ARTIGO: Como as coisas seriam

·
Atualizado há 12 anos

Por Vanderlei Woytowicz

Já falamos mais ou menos mil vezes um para o outro que nos amamos, mas sempre é bom lembrar de novo o quanto somos importantes na vida um do outro. Por isso digo mil e uma vez que te amo. Ficamos por muito tempo imaginando como as coisas seriam ou como seria o encontro dos corpos, mas nada é como se pensa, a vida acontece, ela só acontece. Já fizemos inúmeras promessas dizendo que não nos abandonaremos nunca, mas hoje com a barriga roncando de fome e sem você para tomar café da manhã na cama comigo, meus olhos lacrimejam saudade, do frio esbarrando os nossos pés entre o lençol azul royal com listras amarelas. A chuva continua a cair do lado de fora da porta da sala de estar.

O céu está cinzento, mas dentro de casa o amor fez tudo ficar com ar diferente, com algumas notas musicais estampadas na fronha do travesseiro, e lembro-me da gente rolando sobre o tapete. Talvez fosse a dança do amor disfarçada de tarde preguiçosa. Não sou trilíngue, nem tão pouco o dono do mundo, quero só ver o sol nascer e acender as luzes do quarto para esquecer os problemas vendo os pisca-piscas no preto da noite. Gostava tanto de te ver vestida com aquele vestido cor de berinjela e quando me dizia gostar da minha calça desbotada que eu havia ganhado de você no inverno passado.

Dois pingos e nada mais, até o balde receber as gotas da chuva pelo telhado com furinhos, a gota vez ou outra caía na cabeça e rolava até o peito com suavidade e um toque de filme romântico. Todo dia era festa e a arte de renovar era toda nossa de um cômodo até o outro. Toda a fumaça que vinha do banheiro quando tomava um banho quente, costumava abrir a porta e entrar espiar o corpo nu da donzela francesa com cabelos ondulados cor de terra. Houve muita gargalhada com textura de dor, mais o que importava era que as mãos estavam dadas e os dedos estremeciam. Não por medo. Por franqueza de companhia sincera e audácia de par.

Não seríamos nós se não fôssemos tão diferentes. Não pelas brigas. Pelas reconciliações. Quando a música tocava e o nosso inglês improvisado era forçado pelas cordas vocais ríamos muito, ríamos juntos pela falta de um idioma, mas criamos o que é nosso, um idioma de carícias. Não me esquecerei daquelas pantufas cafonas com duas orelhas grandes que se arrastavam pelo chão da casa, acredito eu que não esquecerá também do meu pijama do Batman. Fomos heróis um para o outro. Fomos nós dentro de casa. Antes mesmo de um pegar no sono, dizíamos no pé do ouvido o quanto tudo estava sendo bonito e mágico, e que não era para ser diferente. Era para ser como é.

Os cabides dispostos no guarda roupas com bilhetes que diziam que tudo era real não bastavam, era preciso comer bolo de chocolate com beijo gosto de novo lambuzado de verdade. Alguns livros ficavam sobre o criado mudo esperando para serem lidos por nós dois, lemos alguns outros que estavam nos esperando e rabiscamos algumas palavras fingindo ser dois escritores. Não passávamos de amadores. Ficávamos vermelhos quando intimidades eram contadas e a imaginação dava espaço para o sexo que unia duas dimensões, não é sacanagem. É sexo com amor. Já estava de manhã, abri os olhos e lá estava eu sobre a cama com uma flor nas mãos, olhei o espelho e vi-me sendo mastigado pelos sonhos. Foi tudo um sonho bom, mas sei que você existe.

Vanderlei Woytowicz é acadêmico do curso de Psicologia da Fundação Universidade do Contestado – FunC Porto União

Fique sempre atualizado

Entre no nosso grupo do WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!