*Por Andréa Leonora*
“O senhor sonhava com uma fábrica dessas em Lages?”
“Sinceramente, não.”
“Pois isso é só o começo.”
O diálogo ocorreu entre o empresário César Olsen e o governador Raimundo Colombo, na manhã de segunda-feira, 3, ao final do ato de assinatura do protocolo de intenções entre o governo de Estado de Santa Catarina e a Novaer Craft Empreendimentos Aeronáuticos, empresa de São José dos Campos (SP) que vai se transferir para Santa Catarina e produzir aqui a aeronave T-Xc em duas versões, civil e militar.
Olsen ganhou destaque em praticamente todos os discursos realizados ao longo do evento, na Federação das Indústrias (Fiesc), por ter sido um entusiasta do acordo. Na sequência da conversa com Colombo, foi além ao afirmar: “Santa Catarina será o segundo polo da América Latina em produção de aeronave. São José dos Campos, por conta da Embraer e, agora, Santa Catarina”.
Pelas informações repassadas pelo presidente da Novaer, Graciliano Campos, será isso mesmo. A começar pelo avanço tecnológico. A aeronave é pioneira no uso de fibra de carbono, mais resistente e mais leve que o aço, imune à corrosão e de vida infinita em fadiga, diferentemente do alumínio, matéria prima normalmente usada na indústria aeronáutica. “Nosso avião é o que tem maior conteúdo de fibra de carbono entre os aviões de sua categoria. É um uso pioneiro.”
O investimento total para a instalação da fábrica de aeronaves no estado será de R$ 80 milhões. Diretamente, serão gerados 400 empregos, sendo um quarto só de engenheiros especialistas no segmento. Indiretamente, a projeção é de mais pelo menos 1.500 vagas.
Ele explicou que a escolha por Lages se deu por uma conjunção de fatores, entre eles o espaço aéreo praticamente livre para acomodar o processo produtivo, uma vez que antes de serem entregues aos clientes as aeronaves fazem um ou dois voos.
De acordo com o presidente, o protótipo prova de conceito já está pronto e voando, devendo ser apresentado em Lages até o final do mês. “Nosso protótipo em configuração de produção fica pronto em abril de 2013, com tecnologia e desenvolvimento próprios. Temos, hoje, uma equipe de 26 engenheiros e técnicos trabalhando diretamente no projeto, e outras cem pessoas consorciadas. A expectativa é que em dois anos tenhamos a fábrica pronta e equipada, equipe treinada e o avião certificado, começando sua produção.”
Até o final do terceiro ano de operação a unidade deverá alcançar a produção de 120 aeronaves por ano, ao preço médio de 700 mil dólares. Parte da produção já tem garantia de comercialização. Uma empresa dos Estados Unidos, maior mercado de aviação geral do mundo, à frente apenas do Brasil, assinou um termo de compromisso de compra de 200 aeronaves.
O mercado brasileiro está totalmente aberto para a chamada aviação geral de pequeno porte, categoria que inclui desde pequenos aviões de propriedade particular até modernos jatos executivos e aviões de treinamento civil e militar, entre outras atividades aéreas. Na década de 1980 o país produzia aviões dessa categoria, mas, atualmente, o mercado interno é abastecido apenas por companhias estrangeiras. “Esse espaço é o que vamos ocupar e queremos, a partir do Brasil, alavancar negócios em outros países. Nosso produto é tecnologicamente avançado e competitivo”, revelou Campos, adiantando que a Novaer tem como projetos futuros a produção de aviões agrícolas, anfíbios e bimotores.
Otimismo
O governador Colombo estava especialmente entusiasmado durante o evento. Enumerou todos os recentes anúncios de investimentos no estado e as novas empresas que já começaram a produzir, e disse que a confirmação da vinda da Novaer coroou um grande esforço. “Este é o setor, o de Ciência, Tecnologia e Inovação, no qual nós temos que crescer. Temos um estado pequeno, um modelo econômico que precisa ser aperfeiçoado para ser mais competitivo”.
É a mesma opinião do ministro da Ciência e Tecnologia, Marco Antônio Raupp, que serviu de testemunha, juntamente com o senador Luiz Henrique da Silveira, no ato de assinatura. Raupp afirmou que Santa Catarina é o estado brasileiro líder na concepção de que ciência, tecnologia e inovação são conceitos fundamentais para a modernização da sociedade e para o desenvolvimento do país.
Ele lembrou que a estatal federal Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) tem R$ 1,9 bilhão de contratos ativos no estado e anunciou, com o aval do presidente da Finep, Glauco Arbix, que também estava no evento, a disposição de financiar os recursos necessários para a estruturação da Novaer em Lages. “Temos um grande futuro a construir no estabelecimento de um segmento da indústria aeronáutica brasileira em Santa Catarina”, disse.
Segundo o ministro, a Finep tem recebido importantes reforços orçamentários por parte do governo federal: R$ 4 bilhões em 2011, R$ 3 bilhões em 2012 e R$ 5 bilhões em 2013. “Para um orçamento que ficava sempre na faixa dos seis ou sete bilhões, é um grande impacto.”
O presidente da SCPar, Paulo César da Costa, explicou que o Estado passará a ter participação no capital social da empresa, de até R$ 15 milhões, bem como assento no Conselho de Administração. “Vamos também criar um programa estratégico para a indústria aeronáutica e de defesa, com regime tributário especial para incentivar o desenvolvimento do setor”, adiantou.
O anfitrião, presidente da Fiesc, Glauco José Côrte, lembrou que há três anos o Senai-SC foi pioneiro na implantação de cursos técnicos voltados para a área de manutenção de aeronaves e cursos teóricos de qualificação de piloto privado. “A oferta de mão-de-obra qualificada pesou na decisão da empresa. E esse é um mercado em expansão, tanto que todos os alunos concluem o curso já com emprego garantido. Estamos prontos para atender o crescimento desse setor.”
Na parte da tarde, o governador Raimundo Colombo teve uma reunião com o presidente da Federação das Cooperativas de Agropecuária (Fecoagro-SC), Luiz Vicente Suzin. Trataram da possibilidade de investimentos, desta vez na área portuária.
Andréa Leonora trabalha na ADI-SC/Central de Diários/CNR-SC