A importância da vacina para o retorno à vida normal

Vacinação em massa e com agilidade é essencial para a desaceleração da propagação da Covid-19 e de suas variantes

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Atualizado há 5 anos

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Por mais de três mil anos, a humanidade foi assombrada pela Varíola. Transmitido de pessoa para pessoa pelas vias respiratórias, o vírus, quando manifestado em sua forma grave, tinha uma taxa de letalidade de cerca de 30%. Contudo, essa não era a única forma de contaminação. Foi no século 18 que o cientista Edward Jenner percebeu que pessoas que trabalhavam com a ordenha de vacas contaminadas pelas Varíola desenvolviam uma forma mais leve da doença e que, após curadas, ficavam imunes à versão humana do vírus. Edward teve então a ideia de contaminar pessoas com o vírus animal para imunizá-las da varíola humana. Foi assim que surgiu a primeira vacina.

A ideia básica de uma vacina é preparar o sistema imunológico, fazendo com que esse desenvolva defesas a partir do contato seguro com aquilo que se pretende combater. Quando a tática é efetiva, o organismo cria uma lembrança do vírus ou bactéria, tendo uma resposta defensiva mais rápida caso seja exposto ao real agente infeccioso. E é esse o preceito utilizado também nas vacinas contra a Covid-19. Foi necessário pouco mais de um ano desde o primeiro caso registrado para que em 8 de dezembro de 2020 a primeira pessoa fosse imunizada contra o coronavírus.

A rapidez do desenvolvimento dos imunizantes disponíveis atualmente para o enfrentamento da pandemia de Covid-19 chamou atenção, mas, pesquisadores apontam que não há motivos para questionar a eficácia e segurança das vacinas já aprovadas.

“As vacinas passam por uma extensa análise que não é dependente de tempo para comprovar seguro ou eficaz. Depende de cumprir todos os requisitos que os ensaios clínicos demandam. Num cenário onde o mundo todo se voltou para responder a esse desafio de criar um imunizante para uma crise global de saúde pública, somando investimentos e esforços de pessoas especializadas e capacitadas, e também o fato de estarmos lidando com um vírus com alta transmissibilidade pela forma de aerossóis em vários locais onde essa transmissão é descontrolada, podemos observar com maior agilidade se a vacina é capaz de proteger as pessoas expostas. Dessa forma, foi possível contabilizar eventos (casos de COVID-19) nos grupos estudados de uma forma ágil. Mas é relevante que se entenda que não foi em decorrência de ter deixado de fazer alguma etapa. E sim pelas características da situação que estamos vivendo”, explica a biomédica e pós-doutoranda no Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UGRDS), Mellanie Fontes Dutra.

A biomédica Mellanie Fontes Dutra faz parte da Rede Análise COVID-19 e da Equipe Halo de divulgadores científicos da ONU. Também participa em iniciativas que visam combater a desinformação a respeito das vacinas, como a União Pró-vacina e o grupo Todos Pelas Vacinas.
A biomédica Mellanie Fontes Dutra faz parte da Rede Análise COVID-19 e da Equipe Halo de divulgadores científicos da ONU. Também participa em iniciativas que visam combater a desinformação a respeito das vacinas, como a União Pró-vacina e o grupo Todos Pelas Vacinas.

Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o órgão responsável por autorizar ou não o uso de um imunizante no Brasil, são necessárias seis etapas para que uma vacina seja liberada no país. Em situações de emergência, como a da pandemia de Covid-19, algumas fases podem ser realizadas de forma simultânea, acelerando o processo de avaliação da vacina em estudo.

Mellanie ressalta que não há motivos para temer uma vacina após aprovada.

“Todas as vacinas aprovadas são boas, seguras e eficazes, e precisamos nos imunizar o quanto antes. Caso alguma pessoa tenha alguma contraindicação a um ou outro imunizante, é necessário fazer essa conferência com seu médico que acompanha ou com o profissional envolvido na vacinação. Mas de forma geral, as vacinas que temos disponíveis hoje são muito boas e devemos nos imunizar com elas tão logo possível”.

Atualmente, duas vacinas contra a Covid-19 estão sendo utilizadas no Brasil: a Covishield, desenvolvida pela biofarmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, produzida no país pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e a Coronavac, desenvolvida pela biofarmacêutica Sinovac Biotech e produzida no Brasil pelo Instituto Butantan. Com a utilização dos dois imunizantes, o Brasil aplicou 23,96 milhões de doses, sendo o quinto país que mais vacinou sua população contra a Covid-19 em números absolutos, segundo dados do site Our Word In Data, recolhidos no dia 8 de abril.

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Os acordos para o uso da Coronavac no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, contudo, foram turbulentos. Em outubro passado o presidente Jair Bolsonaro chegou a anunciar o cancelamento da compra da Coronavac pelo Ministério da Saúde um dia após o então ministro, Eduardo Pazuello, ter firmado um acordo para a aquisição do produto. Em janeiro deste ano, entretanto, o Ministério da Saúde confirmou a compra de todas as doses produzidas ou importadas pelo Instituto Butantan.

A decisão da compra se mostrou importante pois, atualmente, 82,9% das doses de vacina contra o coronavírus aplicadas no país são da Coronavac, contra 17,1% da Covishield, segundo dados do Ministério da Saúde. Usando somente a vacina da AstraZeneca/Oxford, o país teria imunizado, até 07 de abril, 4,11 milhões de pessoas, o que colocaria o Brasil na 23ª posição no ranking de vacinação em números absolutos.

Em União da Vitória, as doses das duas vacinas são distribuídas de forma aleatória para os postos de saúde por meio da Secretaria Municipal de Saúde.

