A doutrina social da Igreja Católica e o Sínodo da Amazônia

(Foto: Daniel Ibáñez / ACI Prensa).
(Foto: Daniel Ibáñez / ACI Prensa).

No domingo 6 de outubro, o Papa Francisco na basílica de São Pedro, abriu os trabalhos do Sínodo da Amazônia. Em sua homilia que durou cerca de dez minutos, o pontífice criticou duramente o fogo “ateado por interesses que destroem… O fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos”, destacou.

No seu pontificado Francisco de Roma coloca como alicerce a centralidade das questões sociais, políticas e econômicas. Sua doutrina social exige consciência crítica de toda a cristandade e dos Católicos em especial, além de uma exigência de mudança de atitudes e de estilo de vida. O Papa é um crítico voraz do capitalismo neoliberal que se alimenta da pobreza generalizada do povo. Já, na sua primeira exortação Evangélica, A Evangelii Gaudium (EG), Francisco deu o tom do seu pontificado ao dizer “não a uma economia de exclusão e de desigualdade social”. No trabalho pastoral de Francisco, encontramos em constantes diálogos e numa articulação equilibrada as questões social e ambiental, econômica e política, histórica e cultural, teológica e ética.

Agora está claro para compreender os motivos reais dos seus principais adversários serem os neoliberais. Para o Papa argentino não há cuidado da criação sem justiça social. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum. A caridade, para Francisco, é o princípio não só das microrelações entre amigos e família, mas também das microrelações na sociedade, na economia e na política. O papa acrescenta, “ A justiça que Jesus propõe não é como que o mundo procura, uma justiça muitas vezes manchada por interesses mesquinhos, manipulada por um lado ou para outro. A realidade mostra-nos como é fácil entrar nas súcias da corrupção, fazer parte dessa política diária do “dou para que me deem”, onde tudo é negócio. E quantas pessoas sofrem por causa das injustiças, quantos ficam assistindo, impotentes, como outros se revezam para repartir o bolo da vida. Alguns desistem de lutar pela verdadeira justiça, e optam por subir para o carro do vencedor. Isso não tem nada a ver com a fome e sede de justiça que Jesus louva”, afirmou.

Para o Papa Latino-americano a Igreja Católica tem como missão anunciar o evangelho da paz e da justiça social, Francisco a luz da palavra profética dos evangelista se escandaliza diante do tráfico de pessoas; condena com palavras e ações os padres pedófilos  e pede perdão as vítimas e busca ampará-los com amor e solidariedade; aposentam e manda investigar os cardeais corruptos que vivem dentro e fora do Vaticano; não poupa nem as congregações religiosas y manda abrir investigação sobre padres e freiras que não estão ao serviço do evangelho e somente olham seu bem-estar; torna-se a voz viva e defende o drama dos refugiados; denuncia a crise das democracias e as mudanças climáticas; critica com dureza o capitalismo selvagens que somente deseja servir ao Deus Dinheiro; Não há fruto nessa “ditadura sutil”, denuncia o Pontífice.

O Papa Francisco traz a luz a rica tradição da Doutrina Social da Igreja Católica que sua abordagem transita por diversas questões: trabalho, família, educação, política, economia, direitos humanos, paz, justiça social, ecologia, etc., por isso o Papa insiste na urgência do acesso universal aos bens da terra, no direito à habitação e ao trabalho digno e torna-se porta-voz dos seus três “T”: Terra, Teto, Trabalho. E anuncia ao mundo que “Estar com os pobres é Evangelho, não comunismo”. No I Primeiro Encontro de Movimentos populares em 2014 denuncia com coragem, sendo para ele, a exploração do trabalho um dos pilares do capitalismo: “O desemprego, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas são resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem. Não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta”, destacou.

O Papa argentino lembra que a política é uma nobre vocação. Já que a mudança política depende muito das escolhas com consciência crítica de cada cidadão. Todos os povos, todos os cidadãos, todas as crenças, são chamados a promover uma cultura do encontro e do bom viver, “Em cada nação, os habitantes desenvolvem a dimensão social de sua vida, configurando-se como cidadãos responsáveis dentro de um povo e não como massa arrastada pela força dominante. Lembremo-nos de que ser cidadão fiel é uma virtude, e a participação na vida política é uma obrigação moral. Mas torna-se um povo é algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova geração está envolvida. É um trabalho lento e árduo que exige querer integra-se e aprender a fazê-lo até se desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia plural” (Evangelii Gaudium, 220).

Francisco continuará em seu pontificando denunciando o lado obscuro do cristianismo e dos cristãos que pensam que podem servir a dois senhores. O cristianismo e os cristãos tão golpeados por escândalos e corrupções precisa aprender a ouvir a voz de um homem que viveu sempre na simplicidade e na radicalidade da sua opção por e pelos pobres. A hierarquia da Igreja Católica precisa defender o Papa com mais ênfase e deixar de lado a velha tentação de pensar que o Evangelho anunciado por Jesus desconsidera as questões sociais, políticas e culturais. O século XXI espera uma igreja mais humana e humanizada, longe de qualquer tentação de discurso excludente ou fascistoides.  O Sínodo da Amazônia é um a porta de entrada da Igreja Católica no século XXI com dois grandes desafios: Dialogar com as ciências e dialogar com as culturas, tomara que não seja somente uma mera ilusão.

* Daniel Andrés Baez Brizueña é formado em Teologia, Ciência das religiões, Marketing, Letras e Filosofia.

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