A fim de dar continuidade aos trabalhos de divulgar informações relevantes, visualizei que poderia trazer informação histórica e mescla-la a informações técnicas, sempre com o fim de auxiliar o público empresarial a tomar decisões. Por isso nas próximas edições irei me ater a vários empresários que deixaram legado na história da humanidade. E vamos iniciar com um gigante que em nossa região foi bastante relevante, mudando, a partir de seu legado, inclusive a geografia política regional: Percival Farquhar.
Nascido em Nova Iorque, nos EUA filho de família rica, de religião quacre (membro de uma seita protestante inglesa, fundada no século XVII que prega a existência da luz interior, rejeita os sacramentos e os representantes eclesiásticos e opõe-se à guerra) em 1864, o empresário tinha como principais características ser visionário, audacioso e polêmico.
No Brasil era considerado como um dos empresários mais poderosos que o país já tinha tido, com uma fortuna à altura de competir, naquele então, com Francisco Matarazzo e com o Visconde de Mauá (Irineu Evangelista de Souza). Naquela época era considerado como sendo o maior investidor privado a viver no país, chegando aqui no início do século XX. Alguns afirmam que casualmente, já outros protestam que sob a tutela de Ruy Barbosa (naquela época um dos principais presidenciáveis, advogado e jornalista influente e admirado em todo o mundo) e do empresário Joaquim Catrambi que num ano obteve a concessão da ferrovia Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, quebrou no mesmo ano e vendeu-a no ano seguinte a Farquhar. Desde esse momento, nosso personagem se vê atraído por realizar diversos outros investimentos no Brasil, entre eles diversos jornais, hotéis, redes de distribuição elétrica e, obviamente, redes ferroviárias.
Entre as mais importantes para a nossa região, a rede ferroviária do Contestado deveria ter o traçado de aproximadamente 1.403 km, saindo do extremo do sul do estado de São Paulo, da cidade de Itararé, indo até Santa Maria, no Rio Grade do Sul. A ferrovia teve início de sua construção em 1897 e tinha o objetivo de unir 4 estados – São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e após, com o Uruguai. Porém, após chegar a Porto União – SC, em 1905 a empresa brasileira que construiu o trecho quebra e Farquhar adquire a concessão em 1907. O empresário solicita a contratação imediata de 4.000 funcionários no Brasil e no exterior sendo remunerados com altos salários e segundo, a dissertação de mestrado de Charles A. Gauld para a Universidade de Stanford, gozando de estrutura de trabalho invejável.
O fato é que essa concessão causou a Guerra que todos conhecemos, mas que teve início num erro básico do governo Federal e da Justiça do estado do Paraná ao julgar as terras no entorno da ferrovia, como sendo devolutas, ou seja, de ninguém. O erro permite a Farquhar explorar não só a ferrovia mas também a madeira da área, culminando na construção da maior serraria da América Latina, naquele então, contando com mais de 800 funcionários, 60 hectares, 214 casas, quadras de tênis, uma fábrica de gelo e um dos cinemas mais modernos do país. Um filme mudo, permite verificar Farquhar visitando o local na década de 20.
Concomitante, a história conta que Farquhar investiu na Ferrovia Sorocabana, na Estrada de Ferro Vitória a Minas, no Grand Hotel La Plage, na elegante Rotisserie Sportsman em São Paulo, em transportes de bondes, iluminação a gás, energia hidrelétrica (Rio de Janeiro Light & Power), além da considerada naquela época como a maior fazenda do mundo.
Afirmando inúmeras vezes “sou o homem que tudo financia” e contando com diversas tentativas frustradas no país, Farquhar volta definitivamente aos Estados Unidos, onde morre pobre aos 89 anos, deixando o legado de um grande investidor e de um empresário que sabia diversificar.
Alvaro Concha
Consultor de Empresas
alvaroconcha@gmail.com