Por Douglas Marques
Existem elementos da composição das cidades que representam, pela história de sua concepção e permanência ao longo de milênios, a imutabilidades de certos ideais humanos. Por outro lado, existem elementos que, apesar de alterarem de forma de região para região, constituem um detentor simbólico apenas da mentalidade coletiva local. Um exemplo clássico dos primeiros são as praças públicas, derivadas das ágoras gregas, que até hoje simbolizam qualquer região no mundo guiada pela democracia. Dos segundos podemos citar os monumentos históricos, homenagens a ilustres personalidades locais ou comemorações de acontecimentos importantes.
Se compararmos, a exemplo, a famosa Àgora de Atenas com a nossa arborizada Praça Coronel Amazonas, veremos, apesar das modificações adaptativas, a mesma composição geral. Está tudo lá. Os edifícios cívicos circundantes, os transeuntes, os jardins, o templo, o espaço central aberto e até as alegres e travessas pombas – acredite, essas simpáticas transmissoras de zoonoses já se empoleiravam nas construções do berço da democracia; tendo uma, inclusive, segundo mito relatado por Heródoto, indicado a Zeus que edificasse um oráculo em Dodona .
Quanto aos monumentos, encontra-se nessa mesma praça, entre árvores e calçadas, a fitar a Catedral com seu olhar eterno-brônzeo, o imponente busto do homem que lhe empresta o nome, o Coronel Amazonas de Araújo Marcondes. Conforme explicado na inscrição da placa, a razão de sua existência é de ser uma homenagem dos moradores ao que é considerado o fundador da cidade.
Entretanto, mais do que uma homenagem e uma forma de preservar a memória da cidade, o busto, historicamente, engloba um conjunto de ideias e simbolismos que estão atrelados não só ao homenageado e o seu feito, mas também aos valores que ele representa para determinado período. Na era da retratística greco-romana, inclusive – da qual eles foram herdados -, se a conduta de um sujeito destoasse da considerada ideal, se ele caísse em desgraça pública, era decretada a “erradicação da sua memória” (Damnatio memoriae), que consistia, basicamente, na eliminação de todos os vestígios da vida da pessoa, de inscrições, retratos a bustos, de forma a preservar a honra da cidade.
É claro que se hoje os valores defendidos pelo Coronel, de desenvolvimento e trabalho, fossem considerados ultrapassados, o busto da Praça não seria destruído, nem sua memória caçada para ser obliterada da história local, pois nosso sangue é, apesar de latino, levemente mais pacato. Não, hoje, no máximo, se isso estivesse próximo de acontecer, sua memória, e tudo que se relacione materialmente a seus feitos, estariam beirando o ostracismo, o esquecimento voluntário, e os monumentos históricos estariam aos frangalhos, e o busto imponente não seria nada além de um invisível poleiro de pombas travessas.
Douglas Marques é acadêmico de Jornalismo