Por Diane Daniela Gemelli
O meio ambiente é mais do que a natureza natural e estrutural do meio, abarca o conjunto das dinâmicas, trocas de fluxos e energias que, envolve essencialmente nós seres humanos, portanto a complexidade das relações sociais.
Como nos diz o geógrafo Ruy Moreira, a natureza está no homem e o homem está na natureza, porque o homem é produto da história natural e a natureza é condição concreta, então, da existencialidade humana. Deste modo o meio é condição inerente para a reprodução social e biológica que envolve a dimensão humana.
Refletir sobre o meio ambiente requer que pensemos na(s) forma(s) de uso e apropriação que a sociedade moderna tem feito do mesmo. Isso implica essencialmente em questionamentos. O que tem provocado a destruição/degradação do meio ambiente? Quais os desdobramentos para a sociedade perante a constante espoliação ambiental?
Nesse bojo é preciso demarcar o que/quem tem provocado os maiores danos ambientais e portanto sociais, haja vista que essas esferas não se separam. Isso implica em refletirmos sobre o modelo de desenvolvimento econômico que (des)ordena constantemente o meio ambiente e portanto a sociedade. Um modelo moderno e globalizado que apostou no modo de vida urbano, com crescentes taxas de urbanização em detrimento da população rural, e como um todo combinado, gerando concentração de terras, expulsão e expropriação de camponeses de seus territórios de vida e trabalho, aumento no número de favelas e de pessoas vivendo nas cidades em condições degradantes e degradadas do ponto de vista ambiental e social.
Deste modo a destruição da natureza também é a destruição de modos de vida, de culturas, de um conjunto de saberes diante de um projeto hegemônico de expansão do capital no campo e na cidade, que leva em sua essência a desumanização do homem à medida que somos colocados a viver num ambiente doente e que nos adoenta, por exemplo, com uso crescente de agrotóxicos para atender a agricultura moderna que negou e nega, as práticas, saberes e conhecimentos tradicionais dos diferentes povos em nome de pacote tecnológico moderno porém, atrasado, que atende pelo nome das multinacionais do agronegócio exportador.
É preciso sinalizar que os desdobramentos com o uso de agrotóxicos não é um problema somente das novas fronteiras agrícolas. Em 2012 o estado do Paraná de acordo com o SINAM – Sistema Nacional de Atendimento Médico foi o estado que mais recebeu notificações de intoxicação de agrotóxicos de uso agrícola.
A médica, professora e pesquisadora Raquel Rigotto tem enfatizado a degradação do ambiente e das vidas a medida que o uso de agrotóxicos tem provocado a contaminação de aquíferos, do solo, do ar e das pessoas, em seus trabalhos tem demostrado a incidência crescente de câncer e de doenças como depressão, transtornos psíquicos, além de ansiedade, insônia, déficit de atenção.
Portanto esse modelo de sociedade não nos representa, um modelo de reprodução social assentado na acumulação crescente de capital e na desumanização dos sujeitos sociais não pode ser um modelo de sucesso. Precisamos repensar nas bases dessa sociedade, urbana-industrial, concentradora de terras, que mercadifica terra, água, ar, e apostar em outro modelo que preze pela humanização do homem e pelo entendimento do meio ambiente enquanto patrimônio e não como recurso econômico. Isso significa em apostarmos na reforma agrária, contra a destruição de territórios e comunidades tradicionais, contra o uso de agrotóxicos e transgênicos, assinalando a agroecologia enquanto um modo de produção sustentável em sua dimensão ecológica, sociológica e política.
Portanto, lutar por uma vida que ainda tenha sentido, só levando em consideração essas dimensões faz sentido falarmos em meio ambiente, se não negarmos as bases do modelo de destruição, pouco vale discutirmos medidas de proteção ambiental. É preciso demarcar uma posição e lutar por uma outra sociedade, só assim faz sentido falarmos em meio ambiente, um ambiente com gente, para além do modelo ambientalmente predatório e socialmente injusto que está colocado.
Diane Daniela Gemelli é professora do departamento de Geografia da UNESPAR – União da Vitória e doutoranda em Geografia pela UNESP – Presidente Prudente/SP. (daianegemelli@yahoo.com.br)