
Felipe Leal Bohrer é lembrado dia pós dia pela herança que deixou aos seus familiares e amigos. Ela não precisa ser guardada em um cofre; pelo contrário, Felipe gostaria que a esbanjassem. Alegria foi sua marca registrada; queria que o sentimento virasse rotina nos quatro cantos da cidade.
Aos 31 anos, o rapaz que ficou conhecido pelo seu jeito extrovertido, foi diagnosticado com a Covid-19. Dias depois, completou mais um ano de vida, porém sem festa e comemoração. Ele estava longe das pessoas que mais amava, pois se encontrava intubado e lutando bravamente pela sua sobrevivência. Felipe foi mais uma vítima do coronavírus em União da Vitória. Até ontem, 18, foram 22 óbitos pela doença contabilizados pela Secretaria de Saúde.
A irmã de Felipe, Maria Cibele Bohrer, é a porta voz dessa história.

Sem saber por onde começar, porém repleta de elogios para fazer a ele, resume que foram os 28 dias mais tristes da sua vida. A agonia tomou conta da rotina da família, desde a internação de Felipe, até a sua partida, que aconteceu no dia 21 de dezembro do ano passado.
Ele morava com Maria e os filhos dela Bruno e Guilherme, aos quais tratava como muito carinho e amor. “Ele se queixou de dores na garganta e muita fraqueza. Ele estava namorando, e juntamente com ela acreditamos não ser a tão temida Covid. Porém, ela (a namorada) disse em uma segunda-feira que ele não estava bem e que estava com medo de morrer. Todos nós ficamos em isolamento a partir de então. Levamos ele até a UPA de União da Vitória por duas vezes até o diagnóstico da doença”, conta.
No dia seguinte, segundo Maria Cibele, o mal estar foi piorando e Felipe foi levado ao Hospital São Camilo.
“Estava sem forças e com dores nos olhos, quase não enxergava. Era baixa saturação. A partir de então ficamos reféns de notícias sobre ele”, desabafa.
Felipe ficou internado e necessitou de intubação por 20 dias. Ele teve parada cardíaca e comprometimento de um dos rins, necessitando de hemodiálise. “Os médicos explicavam que não sabiam o que aconteceria quando ele voltasse do coma, pois poderia apresentar sequelas, como lesão cerebral”, diz.
Conta a irmã, que passada a transmissão do vírus, foi possível uma visita à Felipe. “Pudemos tocar nele”, desabafa.
“Trabalhador e um pai muito presente”

Através das boas lembranças é que a família encontra as forças necessárias para seguir em frente.
Eles eram em três irmãos: Felipe, Maria Cibele e Milton Bohrer.
“Ele fazia amizade com todo mundo e fazia todo mundo rir”, conta ela.
Felipe dividia a moradia entre União da Vitória e Itapema (SC), sendo que na catarinense passava a maior parte do tempo devido ao seu trabalho; era vendedor de softwares e sistemas. “Ele gostava muito de estar reunido com os amigos e a família. Tínhamos ele como a alegria da nossa casa e também como o nosso suporte; sempre estava pronto para resolver e ajudar a todos. Amava viajar e conhecer lugares. O que ele mais gostava era da praia, das cachoeiras e sempre acompanhado das pessoas que o amavam. Era um bom filho, bom irmão, bom amigo, bom pai; uma presença muito forte e especial para todos”, ressalta a irmã emocionada.
Pai do Lorenzo, Felipe perdeu o aniversário de três anos do menino por conta da Covid-19.
“Ele não estava bem e estava com medo de morrer”
Sintomas apareceram em Xanxerê
Felipe sentiu os primeiros sintomas da doença em Xanxerê (SC), onde estava à trabalho. Foi consultar no hospital local e estava febril e com dores na garganta. Ele ficou em observação já com suspeita da Covid. Porém, retornou à União da Vitória, apresentando os mesmos sintomas.
“Ótimo vendedor”
Maria Cibele disse que o chefe de Felipe chegou a dizer que ele não perdia uma venda.
“Tinha o dom de vender”, disse.