Artigo: Compaixão não é caridade

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Atualizado há 13 anos

Por Carlos Eduardo Moreira

Pierre Bourdier, conhecido sociólogo francês, afirma que o campo da política é um espaço de disputa permanente entre projetos políticos diferentes ou até antagônicos, que representam a luta entre classes e grupos sociais interessados pela manutenção e conquista do poder. Na história do mundo moderno, a Revolução Francesa de 1789 é um exemplo clássico de disputa entre projetos que foram se construindo ao longo do processo revolucionário.

Essa “revolução-mãe”, como é mais conhecida, colocou por terra o Ancien Régime (Antigo Regime) e derrubou inúmeros privilégios dos poderosos da época. Uma revolução social movida por um nova sensibilidade, por um novo sentimento que exerceu e exerce um papel fundamental no campo da política: a compaixão. O sentimento de compaixão, diferentemente da caridade, evoca a fraternidade entre as pessoas e os povos, condena o egoísmo e, segundo a socióloga francesa Claudine Haroche, no livro “Da palavra ao gesto” (1998), revela o amor ao semelhante. Um amor que resulta da tomada de consciência da existência de pessoas, que vivem em condições miseráveis e sofrem com a injustiça social e, ao mesmo tempo, precisa buscar estratégias para mudar essas condições e promover a humanização plena de todos. É importante destacar que existem inúmeras experiências sociais que promoveram mudanças significativas nas condições de vida das pessoas e estão transformando a tradição histórica no mundo na qual somente alguns podem usufruir dos principais benefícios das conquistas humanas.

O que é, na verdade, uma grande contradição, já que não há justificativa razoável para a não repartição da riqueza produzida pela sociedade entre os seus membros, que garanta a efetivação dos direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados, conforme estabelece o artigo 6º, Capítulo II, da Constituição Federal Brasileira de 1988. Infelizmente, a sensibilidade dominante não é a compaixão pelas pessoas no interior das famílias, da comunidades, da cidades, do países e do mundo. Muito pelo contrário. O atual sentimento dominante é da indiferença pelas pessoas e pelos problemas sociais. Parte de um hiperindividualismo que está tomando conta de muitos e tem reforçado a coisificação dos seres humanos e a negação de uma vida digna para a maioria da população mundial.

Desemprego, guerras, abusos e violências contra a mulher, contra os mais pobres e os diferentes grupos étnicos são práticas comuns para um mundo que não consegue assumir e praticar a compaixão humana. Esse “amor social e político pelo outro”, fora do controle das religiões e da razão crítica da Ciência, convida-nos a pensar sobre novas possibilidades de garantir a todas as pessoas o acesso aos benefícios do mundo contemporâneo. Esse esforço precisa ir além da caridade e das ações emergenciais momentâneas que não mudam, efetivamente, as condições de vida das pessoas. Por outro lado, é possível construir novas formas de sociabilidade e estratégias para a solução de inúmeros problemas sociais, permitindo, assim, a reafirmação da compaixão como ponto de partida e chegada da política enquanto um instrumento para a busca do bem comum.

 

Carlos Eduardo Moreira é professor universitário (cadumoreira2003@hotmail.com)

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