Quando a Covid leva um amigo: -“E aí, vamos comer uma carninha?

Frase era de Luciano Banhara, vítima da Covid em União da Vitória; amigos choram a sua morte

 

 

“ Hummm …

– Cheirinho está bom!

– É cheiro de carne assando e parece ser costela.

– Hummm … vamos lá!

– Quem preparou?

– Foi o Luciano Banhara! ”

 

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Amigos de uma década, José Jorge e Luciano

Emocionado, José Jorge dos Santos, amigo de Luciano Banhara há uma década, falou à reportagem sobre a falta que ele vai fazer a todos que o conheciam.


Luciano, 47 anos, teve sua vida interrompida por complicações da Covid-19. Proprietário de uma empresa de esquadrias de madeira em Paula Freitas e morador do Distrito de São Cristóvão, em União da Vitória, ele também fez a sua história junto ao Centro de Tradições Gaúchas Fronteira da Amizade (CTG). Ele transformou o espaço em seu segundo lar. Lá, ele transbordava felicidade. Fez amigos, dançou, sorriu, assou muitas costelas e também se despediu.

José Jorge, ainda sem acreditar na morte do amigo, fez questão de prestar uma homenagem. “Era um homem de sorriso fácil e sem tempo ruim”. Segundo José, perder uma pessoa para o coronavírus é um percurso doloroso, desde o surgimento dos sintomas até o sepultamento de quem não resistiu à doença. Nenhuma dor é fielmente imaginável até ser, de fato, sentida; na pele e no peito.”

Milhares de pessoas tem compartilhado, com propriedade a angústia que tem afetado o mundo todo – a das mortes causadas pela Covid, que é uma doença que se espalha rápido, é invisível e é letal. Luciano também entrou para as estatísticas da Secretaria Municipal da Saúde no dia 9 de janeiro. Ele foi a 15ª morte pela Covid em União da Vitória.

“No dia 18 de dezembro, convidamos o Luciano, esposa e filhos para um programa em família – a minha e a dele. Porém, ele já estava sentindo dores, mas acreditava que não passava de dores nas costas. Daí, no outro dia, uma na segunda-feira, solicitou o exame de Covid e o fez no dia seguinte, logo cedo. Então, soube que testou positivo. No dia 25 – Natal, ele foi internado e logo depois foi intubado”, compartilha.

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Conta José Jorge que ainda no dia 9, Luciano apresentou quadro de melhora clínica. A esposa dele, inclusive, passou a tarde com ele no hospital, e a noite seria o filho. “Neste dia, Luciano contava com auxílio na respiração e usava máscara de proteção. Até brincou com os amigos, pelas redes sociais, que iria mandar fotos com a ‘camisola’ do hospital. Porém, sua saturação baixou, e infelizmente não resistiu, vindo a óbito por volta das 23h45. A tristeza foi imensa”, desabafa.

Segundo o amigo, que lamenta o ocorrido, se o luto já pesa em qualquer circunstância, em tempos de pandemia é preciso, muitas vezes, carregá-lo sozinho.

“É muito difícil para todos. Sabe, na vida você encontra pessoas com quem tem muita afinidade e mesmo não sendo da sua família você sente muito a perda dela”.

Segundo os enlutados pela Covid-19, a dor de uma despedida sem velório e sem rezas em grupo, torna o momento ainda mais difícil. A pessoa recebe a notícia e tem que enterrar. “É lamentável”.

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Luciano e sua família

Uma das peças da engrenagem

De acordo com José Jorge, Luciano era uma importante peça da engrenagem e, que agora vai fazer falta; não apenas para os amigos do CTG, mas para toda a sua família.

Luciano era casado com Deizy Maciel, com quem teve três filhos – Kauê Lohana e Marjory – pessoas por quem ele quem tinha um zelo imenso. Vale lembrar que a esposa e o filho de Luciano também foram diagnosticados com a Covid.

“Nossa amizade começou no tradicionalismo gaúcho, levando nossos filhos para lá. Ele (Luciano) também dançou na invernada veterana e na vida pessoal estávamos sempre juntos, sempre nos finais de semana para confraternizações. Era muito prestativo para o CTG e para os seus integrantes.  Estava sempre disposto a ajudar. Ele não gostava, ele amava o CTG”.

José é o atual Patrão/Presidente do CTG Fronteira da Amizade e Luciano, além de membro ativo, foi também o vice-presidente nas gestões de 2018-2019. Atualmente, ele era o diretor de churrasqueira do CTG.

“A frase que ele mais falava era: vamos comer uma carninha; sabia preparar e assar uma costela como ninguém. Também convidava sempre os amigos para uma visita no rancho dele que fica nas imediações do Rio Iguaçu. Ele gostava muito de assar e servir a costela”, lembra.

Sem sepultamento, os amigos participaram da despedida de Luciano no dia 10, realizada no Crematório de Caçador (SC).

 

 Edson Darci de Paula, José Jorge dos Santos, Lício Ferreira (Papai Noel) e Luciano Banhara
Edson Darci de Paula, José Jorge dos Santos, Lício Ferreira (Papai Noel) e Luciano Banhara

Cuidem-se!

José pede que a comunidade tenha muito cuidado para não contrair a doença. “Não é brincadeira e nem é uma gripezinha; você somente vai sentir a gravidade do problema quando perder um ente querido. Nós perdemos um grande amigo, de todas as horas, seja para o trabalho e para a diversão”, diz.


“Perder uma pessoa para o coronavírus é um percurso doloroso, desde o surgimento dos sintomas até o sepultamento de quem não resistiu à doença”.

 

 

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