Detentos ganham emprego e nova oportunidade

Abbaspel admite reeducandos da UPA de Porto União e já pensa em ampliar quadro pessoal. Trabalhadores cumprem pena em regime semi-aberto

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Atualizado há 12 anos

Por Mariana Honesko

Zauri esbanja disposição e não esconde vontade de continuar na empresa depois do cumprimento da pena
Zauri esbanja disposição e não esconde vontade de continuar na empresa depois do cumprimento da pena

Há três semanas, nove detentos da Unidade Prisional Avançada (UPA) de Porto União, encaram um cotidiano comum à milhares de trabalhadores do País. Acordam cedo, tomam café, colocam o uniforme e vão em busca do pão de cada dia. A diferença é que nenhum deles deixa em casa família, mulher, marido ou filhos. Para trás, deixam uma cela e a certeza de que o erro ainda precisa ser pago.

Eles participam do projeto de ressocialização e a partir do trabalho, da colocação da mão na massa mesmo, encontram uma nova oportunidade de mudar os traços do destino. A ação é uma iniciativa do Estado, por meio da unidade prisional, do departamento de Administração Prisional e da Secretaria de Justiça e Cidadania, ambos catarinenses.

Em Porto União, a Abbaspel, na Área Industrial, recruta o maior contingente de reeducandos. “Começamos com sete e já estamos com nove e queremos pegar mais dez para o setor de madeira”, revela o empresário Mohamed Abbas, proprietário do grupo Abbas. Os nove detentos trabalham no setor de empacotamento de papel, como auxiliares de produção. O trabalho é diário, começa às 8 e termina às 17 horas. “É a primeira vez que fazemos este tipo de contratação. Não temos reclamação. Está sendo muito bom”, garante. Conforme Abbas, o ingresso de presos no chão de fábrica não causou estranhamento. Na verdade, o efeito foi contrário. “Conversamos com os líderes para terem respeito e até para não chamarem eles de presos mas sim de reeducandos”, explica o empresário.

Francisco: trabalho na empresa é a primeira oportunidade desde o ingresso no regime semi-aberto
Francisco: trabalho na empresa é a primeira oportunidade desde o ingresso no regime semi-aberto

Deu certo. Os reeducandos participam de todas as atividades dos colegas de trabalho e por ele, recebem salário mínimo. A empresa não tem vínculos empregatícios mas garante aos colaboradores transporte e alimentação. O ônibus da Abbaspel apanha os detentos na porta de “casa” e os entrega ali também, no final do dia. Nas quartas, os nove novos funcionários recebem folga. É quando a visita dos familiares ocorre na UPA. “Ai, no sábado, eles compensam o dia”, esclarece Abbas.

Conforme a direção da UPA, a empresa Paulo Soransso Feiras e Eventos também participa do convênio, com o emprego de três reeducandos. A prefeitura e a In-Brasil estão em processo final de inserção na proposta. A UPA abriga hoje 117 detentos.

Empresário Mohamed Abbas acredita no potencial de inclusão dos detentos e recomenda adoção do projeto
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O papel de uma vida normal

Eles não ficam algemados, não usam roupas de cores diferentes e não ficam separados dos demais trabalhadores. Para cada um dos nove reeducandos, o trabalho fora dos muros da UPA é sinônimo de recomeço. Wilson de Souza tem 34 anos e vai precisar ficar 21 atrás das grades. Ele confirma os passos falsos e não nega os erros que o levaram à pena e hoje, ao regime semi-aberto. “Era vida louca. Estar aqui é muito massa”, sorri. “Quero melhorar e cuidar das minhas filhas”, completa.

Os pequenos que ficaram em casa também motivam a jovem Priscila Lúcia Cardoso, de 21 anos. Na UPA, ela vai passar mais oito anos, período em que vai deixar de acompanhar de perto o crescimento de sua filha, de dois anos. “Mas é ela quem me dá força para o trabalho”, diz, confiante. Priscila experimenta a saudade e outras sensações. Ela é estreante no mercado de trabalho e confessa que algumas obrigações ainda são experiências pouco conhecidas. Acordar cedo, por exemplo, ainda não é tão simples. “Mesmo assim é bom estar de volta, ter a oportunidade de voltar para a sociedade”, afirma.

Zauri de Souza, de 41 anos, é um dos mais alegres do grupo. Faz piadas, caçoa dos mais velhos e trabalha duro. “Esta oportunidade é excelente. Fomos bem aceitos pelo pessoal e eu quero continuar depois que cumprir a pena”, sorri, anunciando seus projetos. É do lado de Francisco Agostinho Machado, de 62 anos, idoso que cumpre dez anos de pena, que ele trabalha. Ele está no semi-aberto há oito meses e pela primeira vez desfruta de um trabalho fora da UPA. Na Unidade ele já trabalhou na produção dos grampos e na cozinha. “Agora é a volta para o convívio social”, sorri.

riscila trabalha ao lado de Wilson: cumplicidade nas novas experiências
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As penas dos detentos – e diretamente a vida de cada um – dependem do trabalho para serem cada vez menores. Conforme a legislação, a cada três dias de serviço, um dia da pena é diminuído.

Conselho da Comunidade vai discutir inclusão em UVA

Justamente quando Porto União inicia o projeto de ressocialização, o Conselho da Comunidade volta com suas atividades em União da Vitória. Hoje, o órgão vinculado ao Poder Judiciário do Paraná, renova suas propostas e inaugura sua nova sede, no Tribunal do Júri, no Fórum de União da Vitória.

A colocação dos detentos, especialmente de boa parte dos 57 presos da 4ª SDP, é uma das bandeiras que o órgão vai defender. “Mas, mais tarde. Até lá, temos muitas outras coisas para fazer pelos presos”, comenta Bruna Rulf, membro do conselho. Entre elas estão as melhorias das condições dos presídios e a oferta de cuidados básicos com a família e com os detentos. “Desde acompanhamento jurídico até o encontro de familiares, já que alguns os abandonaram”, pontua Bruna.

O Conselho da Comunidade vai funcionar todos os dias, de segunda à sexta-feira, das 12 às 18 horas. O serviço é gratuito. Assina a presidência da instituição, Carlos Alberto Senkiv.

Detentos - CAPAConvênio da Justiça está aberto para mais empresas

Há alguns dias, reportagem de O Comércio mostrou o início do projeto na cidade. Conforme a reportagem, toda empresa interessada na proposta e apta para isso, pode aderir ao convênio. Abbas é um potencial defensor da causa e recomenda a “adoção”. “É uma oportunidade para que eles cumpram a pena mas trabalhem. Muitos querem continuar depois de cumprir a pena e, se seguirem bem, podem ser aceitos”, confirma o empresário.

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