ARTIGO: Consciência ardida

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Atualizado há 12 anos

Vanderlei Woytowicz

Certa vez perto de um riacho azul claro, passeava por ali um homem simples que recitava versos a espera de algum ouvinte, mal sabia ele que sempre houvera alguém o ouvindo, sua sombra refletida na água sempre o escutava enquanto era absorvida pela pureza cor do céu. Debruçava-se na beira e vislumbrava o sol, o rei amarelo que galopava com suas correntes quentes em volta da cintura, e fazia arder a intolerância, vez ou outra se recostava sobre uma grande árvore velha que dizia a lenda dar inspirações para quem lhe trouxesse um pouco de humildade e verdade sobre a terra e nas raízes. Cansou de esperar por milagres e foi embora.

Alguns dias depois o mesmo homem andava no mesmo lugar, era um refúgio do mundo para imaginar as fabricações de novos pensamentos positivos, um resgate da alma afogada no mundo dos hipócritas, esse homem por sua vez trouxe ao lugar um presente envolto por um embrulho, e aos poucos ele ia despejando sobre o lago alguns peixes, nesse momento chegou um segundo homem e o olhou friamente nos olhos quando as pupilas saltaram, e perguntou: – O que pensas que estás fazendo?

O homem envergonhado disse que o lago precisava ficar mais colorido e que nas águas claras faltavam almas sinceras e frágeis, assim como o mundo vem perdendo a chance de tentar salvar as que estão vivas, eu quero inserir novas no mar de tentativas. O segundo homem que havia chegado saiu sem ao menos fazer um novo questionamento. Os peixes saltavam para cima envaidecidos pela chance que tiveram de viver em um ambiente suficientemente bom e acolhedor e assim foi durante dias e meses, até que os dois homens esbarraram-se novamente no mesmo lugar debaixo da árvore que trazia no tronco algumas promessas de outras pessoas que já estiveram ali, suplicando por milagres e ao sentarem-se à sombra liam juntos alguns pedidos, haviam muitos, recitavam em voz alta um para o outro. Não relembraram o acontecido de um tempo antes entre os dois, haviam descoberto o perdão e apenas uniram forças e saliva para darem conta de tantas vidas que precisavam de ajuda e que por ventura poderiam ir ao encontro das almas sofredoras com um pouco de paz.

Perderam a noção do tempo e a lua estava exposta com um véu brilhante no céu e refletia no lago os peixes que rezavam como os humanos e pediam a Deus que os homens da terra se tornassem homens de fé e esperança. Diante daquela cena, tiveram uma tomada de consciência gigantesca, e ao ouvirem o som dos pequenos coloridos ofuscaram toda a ignorância e caíram de joelhos e inevitavelmente as lágrimas recobriam o lago, souberam compreender naquele momento que a lenda estava sobre os olhos. A árvore balanceou os galhos com o vento sussurrando entre as folhas: O milagre acontece todos os dias.

Vanderlei Woytowicz é acadêmico do curso de Psicologia da Fundação Universidade do Contestado – FunC Porto União

 

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