“Não separamos as vacinas por marca, porque toda ela é boa. As pessoas não têm direito de escolha da marca das vacinas contra a Covid-19. Das pessoas vacinadas até agora, não teve questionamento sobre a marca da vacina. Elas tomam sem questionar”, relata o Secretário de Saúde, Fernando Ference.

Vacina paraná


Vacinação precisa ser acelerada

Um fator que tem preocupado os desenvolvedores das vacinas contra a Covid-19 é o surgimento de novas cepas do vírus, como a P.1, presente no Brasil. Tanto a Coronavac quanto a Covishield mostraram-se eficazes contra essa variante, segundo estudos preliminares realizados pelos laboratórios responsáveis por sua fabricação.

“É importante destacar que as vacinas tem um potencial imenso de abranger essas variantes que circulam aqui no Brasil, no entanto precisamos vacinar com maior velocidade e aderir ao máximo às medidas de enfrentamento para diminuir o risco de uma variante de preocupação com mais adaptações surgir. Quanto mais deixamos o vírus se espalhar e se transmitir para outras pessoas, maior o risco de variantes contendo mutações capazes de escapar das defesas imunológicas, e isso pode comprometer as vacinas em maior intensidade”, aponta Mellanie.

Novas vacinas, já com informações das variantes, também estão sendo desenvolvidas, como a Butanvac, anunciada em 26 de março e que atualmente aguarda liberação da Anvisa para o início dos testes clínicos em humanos.

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Segundo Mellanie, a agilidade na vacinação também é importante para proteger tantos os que já estão imunizados, quanto aqueles que não receberam as doses, pois o vírus passa a circular em menor intensidade, criando uma espécie de barreira imunológica.

“Quando uma população está imunizada pela vacina, ou seja, quando temos uma elevada porcentagem dessa população vacinada para um agente infeccioso, temos uma queda da transmissão e a proteção dessa sociedade através da imunidade de grupo oferecida pelas vacinas. As vacinas precisam dessa cobertura vacinal para poder promover essa proteção enquanto sociedade e, para isso, precisamos vacinar a população em massa”.

Os Estados Unidos, país que mais vacinou em números absolutos até o momento, tem demonstrado essa tendência na diminuição de casos.  Em 14 de dezembro de 2020, dia em que a primeira pessoa foi vacinada no país, os EUA contabilizaram 193.824 mil contaminados em um único dia. Em 02 de janeiro de 2021, o número diário de contaminados atingiu o pico de 300.295 infectados. Até esta data, 4,23 milhões de americanos haviam sido vacinados. Em 07 de abril, dia em que o país atingiu a marca de 171,48 milhões de imunizados, foram registrados 75.038 mil novos casos.


Vida após a vacinação

Mas só a vacinação não basta. É importante manter os cuidados mesmo após ter recebidos as doses necessárias para garantir a proteção. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos, a vida após a vacinação pode ser dividida em três etapas: a primeira será quando uma pessoa e todos os seus amigos e familiares estiverem vacinados. Neste cenário, é necessário esperar, no mínimo, duas semanas após a aplicação da segunda dose (nas vacinas que seguem esse esquema) para poder se reunir sem o uso de máscaras com outras pessoas também já vacinadas. Contudo, a proteção deverá permanecer quando o indivíduo já vacinado estiver em locais com maior circulação de pessoas, como supermercados, por exemplo.

O segundo cenário citado pelo CDC será quando uma cidade atingir a chamada imunidade de rebanho, ou seja, quando 85% ou mais da população já tenha tomado todas as doses necessárias. Neste momento, haverá maior segurança para que as pessoas possam voltar a frequentar escolas, igrejas, bares e restaurantes. Porém, as máscaras ainda serão indicadas em locais de grande circulação de pessoas, devido ao seu baixo custo e auxílio na proteção.

O terceiro e último cenário será atingido quando a imunidade de rebanho for alcançada mundialmente. A expectativa do CDC é que esta marca não seja batida antes de 2022, devido a disparidade de vacinação entre os países. Mas, quando for uma realidade, as pessoas poderão voltar a viajar de forma segura.

Foto: Cristiano Estrela / Secom
Foto: Cristiano Estrela / Secom

No Brasil, o primeiro cenário ainda não faz parte da vida de grande parte da população, visto que o número de pessoas que já receberam as duas doses dos imunizantes chegou a 5,38 milhões em 07 de abril, algo em torno de 2,5% do total de brasileiros. O país também enfrenta um dos piores momentos da pandemia, com média móvel de 2.744 mortes diárias (variação em 14 dias), registrada também no dia 07.

“Dada a gravidade da situação que estamos, com sobrecarga e colapso de sistemas de saúde, filas de leitos de UTI e leitos clínicos, e uma grande exposição da população ao vírus e suas variantes emergentes, precisamos não só vacinar, como também, em paralelo, aderir às medidas de enfrentamento parar barrar a transmissão à medida que vamos diminuindo o número de suscetíveis na população com as vacinas. Precisamos que todos, sem exceção, usem máscaras adequadas e bem aderidas ao rosto, façam distanciamento físico, evitem aglomerações, adotem boas práticas de higienização, principalmente das mãos, para desacelerarmos a transmissão e tiramos a sobrecarga dos sistemas de saúde”, indica Mellanie.


Cronograma

Segundo o cronograma do Ministério da Saúde, atualizado pela última vez em 19 de março, o Brasil deve receber até o dia 31 de dezembro de 2021, pouco menos de 563 milhões de doses de imunizantes contra a Covid-19. Até o momento, o país distribuiu para os estados 45,2 milhões de doses. Porto União recebeu 6.114 doses, enquanto que União da Vitória recebeu 8.627, também de acordo com o Ministério da Saúde.

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