Por que o uso de máscaras ainda é essencial para sua proteção?

Uma máscara bem ajustada ao rosto e fabricada com um bom material funciona como uma barreira entre o vírus e o corpo

Em 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou que a então epidemia de Covid-19 havia se tornado uma pandemia, ou seja, o vírus, naquele momento, já estava presente na maior parte do mundo. Mas foi apenas em junho que a instituição passou a recomendar o uso de uma peça que se tornou um dos símbolos do momento: a máscara. Antes dessa data a OMS indicava o uso de máscaras apenas por pessoas contaminadas ou que possuíssem alguma comorbidade. Após estudos, a organização entendeu que o item poderia ser um aliado na desaceleração na transmissão do vírus, por agir como uma barreira entre uma pessoa e gotículas contaminadas. No Brasil, a lei que tornou o uso de máscaras obrigatório em espaços públicos e privados foi sancionada em Julho do mesmo ano. Desde então, as máscaras passaram a fazer parte do dia a dia do brasileiro.

Mas para entender a importância da peça é necessário entender, primeiro, por que ela é capaz de nos proteger. A Covid-19 é um vírus transmitido por meio de gotículas contaminadas. Essas gotículas são expelidas do corpo quando alguém tosse, fala ou espirra. A bióloga, pós-doutora em imunologia e professora de Biossegurança na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Melissa Markoski, explica que as gotículas que o ser humano libera podem ter tamanhos que variam entre 0,5 micrômetro (0,0005 milímetros) a 20 micrômetros (0,02 milímetros), sendo que essas maiores podem ser vistas a olho nu, quando cuspimos ao falar, por exemplo.

“Quanto mais pesada a gotícula for, mais ela tende a cair próximo da sua fonte, então se a pessoa está falando e ela emite essas gotículas, as mais pesadas vão ir se depositando ao redor dela, enquanto que as menorzinhas vão ficar em suspensão no ar durante um tempo, fazendo então conjunto junto com o chamado material particulado do ar. Quando a gente vê um raio de sol entrando na casa e vê no reflexo aquelas poeirinhas minúsculas, aquilo ali é o material particulado que existe no ar e que a gente respira. Então essas gotículas, no formato dos aerossóis, por serem muito pequeninhas, ficam no material particulado do ar durante algumas horas, até que vão se dissipando com o fluxo de ar ao longo do tempo”, aponta.

As máscaras, quando produzidas de maneira correta, possuem a qualidade de prender as gotículas em sua trama, por meio de um fenômeno chamado eletroestática.

“Quando a gente aproxima o nosso braço de um TV recém desligada, por exemplo, os pelos ficam arrepiados. Isso é um contato de aproximação que tem a ver com cargas elétricas. O material componente das máscaras faz esse mesmo efeito de atração dessas gotículas menorzinhas. O poliéster faz isso nas máscaras de tecido, e o material que é utilizado nas máscaras profissionais tem camadas para fazer essa capacidade eletroestática”, explica Melissa.

Máscaras com tramas mais relaxadas, como aquelas com tecidos elásticos ou confeccionadas em tricô ou crochê não são recomendadas justamente pela falta de capacidade de reter as gotículas. Outro fator importante quando se pensa na dispersão de gotículas é o distanciamento entre interlocutores. Segundo Melissa, quanto mais próxima uma pessoa estiver da outra, maiores as chances de uma gotícula expelida com maior força conseguir furar a barreira de uma máscara que não possua tanta capacidade de filtragem.

Também há de se levar em consideração a ventilação de lugares fechados, como restaurantes, igrejas e escolas. Como já citado, as gotículas, ou aerossóis, ao serem expelidas do corpo podem permanecer durante horas no ar, podendo, assim, contaminar pessoas que não tenham necessariamente tido contato direto com uma pessoa infectada. Um exemplo foi apresentado em um artigo da revista cientifica Nature, em 30 de março. Segundo a publicação, no ano passado, 20 pessoas foram infectadas em uma festa em um bar no Vietnã, mas apenas quatro dessas tiveram contato direto com uma pessoa contaminada.  A OMS reconheceu que o vírus da Covid-19 pode ser transmitido pelo ar, e não apenas por contato direto, como se acreditava no início da pandemia.

