Logo que a Covid-19 começou a se espalhar pelo mundo, médicos e cientistas deram início a longa jornada para conhecer o vírus, saber como ele funciona, e encontrar medicamentos capazes de diminuir seus danos. Ainda no primeiro trimestre de 2020, surgiu aquela que parecia ser a luz no fim do túnel: a cloroquina.
Estudos clínicos traziam informações positivas sobre a utilização do medicamento para o tratamento de pacientes contaminados pelo coronavírus. As pesquisas realizadas indicavam o uso de forma precoce, ou seja, logo no início da manifestação dos primeiros sintomas. Os resultados ainda eram inconclusivos, mas capazes de trazer esperança. E, movidos por esse otimismo, alguns países investiram no medicamento, entre eles, o Brasil.
A cloroquina já era produzida pelo laboratório do Exército Brasileiro para o tratamento da malária. Mas, em 2020, a produção aumentou significativamente de tamanho: até ano passado, o Exército produzia 250 mil comprimidos a cada dois anos. No ano em que fomos acometidos pela pandemia foram produzidos 3,2 milhões.

Contudo, após essa onda de fé no medicamento, estudos começaram a apontar sua ineficácia. Atualmente, instituições internacionais de saúde, entre elas Food and Drug Administration (FDA) e National Health Investors Inc (NHI) dos Estados Unidos, National Health Service (NHS) do Reino Unido, os escritório da FDA na União Europeia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Brasil, não recomendam o chamado tratamento preventivo (antes de apresentar a doença) ou o tratamento precoce (aquele realizado a partir do primeiro dia de sintoma da doença).
“A posição de não recomendar o tratamento profilático e precoce é porque as melhores evidencias cientificas baseadas em estudos randomizados não mostraram benefício”, explicou Clóvis Arns da Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), durante uma aula magna no Senado Federal na segunda-feira, 15.
Segundo Clóvis, estudos randomizados são os mais assertivos, pois quem escolhe quais serão os pacientes que irão tomar o remédio estudado e quais receberão uma dose de placebo é um computador, tirando, assim, as chances de serem escolhidos para receber o medicamento apenas pacientes com maior propensão de demonstrarem resultados positivos.
“Nós, infectologistas, adoraríamos, é tudo o que nós gostaríamos que qualquer medicação, especialmente barata e de fácil acesso para o povo brasileiro, funcionasse, mas, infelizmente, nenhum estudo randomizado com grupo controle mostrou benefício”.
Visões contrárias
Apesar de não haver comprovação científica sobre o uso da cloroquina e outros medicamentos no tratamento preventivo ou precoce, alguns médicos apostam nessa estratégia, caso do doutor Ary Carneiro Junior, Secretário da Saúde de União da Vitória durante o último ano da gestão de Santin Roveda.
Na segunda-feira, 15, Ary participou da 6ª reunião ordinária da Câmara de Vereadores de União da Vitória para abordar o protocolo de combate ao coronavírus adotado pelo munícipio no ano passado. Segundo o médico, foi instituído o chamado “Kit Vida”, que era distribuído aos pacientes que manifestassem sintomas. Faziam parte do kit os medicamentos Azitromicina (antibiótico para tratar infecções bacterianas), cloroquina/hidroxicloroquina, oseltamivir (antigripal conhecido comercialmente como Tamiflu) e sulfato de zinco (suplemento dietético).
Segundo Ary, os medicamentos não eram usados como um tratamento propriamente dito, mas como um reforço para o sistema imunológico do paciente. Explicou, ainda, que a intenção era diminuir a multiplicação viral, enfraquecendo o vírus.
“Não existe remédio que extermine o vírus, mas posso precocemente fazer com que o seu organismo se defenda da multiplicação excessiva viral”.

