Homenagem para Porto União: por Gabriel Caesar

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Atualizado há 14 anos

*Por Gabriel Caesar*

Se a minha vida fosse um espetáculo artístico, Porto União teria sido a estreia. O palco onde as cortinas se abriram. La na Rua Prudente, no Hospital Miguel Farah.

O espetáculo sempre conta com personagens, figurantes, equipe técnica e obviamente, público. Ha quatro gerações minha família encontra-se nessa cidade, abraçados pelo Iguaçu, fomos felizes, tivemos vitórias, derrotas e emoções.

Estou seguro que foram mais alegrias do que tristezas, mais vitórias do que derrotas. Ha quase cem anos somos parte dessa terra, formamos também essa gente. Meus tataravós foram proprietários do Hotel Porto União, meu bisavô teve uma fábrica de colchões na Rua Santos Dummont, meu avos são há mais de 50 anos vizinhos do Clube 25 de Julho, meus pais tiveram por duas décadas comércio na Prudente.

Assim foi possível que eu me tornasse mais parte dessa comunidade, não apenas por ter ali nascido, mas por ali ter vivido e aprendido as melhores lições que todo porto-uniense conhece. Apenas em Porto União é possível ver a Bandeira Brasileira sempre hasteada e tremulando as margens do Iguaçu na casa do Cel. Bonn. Comer as deliciosas empadinhas do Bar do Ivo na Rua Matos Costa. Ter lições de vida e da importância do trabalho que “glorifica o Homem”.

Também há a deliciosa Bratwurst da Nena, nem na Alemanha se encontra igual – falo isso com conhecimento de causa -, alem do pãozinho da Dona Irene, o mais caro da cidade, mas também o mais gostoso e tradicional. Pulamos carnaval no Clube Concórdia onde gerações de moradores da Cidade Amiga já se divertiram, dançaram, brincaram e amaram. Temos festas de formatura no Clube Aliança, para festejar noite a dentro, até terminar a noite no Mirante do Vitinho contemplando o nascer do sol refletido na água de nosso rio. Estudamos no Colégio São José com crivo disciplinar do Frei João.

Somos cumprimentados pelo nome ao entrarmos em um banco ou algum outro tipo de estabelecimento público. Participamos de eventos especiais no Cine Ópera com “roupas de domingo”. Nossa cidade tem lendas, a mais famosa deve ser sobre a Cobra do Iguaçu. Interessante pode até ser, mas lendas vivas são mais particulares e ainda circulam entre a gente. Seja o repórter que sempre faz narrativas em tempo “record”, ou a grande dama da educação catarinense, D. Astrogilda de Mattos, que agora repousa em sua cadeira de balanço em sua varanda.

Porto União é simplesmente singular. Cidade Amiga. Amizade e levada a sério nesse recanto, nepotismo e ajuda em setores públicos, chamam-se amizade. Temos afinal que ajudar os conhecidos em dificuldades. Apenas em Porto União, católicos, protestantes, mulçumanos e ateus se uniram contra um alto funcionário do Judiciário que tentou silenciar os sinos da Igreja Luterana causando um dia de caos social. Comprar a pipoca de canhão na Praça Hercílio Luz aos domingos à tarde depois de ver o “movimento” no centro.

Um porto-uniense muito ilustre nos anos 90 foi o Biscoito, mascote da Regina da Luz Cabral. Naquela época, a ortodontia não era muito presente em Porto União, como sequela de um atropelamento, Biscoito ficou com um sorriso singular que poderia ter sido corrigido com alguns anos de tratamento dental intensivo.

Esse cachorro passeava satisfeito pelo centro de Porto União, onde algumas vezes, ganhava até mesmo um galeto ao visitar o estabelecimento da D. Inah e do Sr. Lauro Schneider, o mais curioso na história do Biscoito é a fé que esse cachorro era sua religiosidade e seu engajamento pastoral.

Ele gostava muito de ir às missas da Igreja Matriz com sua ama e chegou fazer catequese com os filhos dela. Muito comum era vê-lo cuidando de operações financeiras na Caixa Econômica da Rua 7 de Setembro. Após outro trágico atropelamento, ele partiu, deixando saudades e boas lembranças para aqueles que o conheceram.

Com toda certeza, todo o cidadão de Porto União, seja ele de nascimento ou de coração, deve ter se identificado com pelo menos um desses aspectos que ajudam a formar nossa identidade. Sei que a honraria mais alta de nosso município chama-se Ordem do Pinhão, como a escolha do agraciado acontece, não sei. Mas sei que se há uma pessoa que merece receber tal honraria, essa pessoa chama-se Sultane Yared.

Ela já era cidadã de nosso município antes mesmo dele existir politicamente, ela esteve presente no dia da fundação de Porto União, foi expectadora de Getúlio Vargas discursando da sacada do Hotel Internacional. Ali mesmo, na Prudente, Sultane corria com uma varinha atrás do arteiro Aníbal Khury.

Através das notas do piano dela, reproduzindo a melodia de Felício Domit com a letra de Yvonnich Furlan que ouvi e aprendi a cantar “Cidade Amiga”. Mesmo estando tão longe, parafraseio nosso Hino Municipal e manifesto aqui minha homenagem a Porto União, lembrando-se de momentos que vivi junto de ti.

Gabriel Caesar – Porto-uniense nato, licenciado em Letras, aluno de Estudos Interculturais Brasil-Alemanha (M.A.) da UFPR e da Universidade de Leipzig – Alemanha

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