Saúde discute “rodízio” de atendimento nos hospitais

Entenda o sistema de escala clínica das unidades hospitalares praticado em União da Vitória

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Atualizado há 12 anos

Por Mariana Honesko

Em Porto União, placa indica próximo passo: pacientes podem ir sozinhos ao hospital em caso de urgência e emergência
Em Porto União, placa indica próximo passo: pacientes podem ir sozinhos ao hospital em caso de urgência e emergência

De repente, o Corpo de Bombeiros está com alguém machucado dentro de sua unidade. O processo precisa ser rápido para garantir que aquela pessoa não se torne estatística ou tenha sequelas mais sérias. Na porta do hospital, a comunicação entre militares e atendentes é breve mas funcional. No entanto, um monossílabo pode por em risco todo o trabalho da Corporação. Basta um “não” para que o processo tenha que fazer o caminho inverso. O dia, ou a semana, não é daquele hospital: será preciso entrar na ambulância e encontrar a unidade “certa”, credenciada para aquele espaço de tempo dentro do calendário.

A situação parece estranha. mas é comum. Em União da Vitória, o atendimento de emergências nos dois hospitais – Maternidade e São Camilo – segue uma espécie de rodízio. O exemplo citado no início da matéria é fictício, embora bastante similar com o depoimento de militares do Corpo de Bombeiros de Porto União, por exemplo, e endossado pelas queixas dos familiares de pacientes que se sentem prejudicados pelo não atendimento necessário.

O comandante da unidade militar de Porto União, tenente Pacheco, confirma o atendimento com intervalos nas unidades e critica a postura. Na prática, segundo ele, a presença do modelo já gerou atrasos e um registro oficial, feito pelo próprio comandante, de demora no atendimento. Em uma ocasião, um paciente levado pela Corporação – antes da criação da unidade militar de União da Vitória apenas o do lado catarinense era responsável pela cobertura – precisou esperar duas horas dentro da viatura para receber atendimento. Em outra, o hospital teria negado atendimento, por não estar “na semana”. “Antes a gente sempre levava o paciente para o hospital mais próximo. Mas acontece que as unidades acabam não recebendo porque não é a semana deles”, diz o tenente Pacheco.

Diretor e Secretária de Saúde de União da Vitória já discutiram protocolo de triagem e transporte pré-hospitalar
Diretor e Secretária de Saúde de União da Vitória já discutiram protocolo de triagem e transporte pré-hospitalar

Entenda o sistema de escala

De acordo com a Secretaria da Saúde de União da Vitória, que assiste o atendimento praticado pelos dois hospitais da cidade – ambos privados mas com caráter beneficente, o que garante a filantropia – um protocolo de triagem “monitora” a gestão das unidades. O documento foi redigido logo após a criação do Corpo de Bombeiros de União da Vitória e envolveu, além da pasta, a então recém-instalada unidade militar e direção do São Camilo e Maternidade.

O texto estabelece hospital de referência e uma escala semanal, sempre iniciando às 7 horas das quartas-feiras. “Esse protocolo foi feito para disciplinar o encaminhamento dos pacientes. Um único hospital não suporta o atendimento, sozinho, de 30 dias”, explica o médio e diretor do Serviço de Saúde da Secretaria de Saúde, Teófilo Mamcarz. A prefeitura, por meio da Secretaria, mantém uma subvenção de contrato com os dois hospitais. Por mês, cada unidade recebe R$ 39 mil, para um “revezamento”: uma semana é de trabalho e a outra, de folga. “A escala funciona, mas os hospitais atendem o que é grave, sem distinção de semana, por exemplo”, observa. Nestes casos, a procura isolada – sem Bombeiros, por exemplo – é pelo hospital mais próximo, onde nem direção ou corpo clínico podem negar atendimento.

Referência

Segundo o protocolo, o Corpo de Bombeiros, que na cidade é quem faz de maneira plena os atendimentos iniciais e encaminhamento aos hospitais, é informado sobre a escala com antecedência.

O documento especifica ainda as referências e diz, por exemplo, que nos casos obstétricos, o hospital Maternidade deve ser procurado, independente da escala clínica. Já no caso dos atendimentos de trauma ortopédico, o São Camilo é quem recebe os pacientes.

Os atendimentos de emergência, onde há risco de morte, devem ser levados para a unidade mais próxima. Os sem risco, para o Pronto Atendimento (se for o caso, o médico de plantão encaminha o paciente para o hospital da escala).

A regra vale para quem é paciente do Sistema Único de Saúde (SUS). Pacientes com plano de saúde, por exemplo, tem a opção de escolher o hospital de sua preferência. “Os hospitais podem atender ao SUS. Eles tem um percentual para isso e por terem a garantia da filantropia, precisam fazer isso”, endossa a Secretária da Saúde, Ivone Calgarotto.

Emergências  -  03O sistema em Porto União

No município vizinho, o entendimento de “quem atende o quê” é bem simples. Em Porto União, o hospital São Braz é referência para todas as urgências e emergências. O sistema é tão prático que uma placa indica no Pronto Atendimento que, em caso de emergência, o hospital deve ser procurado. “Nós encaminhamos direto dos postos de saúde e as vezes nem precisa disso. A pessoa pode ir sozinha para o hospital”, explica o Secretário da Saúde no município, Jair Giraldi. “Urgência e emergência, é o hospital que atende. É um direito do cidadão”, completa.

Para Giraldi, a relação paciente e hospital não deve ter ruídos. O São Braz, por exemplo, conforme ele, recebe um incentivo de R$ 100 mil mensais – dos governos Federal e Estadual – para, apenas, deixar as portas abertas. Além disso, como filantrópico, a unidade precisa reservar cerca de 60% de sua estrutura para a rede pública. “Filantropia quer dizer atendimento de graça. Isso acaba nem sendo porque os hospitais recebem. Portanto, não pode haver dificuldade nesse atendimento. O médio não pode decidir quem merece viver ou morrer”, diz, taxativo.

Entenda as diferenças

Urgência

É quando o atendimento tem pressa mas a pessoa não corre risco. O paciente precisa de assistência rápida mas não há risco.

Emergência

É quando o caso é mais sério e tem risco à vida.

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