Artigo: O assalto registrado

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Atualizado há 13 anos

Por Douglas Marques 

Por que o vídeo do assalto teve tanta repercussão?

Embora seja difícil, se evitarmos entrar em discussões de cunho ideológico, que envolvam direitos humanos, segurança pública, mídia ou conduta policial, poderemos visualizar uma possível resposta a pergunta do título em um fenômeno histórico aparentemente simples, mas universalmente humano. A saber: toda civilização constrói ou tem, cada qual a sua maneira, representações visuais da punição física de males encarnados, e essas representações visuais geram, no indivíduo que as vê, um sentimento de libertadora alegria (Catarse, para Aristóteles) pela justiça ter sido aplicada.

Os males aqui são entendidos, de forma simplificada, como quaisquer elementos que danifiquem ou interfiram negativamente na sinergia de um sistema. Se for o social, a exemplo, pode ser a violência ou a corrupção, se for religioso, o pecado ou o vício, se biológico, as doenças, etc. Dito isso, acompanharemos, a seguir, uma galeria de imagens com exemplos do fenômeno.

Cá está o glorioso São Jorge, padroeiro da Catalunha, em um quadro do simbolista Gustave Moreau, com uma das mãos a segurar a cela dourada do cavalo branco enquanto, com a outra, empunha uma longa lança, cravada no pescoço de um  dragão quimérico.  Muito heróico. Mas veja ali, é Lúcifer, a estrela D’Alva, em uma ilustração monocromática de Gustave Doré, a cair, rápida e definitivamente, para longe do paraíso.  E quem é aquele, senão Luís XVI, personificação do mal da monarquia, sob aplausos do povo, pronto para ter a parte superior de seu pescoço separada da inferior. E, já que que estamos na ala “história”, visitemos Tiradentes. Esse dentista ativista será, de acordo com o Código Criminal de 1830, acusado e condenado pelo crime de “lesa-magestade”. É por isso que o vemos, após um espetáculo publicamente macabro, ser espalhado pela cidade. E aqui temos as não menos chocantes imagens da Inquisição. Não é curioso que tenham inventado tantas formas públicas de purificar um Herege?

Receio que as imagens estejam se tornando demasiado mórbidas, por isso avancemos para um ala mais colorida, a de “Cinema”. Cinema é bom, quase todo mundo gosta. E a maioria dos que gostam, gostam principalmente por conta do efeito “Happy Ending” dos filmes, que é quando tudo dá certo para o mocinho e tudo dá errado para o vilão. Atenção, Spoilers! Darth Vader (o lado negro) morre agonizando nos braços do filho, HP mata Voldemort, Superman mata Zod, Sherlock Holmes mata Moriarty, Gríma degola Saruman, e ad infinitum.

Mas a punição física visual da encarnação de um mal não se restringe apenas aos filmes, encontramos ela nos  jogos, HQs, desenhos, fábulas infantis (irmãos Grimm), e também na política. A morte gravada de Muammar al-Gaddafi, o enforcamento de Saddam Hussein, etc.

O fato é que a representação visual do mal sendo abatido desempenha papel fundamental no processo catártico. Se o caso do assaltante fosse apenas uma manchete, crua, sem vídeo, geraria a mesma repercussão? Sem dúvida, não. E essa constatação faz surgir a pergunta. Por que, aparentemente, precisamos dessas imagens?

Douglas Marques é acadêmico de jornalismo

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