O excesso de chuva no Paraná está prejudicando o andamento da safra agrícola, provocando atrasos no plantio da soja e comprometendo a qualidade do trigo que ainda permanece nas lavouras. Além das perdas financeiras, os agricultores enfrentam dificuldades para realizar os trabalhos no campo e preocupações com o calendário do milho safrinha.
Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento (Seab), o plantio da soja havia alcançado apenas 39% dos 5,7 milhões de hectares previstos no Estado ao final da primeira quinzena de outubro.
O cenário é consequência de um setembro marcado por precipitações acima da média. Em 14 estações meteorológicas do Simepar, o volume acumulado foi o maior registrado para o mês em mais de 25 anos de monitoramento.

Produtores enfrentam atrasos e custos adicionais
Em Manoel Ribas e Ivaiporã, no Vale do Ivaí, o produtor Marcelo Alberton cultiva 87,1 hectares de soja e 43 hectares de trigo. Segundo ele, as condições meteorológicas impediram a colheita do cereal no período adequado e comprometeram o planejamento da safra de verão.
“Do início de setembro até agora, tivemos apenas seis dias com abertura de sol que permitiram o plantio da soja. No entanto, ainda havia trigo para colher”, relata.
Com o atraso, o agricultor precisou rever a escolha das variedades de soja. A intenção inicial era plantar cultivares de ciclo longo até 5 de outubro, mas a sequência de chuvas obrigou a adoção de alternativas de ciclo mais curto.
Em Engenheiro Beltrão e Roncador, no Noroeste do Paraná, Mauro César Volponi dos Santos enfrenta situação semelhante. Dos aproximadamente 750 hectares destinados à soja, apenas 30% haviam sido semeados. O atraso estimado é de 20 dias.
O produtor relata que, em uma das semanas mais críticas, o acumulado de chuva chegou a 250 milímetros, provocando erosão, encharcamento e dificuldades para a entrada de máquinas.
Além disso, a necessidade de reaplicação de herbicidas para combater plantas daninhas pode representar um custo adicional de R$ 200 por hectare nas áreas afetadas.
Trigo perde qualidade e valor comercial
O excesso de chuva no Paraná também compromete a colheita do trigo. A permanência prolongada das espigas no campo, sob condições de elevada umidade, favorece doenças e reduz a qualidade dos grãos.
Entre os problemas identificados estão a queda do peso hectolítrico (PH) e do Número de Queda (Falling Number), indicadores importantes para determinar a classificação comercial do trigo.
Segundo a coordenadora do Departamento Técnico e Econômico do Sistema FAEP, Ana Paula Kowalski, a deterioração pode fazer com que o cereal perca características necessárias para a produção de farinha destinada à panificação.
Com isso, o produtor recebe menos pelo produto. Em situações mais graves, as perdas podem até inviabilizar a colheita.
Outro problema é a dificuldade de secagem dos grãos. Cooperativas enfrentam grande demanda por produtos com umidade elevada, provocando filas, despesas adicionais com transporte e paralisação de máquinas.
Atraso da soja ameaça milho safrinha
Os impactos das chuvas podem se estender para 2027. O atraso no plantio da soja tende a comprometer a janela ideal para a implantação do milho de segunda safra.
De acordo com Ana Paula Kowalski, a nebulosidade prolongada também pode aumentar o ciclo de desenvolvimento da soja, adiando ainda mais a colheita.
“Quando o ciclo da soja se alonga, o milho também é prejudicado. É um efeito cascata”, explica.
Na propriedade de Mauro César Volponi dos Santos, o plantio do milho estava previsto para começar no fim de janeiro. Agora, a expectativa é que parte da semeadura avance até a primeira quinzena de março.
O produtor teme perdas de produtividade, especialmente porque utiliza o milho na alimentação de suínos, o que pode comprometer também o planejamento da atividade pecuária.
Sistema FAEP defende proteção ao produtor
Diante das dificuldades, o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette, reforça a importância de políticas públicas e mecanismos de proteção à atividade rural.
“Os prejuízos das chuvas vão além da lavoura, uma vez que aumentam os custos de produção, comprometem a renda e dificultam o planejamento”, destaca.
Segundo Meneguette, o fortalecimento do seguro rural é fundamental para garantir condições de recuperação aos agricultores atingidos por eventos climáticos adversos.
O setor segue acompanhando as condições meteorológicas, enquanto os produtores aguardam períodos de tempo firme para retomar os trabalhos e reduzir os impactos sobre a safra.