
Passando pela carceragem da 4ª SDP de União da Vitória é possível sentir que há um clima de tensão permanente entre detentos e policiais civis. O episódio da delegacia de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba, quando um agente penitenciário foi morto no domingo, 10, durante uma fuga de presos, fez a tensão subir ainda mais. Para explicar melhor é preciso esclarecer que o único local possível para fugir rapidamente da cadeia local é a porta. É isso que está causando temor aos policiais. No final de março o serviço de inteligência da 4ª SDP descobriu e frustrou um plano de fuga em massa. O plano era dominar o carcereiro como refém, em situação parecida com a que ocorreu na delegacia de Colombo. Ainda se investiga como um revólver foi parar nas mãos dos detentos na unidade policial civil da região metropolitana de Curitiba.
Em União da Vitória as frequentes operações “bate-grade” encontram armas brancas improvisadas (os chamados estoques), feitas com todo o tipo de material arrancado das paredes da cadeia ou com objetos de artesanato. Os detentos vivem em clima permanente de ameaça de fugas ou rebeliões. No começo de abril de 2013, o Juiz Corregedor dos Presídios da Comarca de União da Vitória, Mário Dittrich Bilieri, a partir de representação formulada pelo Ministério Público do Estado do Paraná, determinou a interdição da cadeia pública local. O esvaziamento da cadeia foi contestado pela Procuradoria do Estado e o processo se arrasta na burocracia até hoje.
A cadeia da 4ª SDP é uma aberração e um atentado contra a segurança pública local. Localizada ao lado de uma escola, atrás da Rodoviária Intermunicipal, em frente de um posto de combustível e em uma rua onde passam milhares de trabalhadores e estudantes todos os dias. É uma bomba relógio. A reportagem de O Comércio tentou fotografar a situação interna das celas, mas foi impedida pelo delegado chefe da 4ª SDP, André Vilela, que alegou que a Secretaria de Segurança Pública do Paraná (SESP-PR) não permite imagens do interior das cadeias. Mesmo assim ele confirmou que o local foi construído para abrigar quatro presos, como um setor de triagem. Até o encerramento desta edição a cadeia comportava 72 detentos, muitos deles cumprindo pena, em situação degradante.
Medo e tensão nos plantões da 4ª SDP
Não se pode esconder que as recentes melhorias físicas no prédio da 4ª SDP reforçaram a segurança, mas não impedem que os detentos tentem fugir e, pela lógica, só conseguiriam constrangendo os carcereiros como reféns, quando da distribuição da comida, por exemplo.
Na terça-feira, 14, os policiais civis do Paraná fizeram uma paralisação de 24 horas para pressionar o Governo do Estado a transferir todos os presos em delegacias para penitenciárias. O protesto foi convocado pelo Sindicato das Classes Policiais do Paraná (Sinclapol) após a fuga na delegacia de Colombo, que resultou na morte de um agente carcerário. Os policiais de União da Vitória participaram da greve de advertência.
E qual seria a solução?
Com a ação dos presos em Colombo, o governador Beto Richa antecipou o plano de esvaziamento de presos em delegacia. Os 82 presos da Delegacia Central de Colombo serão transferidos para o Complexo Penitenciário de Piraquara, também na Região Metropolitana de Curitiba. União da vitória quer a mesma coisa, antes que aconteça uma tragédia. Ou o cumprimento da interdição da cadeia da 4ª SDP, o que vier primeiro.
As estatísticas da própria Secretaria de Segurança do Paraná (SESP-PR) revelam um dado alarmante: a 4ª Subdivisão Policial (4ª SDP) com sede em União da Vitória é a última em número de investigadores e escrivães. Os dados são referentes ao ano de 2013. Segundo relatório que consta no Departamento de Polícia Civil, Divisão Policial do Interior (DPI), a delegacia de União da Vitória conta com oito investigadores atualmente. Em toda a SDP, com abrangência de oito municípios, o número de investigadores chega a 11. Considerando que a população atendida é de 137.295 habitantes, a 4ª SDP disponibiliza um investigador para cada 12.481 habitantes.
A Polícia de União da Vitória está na 20ª e última posição com 11 investigadores e nove escrivães (atualizado). É preciso lembrar que, além de tudo, os policiais civis ainda se desdobram administrando a cadeia da 4ª SDP.
A delegacia de União da Vitória tem dados que comprovam que a Polícia Civil precisa de investimentos urgentes. Em 2013 foram instaurados em União da Vitória e subordinadas (Porto Vitória, Paula Freitas, Bituruna, General Carneiro e Cruz Machado) 961 ocorrências que resultaram em investigação e inquérito policial. Em 2014 a sobrecarga de serviço continua. Foram registrados em janeiro 650 boletins que resultaram em investigação. Em fevereiro foram 1057 e em março 687. Somente no primeiro trimestre de 2014 já foram 2394 ocorrências registradas na Delegacia de União da Vitória.
No encerramento desta edição a 4ª SDP sofreu mais uma baixa. A escrivã Eugênia Verus entrou em licença prêmio e no seu retorno será aposentada.
