheço tudo”, orgulha-se. As viagens quase sempre eram solitárias e, em várias delas, Silvana precisou da ajuda de Nossa Senhora Aparecida e de São Cristóvão, padroeiros jamais esquecidos pela motorista. “Ela é minha mãe e ele meu pai”, sorri.

Motorista venceu preconceito e encara com alegria os desafios da profissão
Motorista venceu preconceito e encara com alegria os desafios da profissão

Em uma destas ocasiões, a força espiritual tornou-se mais evidente. Foi no Mato Grosso, quando o caminhão estragou em uma estrada de terra, cercado apenas pelo assovio do canavial. “Eram dez horas da noite e o caminhão estragou. Consegui falar com um amigo meu com o pouco sinal de celular que tinha. Ele ligou para o meu chefe, que não acreditou. Pensou que era sequestrou falso. Que sufoco!”, conta rindo. “Eu só escutava o barulho do mato. Não sabia se era bicho, gente. Subi na cabine e pedi proteção”, completa. A ajuda chegou apenas na madrugada, quando o caminhão de resgate surgiu no meio da escuridão. Com Silvana, nada aconteceu.

Em outra situação, a motorista também escapou ilesa. “Foi há quatro anos. Uma moça jogou o carro na minha direção. Não tive o que fazer. Foi terrível”, lembra. A jovem motorista do carro de passeio morreu com a colisão. “E eu tenho a consciência tranquila. Sei que fiz tudo o que era possível”, diz.

Estrutura ainda é falha

Para a motorista, o preconceito tão popular entre os mais machistas é nítido também ao longo do percurso que faz. Conforme ela, nos postos de combustível, por exemplo, faltam banheiros com mais qualidade para mulheres – a maioria não oferece chuveiros, ideal para quem está na estrada o tempo todo – e estrutura mais confortável. Sobram, contudo, atos de desrespeito. Não é regra, mas a maioria dos estabelecimentos é falha. Nada, porém, abala o perfil de Silvana. “Amo a estrada, o caminhão e me considero uma aprendiz. Estou todo dia aprendendo mais”, sorri.

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