Por Carlos Eduardo Moreira
Visitar o Centro de Referência Paulo Freire (CRPF), no Instituto Paulo Freire, é garantia certa de uma boa conversa com o sociólogo Lutgardes Costa Freire, filho de Paulo Freire (1921-1997). Amigo de vários anos, sempre sorridente e amoroso como pai, dialoga com os visitantes com muita sensibilidade e criticidade. Problematiza, questiona e sempre defende um projeto democrático libertador para a sociedade brasileira. Demonstra a tradicional inquietação freireana por um país alfabetizado, democrático, menos desigual e desenvolvido. Orgulhoso do trabalho do pai faz questão de contar dos prêmios recebidos recentemente e mostrar o acervo do Centro como uma verdadeira relíquia. Nesse acervo, encontram-se a biblioteca particular de Paulo Freire e muitos trabalhos sobre o educador: artigos, dissertações, teses, livros, documentários, entre outros.
Preocupado com o atual momento da educação brasileira, principalmente com os resultados do analfabetismo no país, divulgados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “Luti”, como é tratado pelos amigos, afirma que “homenageiam Paulo Freire, mas suas ideias não estão sendo colocadas em prática”. Um dos maiores prêmios pelo trabalho desse educador recifense foi a declaração de Paulo Freire como “Patrono da Educação Brasileira”, segundo o que dispõe a Lei Federal nº. 12.612 de 13 de abril de 2012. Na continuidade da conversa, Luti traz a lembrança do exílio de Paulo Freire, das suas andanças e dos muitos diálogos com pessoas pelo mundo: Bolívia, Chile, Estados Unidos, Suíça, Guiné-Bissau e Moçambique.
Um exílio que iniciou com o Golpe Militar de 64, no qual Paulo Freire foi considerado “traidor” pelo regime de exceção e, posteriormente, retornou ao Brasil em 7 de agosto de 1979, sendo anistiado somente em 26 de novembro de 2009. Freire, como Karl Marx, é muito citado, especialmente, nos cursos de formação de professores. Mas, em geral, não é estudado o suficiente para a compreensão da sua obra como um todo. Essa verdadeira “maldição” do “citado, mas não compreendido”, transforma o pensamento freireano em “coisa do passado” e num “conjunto de dizeres moralistas”, que engrossam o senso comum pedagógico, como muitos fazem a partir da leitura simplificada da obra “Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa” (1997). O pensamento de Paulo Freire é forjado numa tensão permanente entre a luta pela libertação humana de todas as formas de opressão e a urgência de tornar as pessoas sujeitos social e político e não docilizados nem sujeitados frente à vontade de outro. No movimento de libertação das diferentes formas de opressão existente no mundo, que não se resumem, segundo ele, somente à relação de dominação de classes, na sociedade capitalista, o educando vai tomando consciência da sua condição no mundo e aprendendo a pronunciar a sua palavra como palavra refletida e não repetida.
Esse Freire inquieto, provocador e revolucionário foi reconhecido no mundo como um dos maiores educadores do século XX e vem recebendo inúmeros prêmios, em vários países, mesmo após a sua morte em 2 de maio de 1997. Já na despedida, o meu amigo Luti, com a sua tradicional simplicidade, agradece a visita e convida a todos aqueles que queiram saber mais sobre o advogado e educador Paulo Freire a conhecer o Instituto Paulo Freire, em São Paulo, ou consultar o site www.acervo.paulofreire.org.