Bióloga Melissa Markoski possui e mestrado doutorado biologia em e celular molecular em toradodou-pós e .imunologia como Atua divulgadora na científica Análise rede 19-covid
Bióloga Melissa Markoski possui mestrado e doutorado em biologia celular e molecular e pós-doutorado em imunologia. Atua como divulgadora científica na rede Análise covid-19. Crédito: reprodução.

Qual máscara usar?

Segundo Melissa, dois fatores definem o grau de segurança de uma máscara: o primeiro é o material com que ela é confeccionada. O segundo é o ajuste adequado ao rosto.

“A máscara vai atuar como uma barreira. Existem diferentes formas de ela barrar as gotículas, os aerossóis, mas é muito importante que ela esteja muito ajustada ao rosto para que não tenha nenhum escape de ar”, comenta.

De acordo com a bióloga, um bom teste para saber se a máscara está bem ajustada e vedada adequadamente é usando-a em conjunto com um óculos. Caso as lentes fiquem embaçadas, a vedação da máscara não foi feita de maneira correta.

Quanto ao material, o que mede o grau de segurança de uma máscara para a outra é a chamada Eficiência de Filtração. A partir de testes em condições controladas é possível demonstrar qual a possível porcentagem de proteção que determinada máscara oferece. As máscaras N95, conhecidas no Brasil como PFF2, possuem eficiência de filtração de 95% em situações controladas. As máscaras cirúrgicas de tripla camada possuem algo em torno de 80%.

“Algumas máscaras de pano confeccionadas com dupla camada de algodão com uma camada intermediária de algum tecido como o poliéster, que faz as vezes de uma atração eletroestática para as partículas, também podem ter uma eficiência de filtração entre 70% e 80%”, comenta Melissa. Contudo, a bióloga alerta que no caso da Covid-19 ainda não foi feito um grande estudo clínico capaz de determinar qual a máscara com maior capacidade de filtração desse vírus. “A principal situação que as pessoas precisam considerar a respeito da máscara: ela sim deve ter materiais que sejam protetivos, mas ela precisa estar, acima de tudo, bem ajustada ao rosto”, ressalta.


Na dúvida, vá de PFF2

Apesar da falta de estudos clínicos concluídos apontando qual a melhor máscara para se utilizar, a PFF2 tem despontado como a favorita de pesquisadores, divulgadores científicos e até mesmo de autoridades. Em janeiro, o chanceler da Áustria, Sebastian Kurz, anunciou que o país tornaria obrigatório o uso deste tipo de máscara, ao invés das máscaras convencionais e caseiras, feitas em tecido. Países como Alemanha e França também passaram a exigir o uso de máscaras profissionais em locais públicos de grande circulação.

Máscaras PFF2 possuem até 95% de Eficiência de Filtragem. Crédito: reprodução.
Máscaras PFF2 possuem até 95% de Eficiência de Filtragem. Crédito: reprodução.

As máscaras PFF2 são consideradas um Equipamento de Proteção Individual (EPI), sendo muito utilizadas por profissionais da construção civil, por exemplo. Por isso, esse tipo de máscara precisa ser vistoriada pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) para ter sua eficácia comprovada. Após a testagem, a máscara recebe um número chamado de Certificado de Aprovação (CA), o que permite que o público possa consultar se o material é adequado ao uso, se está dentro do prazo de validade ou se a empresa que fabrica o produto não possui lotes recolhidos.

“Às vezes a gente vê anúncio de máscara testada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A testagem pela Anvisa é sobre máscaras cirúrgicas, por exemplo. Mas não sobre a PFF2 que é um EPI. Então eu sempre chamo a atenção das pessoas quanto a esse tipo de máscara, porque no meio da pandemia muitas lojas começaram a vender máscaras ditas PFF2 sem que necessariamente elas tenham sido produzidas com o rigor que uma PFF2 precisa ter e tão pouco que tenham essa testagem necessária pelo Inmetro. Então o primeiro cuidado é onde a gente vai encontrar essas máscaras. Ela precisa ser testada adequadamente e a pessoa pode conferir através desse número de CA. Tem um site chamado caepi.mte.gov.br onde as pessoas podem fazem consultas”, aponta Melissa.

