Produtores rurais do Paraná participaram de uma imersão em tecnologias voltadas à gestão e à tomada de decisões nas propriedades. Em São Francisco e outras regiões da Califórnia, nos Estados Unidos, a comitiva organizada pelo Sistema FAEP conheceu aplicações de inteligência artificial no campo, análise de dados, imagens de satélite e automação agrícola.
O grupo é formado por presidentes e diretores de sindicatos rurais, representantes de órgãos do setor e técnicos da entidade. A programação incluiu visitas a empresas e centros de inovação que desenvolvem soluções para diferentes etapas da produção agropecuária.
As fotos do segundo grupo da viagem técnica estão disponíveis no Flickr do Sistema FAEP.

Análise avançada do solo
Na EarthOptics, especializada em inteligência de solo e dados agrícolas, os produtores conheceram tecnologias que integram análises físicas, químicas e biológicas. Com a automação dos processos, o prazo entre a entrada da amostra e a entrega dos resultados foi reduzido para cerca de 20 dias.
“Eles automatizaram todas as ações, o que garante qualidade na análise e melhores resultados. Além disso, com inteligência artificial, conseguem cruzar os dados disponíveis na literatura com os resultados e a realidade específica de cada área”, explica Flaviane Marcolini de Medeiros, supervisora regional do Sistema FAEP em Santo Antônio da Platina.
A empresa também utiliza análises do DNA do solo para identificar patógenos, como nematoides. Segundo Flaviane, a tecnologia consegue apontar até mesmo a raça desses organismos, permitindo que o produtor adote medidas específicas e evite perdas ou a disseminação do problema.
Outra aplicação apresentada foi a medição precisa do carbono presente no solo, informação que pode ser utilizada em levantamentos destinados à geração de créditos de carbono para a propriedade.
Trabalhadores virtuais nas propriedades
A escassez de mão de obra e o uso ainda limitado da inteligência artificial no meio rural brasileiro foram discutidos durante uma visita à Ideo, uma das maiores empresas de design do mundo.
Na ocasião, Mario Valle Reyes, da Hotlum Powell Capital Management, apresentou agentes de inteligência artificial capazes de executar tarefas administrativas e operacionais dentro das propriedades.
“Existe a possibilidade de criar um funcionário virtual que resolva tarefas específicas, como gestão de orçamento, documentos fiscais e contábeis e organização de estoque, por um custo mais acessível”, afirma Alexandre Lopes Martins, chefe da assessoria de inovação da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Para Martins, o produtor pode delegar atividades operacionais à tecnologia e concentrar seu tempo nas tarefas que geram mais valor para o negócio.
O produtor e médico-veterinário Luis Augusto Carniel, representante do Sindicato Rural de Marmeleiro, identificou a possibilidade de criar uma plataforma para conectar produtores a serviços veterinários.
A ferramenta poderia facilitar a contratação de procedimentos como cirurgias, ultrassonografias e diagnósticos de gestação, além de reunir avaliações, dados e informações sobre a reputação dos profissionais.
“Nessa rotina, posso contar com a ajuda de agentes de inteligência artificial para prestar um serviço de mais qualidade, de forma mais otimizada”, destaca Carniel.
Satélites ajudam a acompanhar lavouras
Na Planet Labs, a comitiva conheceu imagens e dados geoespaciais produzidos por uma frota de mais de 200 satélites. Com o auxílio da inteligência artificial, essas informações ajudam a identificar doenças, estresse hídrico e outros problemas nas lavouras.
O produtor Marcos Eidam, presidente do Sindicato Rural de Ortigueira, já utiliza imagens de satélite por meio da cooperativa Frísia. Após conhecer novas possibilidades, pretende analisar os dados com mais atenção.
“Depois dessa palestra e de entender as possibilidades, vou começar a analisar melhor essas imagens, a olhar com mais cautela”, afirma Eidam, que produz soja, milho, trigo e cevada.
Registros por comando de voz
Na Reservoir Farms, incubadora de startups AgTech, os visitantes conheceram soluções para problemas como falta de mão de obra, planejamento, gestão, redução do uso de produtos químicos e registro de informações.
Uma das tecnologias apresentadas foi o Numanac, aplicativo que permite registrar observações, intervenções e tarefas por comando de voz, além de produzir relatórios automaticamente.
“A possibilidade de conversar com um agente virtual para registrar os lançamentos da propriedade elimina horas na frente do computador. O produtor pode enviar um áudio, que será transformado em um registro dos custos da lavoura ou da manutenção de uma máquina”, explica Eidam.
Automação reduz desperdícios
Em Salinas, no Condado de Monterey, a comitiva visitou a Axis Ag, empresa que desenvolve equipamentos para pulverização de precisão e automação agrícola.
Uma das máquinas é acoplada ao trator e consegue identificar a cultura para eliminar apenas as plantas daninhas. O equipamento atende principalmente áreas de horticultura, como plantações de alface, cebola e alcachofra, além de cultivos de flores.
Outra solução foi o robô autônomo da Bonsai Robotics. A máquina mapeia a área, reconhece plantas daninhas pela clorofila e aplica somente a quantidade necessária de herbicida.
Os equipamentos são ajustados para reduzir a deriva durante a pulverização. Além de acelerar o trabalho, as máquinas ajudam a diminuir custos com insumos e mão de obra.
“Realmente é uma necessidade que o produtor do Paraná tem. Eu certamente investiria para usar na minha lavoura”, comenta João Ricardo Bortolassi, presidente do Sindicato Rural de Jaguapitã, que cultiva soja, milho e trigo.
Pulverização ultrasseletiva
A última parada técnica do grupo na Califórnia ocorreu em Los Banos, na região do Vale Central. No local, os produtores conheceram a tecnologia da Ecorobotix, voltada à pulverização ultrasseletiva.
O equipamento utiliza câmeras de alta velocidade e inteligência artificial para detectar individualmente cada planta. Segundo a empresa, a solução pode reduzir em até 95% o uso de herbicidas.
“O principal benefício dessa tecnologia é a precisão no controle de plantas daninhas. Não é preciso se preocupar com deriva e desperdício de produto. Temos muito mais controle do manejo”, afirma o trabalhador rural Daves Vieira, que utiliza o equipamento em uma plantação de melão.
As experiências mostraram como a inteligência artificial no campo pode auxiliar produtores de diferentes portes, desde a organização administrativa até o monitoramento das lavouras e a aplicação precisa de insumos.