Por Amasilia Benghi
De seu ninho no beiral do telhado, a Rolinha observa o Beija-flor.
– Mas que é isso Beija-flor? Você já tão cedo desesperado em busca de alimento? Porque não fez como eu, optando pela segurança de um lar e comida farta? Os donos desta casa não esquecem sequer um dia de trazer a minha ração de quirera! Vivo descansada, pondo meus ovinhos e criando meus filhotinhos sem nenhuma preocupação.
– Olha, Rolinha! Você além de tola é intrometida – comenta o Beija-flor – cada um tem o direito de viver como deseja e de acordo com os dons e necessidades que Deus lhe deu – Eu necessito sugar 1.000 flores por dia para viver e, ainda hoje, pretendo viajar 3.000 quilômetros para atingir este número – continuou ele. Viva você de seu jeito e deixe-me viver como gosto.
– Mas você passa as noites ao relento numa árvore, num poleiro improvisado e perigoso, protegido muitas vezes da chuva e do vento apenas por uma folha! Isso é vida? – pergunta a Rolinha.
O Beija-flor orgulhoso, responde:
– No entanto, quando o dia amanhece e os raios do sol atravessam o arco-íris oculto no horizonte, só eu percebo porque vôo mais alto. A natureza é uma festa para os olhos! Todos os dias o mundo está diferente, mais flores surgem nos jardins, mais frutos nos pomares. Diferente é também a luz que se filtra através do espaço infinito e penso que sem o desafio da luta a vida não merece ser vivida – E, enquanto houver flores não me faltará alimento, porque elas me oferecem de graça seu delicioso néctar.
Mas a Rolinha insiste:
– De que adianta tanta liberdade, se não pode desfrutar da companhia dos seus e da convivência amiga com os vizinhos?
– Você está enganada Rolinha, afirma o Beija-flor. Minha empolgação não são conversas sobre assuntos domésticos e sem importância, mas a procura da beleza onde quer que ela se encontre. A cada dia embarco numa nova fantasia e o mundo é uma constante fonte de encantamento para quem ousa voar mais além.
– Você não será por acaso uma Amazilia, aquela espécie de beija-flor da América Central? pergunta a Rolinha curiosa.
– Você acertou, realmente eu vim de longe, vim voando, voando à procura de flores e aqui encontrei-as por toda parte, com o mais delicioso néctar: a amizade. Por isso, escolhi esta cidade para morar e me deixei ficar para sempre.
Amante da literatura por toda a sua vida, Amasília Benghi, falecida no dia 14 do corrente, dedicou-se nas três últimas décadas a registrar memórias, a escrever ensaios, historinhas infantis e pequenos contos, dentre os quais o diálogo “O Beija-flor e a Rolinha”