Artigo: Racismo e Ciência

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Atualizado há 13 anos

Por Douglas Marques

Durante essa semana de eventos em comemoração ao Dia da Consciência Negra, um dos aspectos interessantes da discriminação racial a ser abordado, é a influência de alegações pseudocientíficas na origem e manutenção de ideologias racistas, pois um dos pilares que tem sustentado, há séculos, diversas manifestações discriminatórias entre membros da espécie Homo sapiens, é a precipitada noção de que existiriam diferentes raças humanas, cada uma portadora de determinados atributos morfológicos e intelectuais, que poderiam justificar uma hierarquia natural entre elas.

O mito da superioridade ariana, por exemplo, usado por Adolf Hitler para justificar sua política de extermínio, teve origem nos estudos do escritor Arthur de Gobineau, compilados na obra “Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas” (1853). Nesse livro, o autor tenta provar, por métodos mais filosóficos do que empíricos – mas revestidos de uma frágil película de ciência -, a existência de três principais raças humanas (branca, negra e amarela), e postula que  todas as raças brancas puras européias descendem da mítica raça ariana (termo originário do sâncristo, que significa “nobre”), sendo a miscigenação um sinal e um meio para a degradação da humanidade. De maneira semelhante, no século XIX, quando os europeus deram início a colonização do continente africano, foram elaborados argumentos para assegurar direitos aos colonos europeus sobre os negros. O maior exemplo dessa segregação social foi a criação do apartheid, na África do Sul, onde o próprio Estado determinou, por meio de leis, uma submissão racial baseada em uma suposta superioridade dos africânderes (colonos descendentes de europeus) em relação ao restante das raças.

É interessante notar que alegações travestidas de aspecto científico e reinterpretações equivocadas de teorias científicas validadas – como o darwinismo social, que teve origem na teoria da seleção natural de Charles Darwin e forneceu sustentação teórica para idéias eugênicas e fascistas -, partem, geralmente, não de sujeitos interessados em fazer avançar a ciência, mas, sim, de pessoas ávidas por protegerem interesses particulares, sejam eles de ordem financeira, moral ou ideológica.

Atualmente, a afirmação da divisão da humanidade em subespécies não encontra respaldo no meio científico. As evidências colhidas pela genética e pela paleoantropologia apontam para uma total inexistência de diferentes raças humanas, e inferem que as diferenças nos genes dos indivíduos (manifestadas externamente em características como o formato do rosto e a cor da pele)  são, geralmente, relacionadas a adaptação ao meio ambiente, e não determinam habilidades, valores ou padrões de comportamento.

Embora seja evidente que o racismo no Brasil exista mais como uma construção sociocultural que vem desde a época escravocrata do que como fruto direto de alegações pseudocientíficas, e portanto se manifeste, digamos, em uma dimensão mais implícita (tal como um apartheid social), essas conclusões científicas podem ser usadas como exemplos didáticos sobre como o conhecimento é capaz de nos fazer entender melhor a realidade, e de que maneira indivíduos e grupos podem se utilizar dos mais variados subterfúgios e alegações infundadas para justificar práticas atrozes que visam seu próprio bem-estar.

Douglas Marques é acadêmico de Jornalismo 

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