Por Mariana Honesko
Especialmente há pouco mais duas semanas, a Umbanda teve sua popularidade aumentada na região. Mas, o súbito acompanha a tragédia envolvendo um ônibus de turismo de União da Vitória e a morte de 51 passageiros. Como já mostraram outras reportagens, a maioria dos ocupantes do carro descia a Dona Francisca, em Santa Catarina, para um encontro religioso da doutrina em Guaratuba, no litoral do Paraná.
Para entender melhor o que motivou o empenho dos ocupantes do Costa e Mar, O Comércio procurou conhecer melhor os princípios da religião e qual é a atuação dela em União da Vitória e Porto União. Nas Cidades Irmãs, a cultura tem uma legião de adeptos que, nos terreiros, encontram a oportunidade para manifestar sua fé.
Nas Cidades Irmãs
Em União da Vitória e Porto União, cerca de 70 terreiros estão em funcionamento. São “casas”, grupos mediúnicos pequenos, que há décadas vem se reunindo na região. Acredita-se que a Umbanda esteja presente nas Cidades Irmãs há cerca de um século. São aproximadamente 1.500 fiéis e o dobro disso na assistência, atuando como expectadores dos rituais. Márcio Zenni é Pai de Santo no terreiro Tribo de Aruanda. O termo, “pai de santo”, não é sua preferência. Zenni adota o Sacerdote de Umbanda, como referência a si. Aos 41 anos, filho de mãe e neto de avos umbandistas, adotou a religião ainda no berço. Mas, além do que aprendeu em casa, mergulhou na história da crença. Paralelo ao estudo, mantém uma vida tranquila: é separado, pai de dois filhos, contador e administrador. “A Umbanda é uma grande família. Umbanda é amor”, sorri.
É de Zenni que vem a explicação: a Umbanda é fruto da ramificação de outras religiões, especialmente uma cisão do espiritismo. “São vertentes diferentes e na nossa região, os ritos são bastante misturados”, conta. “Mas é uma religião que engloba todas numa mesma”, completa. Segundo ele, a religião trabalha com três pilares: paz, amor e caridade. Na religião, podem ingressar todos os que simplesmente desejam fazer isso. Crianças, idosos, homens e mulheres são bem-vindos. Por isso, embora tenha a mediunidade como diferencial, não é necessário que seus membros a tenham desenvolvida. Basta querer. A Umbanda, de acordo com Zenni, não trabalha com “amarração”, ou seja, com ações para desmanchar casamentos, por exemplo. Tampouco, sacrifica humanos em seus rituais. “Não trabalhamos com amarração, sacrifícios de qualquer ser vivo e de maneira alguma com sangue como muitos pensam. Trabalhamos com luz e amor”, esclarece.

Para se manter, os terreiros de Umbanda são mantidos pelos próprios membros. Doações e uma mensalidade paga de maneira voluntária pelos médiuns garantem a manutenção. Assim, no Aruanda, por exemplo, nada é cobrado, sequer uma vela.
Religião nasceu em 1908
Para ajudar a entender melhor a posição e a crença da Umbanda, O Comércio contou com a ajuda do advogado são-bentense, André Luiz Grossl e de Jean Pierre de Souza, umbandista há cinco anos em Joinville (SC).
Conforme Grossl, a Umbanda é uma religião voltada para a caridade. Ela é brasileira, nascida em novembro de 1908, através do médium Zélio Fernandino de Moraes. O princípio de servir bem acompanha o nascimento da doutrina. “O Caboclo das 7 Encruzilhadas, fundador da religião, definiu a Umbanda como sendo “manifestação do espírito para a caridade”. Portanto, qualquer lugar que se diga de Umbanda, mas que, por ignorância ou inidoneidade pratique o mal a quem quer que seja, deixa de ser Umbanda”, explica o advogado.
A Umbanda acredita em Deus mas na crença, ele é chamado de Zambi ou Olorum. É uma religião que serve aos Orixás sob o comando de Oxalá, tido como Mestre Supremo. “Em geral, o Orixá Oxalá é sincretizado com Jesus Cristo. Mas é uma associação, pois Oxalá é o Orixá da paz, do branco, filho de Olorum. A Umbanda Jesus Cristo é o santo ao qual Oxalá é sincretizado”, esclarece Jean Pierre.
A religião tem sua base na mediunidade, ou seja, a faculdade que determinadas pessoas possuem de entrar em contato com os espíritos. Diferentemente das demais crenças, na Umbanda, quem realiza as doutrinas e sacramentos é o espírito manifestado, e não o sacerdote. “A finalidade da mediunidade é trabalhar em prol da caridade, servindo de canal para que os benfeitores do espaço possam atuar na vida dos encarnados, realizando os passes, trazendo mensagens e cura, dando conselhos e conforto”, detalha Jean Pierre. “A Missão é sempre ajudar e com isso evoluir espiritualmente”, completa.
Umbanda e Quimbanda
As duas na verdade são uma só: não existe Umbanda sem Quimbanda. Na Umbanda há os orixás, que são forças da natureza, e os guias espirituais, que são os pretos-velhos, os caboclos, os erês, por exemplo. Já na Quimbanda, Exus e Pomba Giras aparecem como guardiões, regendo os caminhos.
Há 107 anos
O aniversário de fundação da Umbanda é uma referência ao ano de 1908, quando o então adolescente, Zélio Fernandino de Moraes, foi levado à Federação Espírita de Niterói, no Rio de Janeiro, após estranhamente recuperar-se de uma paralisia. Ao colocar uma flor no centro de uma mesa, deu início a uma confusão, pois seu gesto contrariou as normas da casa e ainda levou diversos médiuns presentes a incorporar caboclos e pretos velhos.
Advertido pelo dirigente dos trabalhos, Zélio respondeu: “Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã estarei na casa deste aparelho para dar início a um culto em que estes poderão dar sua mensagem e, assim, cumprir a missão que o plano espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem saber meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim”.
Foi assim que, segundo diversas fontes, surgiu esta religião considerada genuinamente brasileira.
Vida após a morte
Para a doutrina, a morte não existe: a vida continua sempre. O que ocorre, segundo a religião, é o “desencarne”, ou seja, quando o espírito deixa o corpo e volta para um plano espiritual de onde teria saído. Os adeptos creem que a vida é apenas uma passagem e que a espiritual é sim, a verdadeira.