O médico relatou que já havia tido contato com o medicamento ainda quando estudante, durante os anos 70, quando distribuía, junto do Exército Brasileiro, a cloroquina para a população ribeirinha de Santarém no Pará para o enfrentamento da malária.
“Ela age como um protetor celular, fazendo com que o vírus não consiga entrar tão facilmente dentro da célula”, explicou.
Ary informou, entretanto, que mesmo existindo o protocolo para entrega do kit, o município nunca o tornou obrigatório, ficando a cargo do médico optar ou não por prescrever as substâncias. Porém, era orientado para àqueles que não se sentissem à vontade para receitar os remédios, que ao menos informassem aos pacientes sobre a existência do kit.
“Colocamos aos colegas que o que não se sentisse bem estava em seu direito. Falei para eles que quem não se sentisse à vontade em dar a receita que me mandasse o nome na Secretaria que eu faria a receita, mas nunca nenhum me encaminhou, todos foram colaborativos.”
Para Clóvis, presidente da SBI, um dos grandes problemas do tratamento precoce é que ele pode fazer com que o paciente baixe a guarda e tenha a impressão de que seu caso não irá evoluir mal, porém, se chega a ter uma piora, quando vai até ao pronto atendimento, muitas vezes já é um caso para internamento na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). “
Vou dar uma vivência como infectologista aqui em Curitiba. Hoje (15 de março) a nossa equipe de infectologia está com 56 pacientes internados. Mais da metade estava usando o tratamento precoce. Então, quando alguém fala que utilizou o tratamento precoce e o médico diz que não teve nenhum paciente que internou, só tem um jeito de acontecer isso: o médico não atende pacientes internados. Quando o paciente fica mal ele manda para o hospital e não é ele nem a equipe dele quem vai atender”, comenta.
O médico Bruno Clivatti atua na Estratégia de Saúde da Família em Porto União e trabalha na linha de frente das unidades de saúde, atendendo diariamente pacientes suspeitos e confirmados para Covid-19. Ele faz parte do grupo de profissionais que nunca receitou os remédios já citados para pacientes com suspeita ou confirmação do coronavírus.
“Muita gente costuma dizer: ‘garanto que se você se contaminar com a Covid você vai tomar’. Não é verdade. Meus pais, infelizmente, estão com Covid e só estão fazendo uso de sintomáticos, além da monitorização da oxigenação com o oxímetro de pulso. Graças a Deus, estão evoluindo super bem”, relata.
Bruno descreve que é muito comum atender pacientes que se automedicam com algum remédio tido como benéfico para o tratamento da Covid-19, ou seja, que os tomam sem prescrição médica. O médico, porém, alerta sobre alguns dos possíveis efeitos colaterais dos remédios utilizados para o tratamento precoce. Segundo ele, a Azitromicina, por exemplo, pode gerar a dor de estômago, fazendo com que o paciente não se alimente bem e prejudique, assim, a sua recuperação.
“Além disso, quando um antibiótico, que é o caso da Azitromicina, é utilizado em larga escala, isso pode gerar resistência das bactérias. Isso quer dizer que esse antibiótico pode não funcionar mais para outras doenças que ele é indicado”, alerta.
No caso da Ivermectina (medicamento utilizado para tratar infestações por parasita e também muito utilizado no automedicamento contra a Covid-19), Bruno indica que, quando utilizada em altas doses, pode provocar hepatite. “
Já foi documentado durante a pandemia casos de transplante hepático (de fígado) por abuso da Ivermectina. A hidroxicloroquina também pode causar problemas hepáticos e potencializar problemas cardíacos, entre outros”.

Um caso de hepatite medicamentosa causada por super dosagem de Ivermectina foi relatado pelo médico pneumologista Frederico Fernandes, presidente da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia, em uma rede social. De acordo com sua publicação, uma paciente jovem estava ingerindo 18mg de Ivermectina por dia, durante uma semana, como parte do tratamento contra Covid-19. Conforme informado na bula do medicamento, a dosagem corresponde a indicada para uma pessoa de 90kg durante o tratamento de doenças como sarna e infestação de piolhos. Contudo, o tratamento é feito com dose única, e não com uso prolongado.
Segundo Bruno, complicações mais sérias causadas por medicação geralmente estão relacionadas ao uso de altas dosagens, na maioria das vezes causadas devido a automedicação. Também podem ser verificados problemas de efeito cumulativo, causado pelo uso de vários medicamentos diferentes ao mesmo tempo. Mas o médico também indica que qualquer medicamento, mesmo em doses baixas, pode trazer efeitos colaterais, principalmente em pacientes com comorbidades.
“É muito comum ouvir pessoas falarem: ‘tem comprovação que não funciona, mas como o risco de efeito colateral não é tão grande, então eu acho que vale a pena’. Essa análise se vale a pena ou não tomar determinado medicamento é justamente o que essas Agências Reguladoras fazem na hora de emitir qualquer recomendação. Isso é pensado considerando os riscos versus benefícios. No caso dos medicamentos do tratamento precoce, o benefício é zero e o risco não é descartável. Por isso não vale a pena tomar e a recomendação é essa. Se existisse uma pequena chance desse tratamento funcionar, muito provável que a recomendação seria diferente pois estamos no meio de uma pandemia e um benefício pequeno é bastante considerável quando tratamos milhões e milhões de pessoas”.
Cuidados e vacina são consenso
Apesar de algumas discordâncias quanto aos medicamentos, todos os profissionais citados nesta reportagem concordam que a melhor forma de se proteger do vírus é seguindo os protocolos de segurança e tomando a vacina.
Segundo Ary, o vírus contamina uma pessoa através das mucosas, seja oral, nasal ou ocular. Por isso, o distanciamento e o uso de máscara são indispensáveis.
“Medidas protetivas são fundamentais, a vacina é a única solução”, comenta.
Bruno reitera que sem o contato com pessoas contaminadas, só se pode pegar o vírus por meio de objetos contaminados, o que acontece com menor frequência. Por isso, o médico indica o uso de máscaras e a higiene constante das mãos, destacando que as máscaras devem estar bem ajustadas ao rosto e que não se deve tocar na parte da frente da máscara ao manipulá-la. Para ele, a vacina também é a maior esperança no momento.
“Qualquer uma que for aprovada pela ANVISA e estiver disponível”, completa.

Clóvis, em sua fala no Senado, discorreu sobre a importância da vacina, e como ela está ajudando países a diminuir o número de mortes.
“o maior exemplo de país populoso é os Estados Unidos. Ele começou janeiro com quatro mil mortes por dia. Hoje ele tem mil mortes por dia e isso vai diminuir mais ainda. O que os Estados Unidos fez de diferente? Vacinação em massa. Dois milhões de americanos são vacinados todos os dias”.
Por fim, Bruno comenta que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, o médico que não recomenda o tratamento preventivo não o faz por maldade, mas sim por querer oferecer tratamentos baseados em evidências.
“Médico que não recomenda tratamento precoce não é vilão ou está torcendo a favor do vírus. Muito pelo contrário. A ideia é mostrar a realidade para as pessoas seguindo as melhores evidências científicas disponíveis e direcionar o foco para o que realmente funciona”, declara.