As PFF2 possuem, atualmente, a indicação de uso estendido pela OMS, ou seja, uma única máscara pode ser utilizada por até oito horas, e, apesar de serem descartáveis, podem ser reutilizadas, desde que se respeite um período de descanso entre um uso e outro, para que o item seque adequadamente. Uma única máscara pode ser utilizada até sete vezes.

“Vamos supor uma pessoa que faça uma atividade em um escritório, mais quietinha, que não precisa falar muito, ela pode usar com segurança essa máscara por oito horas. Já pessoas que estão em atividades que envolvem atendimento ao público, que precisam falar bastante utilizando a máscara, o ideal é que ela faça uma troca de máscaras dentro daquele dia. Outro cuidado também é de não molhar essa máscara, não borrifar álcool 70° nela, simplesmente deixar ela secando naturalmente, porque ao molhar esse material, algumas das camadas podem ou se dissolver mais facilmente ou perder a capacidade eletroestática”, aponta Melissa.

Ao se utilizar uma máscara PFF2, também é importante estar atento ao modelo escolhido. No mercado existem opções com ou sem válvula para respiração. Àquelas que possuem válvula diminuem o poder de contenção das gotículas. Sendo assim, seu uso só é indicado em lugares arejados e com pouca circulação de pessoas.


PFF2 e KN95 são a mesma coisa?

Com a popularização e aumento da procura de máscaras PFF2, outros modelos passaram a ser comercializados como similares, contudo, é preciso estar atento. As máscaras KN95, por exemplo, apesar de parecidas, não oferecem a mesma proteção que uma PFF2 por diversos motivos, entre eles a sua vedação, que não é tão eficiente.

“A gente pode ver que a PFF2 tem as alças de elástico de passar atrás da cabeça enquanto que na KN95 o elástico passa atrás das orelhas. Essas máscaras não têm uma adesão ao rosto, uma vedação, um ajuste tão eficientes quanto uma PFF2. Também, as camadas de tecido são diferentes daquelas na PFF2 e a grande maioria das KN95 não tem essa análise feita pelo Inmetro, não tem um certificado de aprovação, então ela não é considerada um EPI. Ela é sim protetiva, tem artigos mostrando que elas protegem em termo de Eficiência de Filtração, alguns estudos ecológicos em pequenas populações, inclusive até em hospitais da china, mas elas não têm essa proteção como as PFF2”, relata Melissa.

Ainda de acordo com a bióloga, também é possível encontrar diferenças entre as próprias PFFs. No Brasil, atualmente, são comercializadas a PFF1, que tem Eficiência de Filtração de 80%, a PFF2, com Eficiência de Filtração de 95%, e as PFF3, com Eficiência de Filtração de 99%, mas que são mais recomendadas para a filtração de agentes químicos.


Descarte correto

Segundo Melissa, as máscaras, sejam elas uma PFF2 ou uma máscara cirúrgica, precisam ser descartadas como rejeito. Em hospitais elas são descartadas no chamado lixo infectante, mas, por não possuirmos essa classificação no lixo residencial, elas podem ser descartadas no lixo do banheiro.

“Até a máscara de pano, quando a pessoa queira encerrar o uso dela, convém que ela coloque nesse tipo de lixo”, indica.


A vida sem máscaras

Algo que parece um tanto quanto distante para nós, já é realidade em alguns países. Israel, que até o dia 23 de abril havia aplicado a primeira dose da vacina contra a Covid-19 em 62,1% de sua população e a segunda dose em 57,8%, encerrou na segunda-feira, 19, a obrigatoriedade do uso de máscaras.

Na Austrália o uso de máscaras também não é obrigatório, mas o país segue um rígido protocolo de rastreamento do vírus. Quando um caso é identificado, o país adota um pequeno isolamento na região com possíveis casos de transmissão, até que todos os possíveis contaminados sejam identificados. Por estar com a transmissão controlada, em 25 de março o país permitiu que uma partida de futebol fosse realizada no estádio Melbourne Cricket Ground (MCG). Cerca de 70 mil pessoas compareceram ao evento. Nenhuma delas precisou utilizar máscara.


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