Por Vanderlei Woytowicz
Hoje mais cedo acordei com um mal estar e uma ressaca de vinho tão grande que as minhas pernas estavam bambas e o estômago todo revirado, passou um trem em cima de mim ontem à noite e eu mal notei, fazia muito tempo que não jogava conversa fora e brincava de ser autêntico, até que as lágrimas resolveram descer sobre a mesa e pingar na toalha branca já manchada pelo vinho barato, pudera eu imaginar que as lágrimas eram gotas de sangue que se misturavam com o roxo do vinho e ficavam despercebidas no meio do sofrimento que era despejado sobre as taças.
Lutei muito tempo contra os meus sentimentos, era resistente demais e não me imaginava sendo fraco. Eu fui criado para ser forte. Mais chega um momento em que nos convencemos de que tudo que está acontecendo é fruto de escolhas e que a dor foi consequência disso, precisamos viver como se não tivéssemos corações, porque a cada despertar as surpresas não estão sendo tão boas assim. Uma briga infantil, a traição de um amigo próximo, a desconfiança gerada a partir de boatos, ou confidências reveladas por bocas que não medem palavras e não são empáticas. Sempre senti que estava sendo bom com as pessoas, nunca tentei agradar a torto e direito ninguém, porque para mim quem muito agrada, desagrada, o que pra mim é bem pior. Mais tentei ser o melhor que podia e evitava ser mal educado, mal humorado, mal amado, mal, mas mesmo assim as peças no tabuleiro não estavam dispostas nos lugares certos, porque o jogo se invertia e eu acabava sendo apontado como uma pessoa não tão boa assim. Sempre me questionei bastante sobre quem eu vinha me tornando e se era isso mesmo que eu queria ser, afinal tenho orgulho de mim, mas sei que preciso de alguns ajustes como qualquer um e confesso isso porque admiro as pessoas que conseguem falar dos seus problemas e não se acharem donas da razão quando estão erradas.
Não sou mais o homem de alguns anos atrás, e sei que provavelmente não serei o mesmo daqui a alguns anos também, mas hoje, é meu jovem, hoje não me preocupo tanto com o que os outros podem dizer a meu respeito, eu sou eu e você é você, precisamos aprender a nos respeitar, conviver será uma escolha. Talvez não fui bom o suficiente, mas sinto em mim que fiz o dever de casa direitinho, e não posso abrir a cabeça das pessoas e fazer com que entendam o meu lado, porque isso não faz parte de mim. Isso depende de você também. Não consegui dormir direito, mas quando estava distraído as lágrimas vieram novamente, não pediram licença, só entraram em cena, dançando no rosto abatido de quem ainda quer fazer do seu mundo um lar florido. Não tenho mais força para encenar todo um drama mexicano aqui, então mantenho-me em silêncio, espero a outra parte da história vir. Eu já fui. O que dói é pensar que tudo que você faz, nunca vai mobilizar todos, mas não desista e por enquanto, vamos continuar sendo indiferentes. Atrás desses óculos de grau sujo, tenho dois olhos que conseguem ver a toalha branca desaparecendo com as lágrimas e pedindo, por favor, que os próximos episódios que estão por vir, sejam menos negros. Sabor de vinho.
Vanderlei Woytowicz é acadêmico do curso de Psicologia da Fundação Universidade do Contestado – FunC Porto União