Os vândalos no poder

Nos últimos quatro anos, a angústia de tentar renovar o sistema político fez com que eleitores em todo o mundo elegessem candidatos “anti-sistema”, que diziam representar uma “nova Política” e ser contra “tudo isso que está aí.” Na média, muitos dos eleitos acabaram se provando mais do que simples agentes de mudança, investindo contra as próprias regras do jogo democrático e vandalizando instituições, regras de decoro e costumes estabelecidos (para horror dos conservadores dignos do nome).

Nos EUA, Donald Trump governou sem nunca ter se desfeito de seus negócios, aparelhou ministérios-chave como o Departamento de Justiça para tentar intervir em processos que envolviam seus amigos ou que prejudicavam seus adversários. Os absurdos se avolumam tanto que a gente esquece, mas o Presidente da maior potência nuclear do planeta fez lobby junto ao Presidente da Ucrânia para tentar achar alguma sujeira contra seu principal adversário político.

Coroando esses quatro anos de Pulp Fiction político, Trump sacou uma acusação de “fraude eleitoral” do mesmo buraco fétido de onde tirou a tese de que Barack Obama não nasceu nos EUA. Trump passou quatro anos fomentando a divisão do País, jogando as pessoas contra a imprensa, vendo “fine people” entre nazistas e a toda hora sugerindo que tinha as forças policiais a seu lado. Derrotado nas urnas, cria mais uma vez uma realidade paralela — dane-se o País e suas instituições. Como grandes mentes costumam pensar de forma parecida, Jair Bolsonaro também passou seu primeiro ano investindo contra o Supremo e o Congresso, chegando a dizer em dado momento que iria “intervir” — no que foi dissuadido pelos militares, que também não aguentam mais suas maluquices.

Bolsonaro também negou a gravidade da pandemia, continua esperando para congratular Joe Biden e inventou uma live semanal no Facebook que faz a Presidência do Brasil parecer um botequim no subúrbio do Rio. Correndo por fora, seu filho insiste em chamar para a briga ninguém menos que a China, nosso principal parceiro comercial — fazendo empresários do agronegócio usar palavras pouco elegantes para se referir à Primeira Família.

No setor produtivo, diversos nomes que apoiaram Bolsonaro entusiasmadamente contra o petismo já dizem privadamente que não esperavam um presidente tão incompetente, tão incapaz, tão causador de problemas — quase um inimputável.

Reformas? Conta outra. Só houve a da Previdência — que, aliás, contou com muita ajuda da tal “Velha Política” — e olha que já estamos na metade do mandato. Privatizações? Aham.

Sem falar no fato — constrangedor para os apoiadores do Presidente mas saudável para o País — de que Bolsonaro acabou fazendo um acordo com o Centrão para ter um mínimo de governabilidade, Logo ele, que era tão “puro”. Agora, a derrota de Trump e as eleições municipais no Brasil parecem marcar o fim deste experimento baseado no discurso de divisão da sociedade.

Em São Paulo e Porto Alegre, a utopia do PSOL e PCdoB perdeu para candidatos pragmáticos. No Rio, Crivella tentou reeditar o obscurantismo que elegeu Bolsonaro, Witzel e a si próprio — e perdeu feio. (O bispo da Universal chegou a dizer que Eduardo destruir cancelas de pedágio porque discordava da tarifa.)

Mas em sua nem sempre presente sabedoria, o eleitor desta vez entendeu que Prefeitura é coisa pra especialista, não pra picareta. Prefeitura serve para trocar poste queimado e tapar buraco na rua, então, dessa vez, melhor não arriscar. Na maioria dos lugares que importam, a experiência administrativa prevaleceu sobre o experimentalismo, e um mínimo de competência voltou a ser premiado pelo eleitor.

Resta ver se, em 2022, o brasileiro — do grande empresário ao trabalhador mais humilde — aplicará o mesmo critério ao País.

As forças do Centro agora têm dois anos para construir uma candidatura que mantenha o PT no ostracismo e retorne Bolsonaro à sua insignificância anterior.

O País não aguenta outro voto de protesto, outro voto pela desconstrução. Chega do “nós contra eles.” Os vândalos já causaram estrago demais.

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