Por Douglas Marques, acadêmico de Jornalismo
Não tenho certeza, mas suspeito que a indagação clichê do título foi proferida, a primeira vez, por um hominídeo do período paleolítico ao seu vizinho de caverna, enquanto ambos se preparavam para iniciar as atividades do dia. Obviamente, não foram esses os termos usados e, sem dúvida, a intenção ainda não era a de “quebrar o gelo”. Essa dúvida, suspeito, tinha caráter de sobrevivência e resultou, a seu modo, em um passo fundamental para a evolução da humanidade.
Permita-me que ilustre a ideia. Aqui está Magog (hoje um respeitável fóssil, em algum museu de antropologia do México), 40 mil anos atrás. De físico robusto, empunha um ameaçador tacape e anda, atento e determinado, rumo a uma floresta pré-histórica. Apesar do clima frio (frio glacial, para ser exato), ele está usando sua vestimenta especial de caçada, a qual lhe fornece vantagem em mobilidade, e consiste, basicamente, em uma espécie de saiote de pele de mamute que lhe cobre somente as partes mais sensíveis da anatomia – muito semelhante a certos setores da moda atual.
Magog cumpre a função de caçador de seu grupo e ele sabe que o fracasso de sua empreitada significará dias de fome, fraqueza, doenças, desespero, morte… Ou pior, dieta forçada de gramíneas e brotos! É urgente, portanto, encontrar um mamute.
Enquanto o cérebro do caçador rumina essas questões, o restante de seu grupo dedica-se a outras funções não menos vitais, como a manufatura de machados de pedra, confecção de vestes, extração de lenha e recolhimento de frutos.
Terá o leitor, de fato, visualizado as reais dificuldades de Magog? Recapitulemos, em forma de manchete sensacionalista: Homem de saia tenta abater animal de 13 toneladas na base da paulada.
Note-se que não citei diversas variáveis do problema. Só para enriquecer o cenário, se levarmos em conta as atuais dificuldades de seres humanos que se embrenham na floresta, teremos coisas pegajosas grudando no pescoço do aventureiro, plantas venenosas agarrando seus tornozelos, espinhos cravando na sola de seus pés, animais peçonhentos espreitando das moitas, insetos colossais picando seus braços, suas pernas, suas nádegas. Uma tragédia.
O que de pior poderia acontecer em uma situação dessas? Exatamente. Chover. E o que aconteceu nesse dia de caçada? Exatamente. Choveu.
Agora temos aqui uma lúgubre imagem. Magog voltando para o desconforto de sua caverna, cabisbaixo, abatido, completamente ensopado, de tacape arrastando na lama, perfeitamente consciente de que terá como jantar uma impossível sopa de raiz de qualquer-coisa-agressão ao paladar. Raios! É preciso manter a reserva de gordura! Tudo culpa da chuva. O solo lamacento dificulta a corrida, o tacape molhado escorrega da mão, a água turva a visão, etc. Mas, realmente, não importa, essas desculpas não serão aceitas pelo restante do grupo – até porque é difícil comunicar tudo isso em mímica. Quando o virem sem a caça, ele será desdenhado, reprovado. E assim aconteceu.
No entanto, nem tudo foi infortúnio, nesse dia, para Magog. Enquanto sorvia uma sopa qualquer, em um canto escuro da caverna, seu cérebro ruminador chegou a brilhante conclusão de que, acaso fosse possível prever se haveria chuva, suas chances de sucesso na caça aumentariam consideravelmente.
A partir dessa singela Eureka, esse Satori primordial, ele, então, foi capaz de deduzir outras coisas. Dado que o vizinho era mais antigo, poderia colher informações com ele para saber se acaso choveria. Mas como fazer isso?
No dia seguinte, de tacape em punho e sorriso no rosto, como quem não quer nada, esperou o vizinho acordar e o indagou, por meio de gestos vagamente geométricos:
Será que chove?
E assim teve início a saga da humanidade pelo controle do clima, que resultou no desenvolvimento da agricultura, civilizações complexas e indagações climáticas.