Valor da água ultrapassa o preço do combustível

Nas Cidades Irmãs, litro comprado no supermercado pode custar até R$ 0,45 a mais que a gasolina. Profissionais avaliam números

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Atualizado há 12 anos

Por Mariana Honesko

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Gasolina deixa de ser pivô de crítica: preço do litro já custa menos que a água em alguns lugares. (Foto: Mariana Honesko).

Há algum tempo, ambientalistas previam o dia em que a água custaria mais que a gasolina. Na época, as afirmações eram baseadas na possibilidade de escassez, diante do desperdício em massa e do efeito provocado por efeitos “naturais”. O ano é 2015, a água não está racionada mas já custa caro. Bem caro.

Nas Cidades Irmãs, o litro da água “embalada” já pode ser encontrado por até R$ 0,45 acima do preço do litro da gasolina. Na comparação com outros combustíveis, a alta é ainda mais latente. Para especialistas, o preço nas alturas tem duas mãos: estimula a preservação mas é contrário ao direito de cada pessoa, já que é um bem essencial à vida. “Temos essas duas questões: as pessoas acabam cuidando mais porque é algo caro mas o preço acaba tornando o acesso difícil para algumas pessoas. Isso é preocupante porque ela é vida”, avalia a bióloga e professora, Maria Luiza Gonçaves Longhi.

Esse é um dos motivos que impulsionam os votos contrários à privatização da água, ou de suas fontes. Para Maria Luiza, o cidadão deve pagar pelo tratamento da água mas, bem menos pelo envasamento e distribuição. Além de ter nos bastidores o interesse econômico, o preço mais alto da água vendida nos supermercados tem na ação do homem na natureza seu pivô. A falta de preservação das nascentes e o desmatamento, afetam diretamente na quantidade disponível. Que o digam os moradores de São Paulo, vítimas da torneira seca. “Nós moramos em uma região com água em abundância mas os aterros, que são muitos, o desmatamento, pode afetar esse cenário”, alerta Maria Luiza.

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Água é direito de todos mas no mercado, tem diferença

Do ponto de vista econômico, a água parece não ser tão cara assim. Na verdade, para Roberto Farias, é o salário do brasileiro que aparece muito pequeno, inclusive, na corrida para alcançar o aumento dos preços dos produtos mais essenciais. “Neste aumento está o combustível, que consome uma parcela respeitável dos ganhos mensais das pessoas. De outro lado, vemos preços cada vez maiores de bens da natureza, que vão ficando escassos também pela ação humana. É o caso da água, que agora exige uma nova visão comportamental”, avalia o economista.

Neste aspecto, entra em conflito a teoria do “valor-utilidade”, que sugere que, quanto mais escasso é um produto, mais ele vale. “Em ambos os casos precisamos rever atitudes, tanto no sentido de deixar o carro em casa, compartilhar caronas, andar de bicicleta e não desperdiçar água, utilizá-la de maneira racional, reaproveitando este bem cada vez mais raro”, diz.

Farias compartilha da opinião de Maria Luiza e também vê na preservação das nascentes, o sucesso para preços equilibrados e menos exploração privada. “Evitando jogar lixo ou, então, em pouco tempo, podemos ter dinheiro, podemos encher o tanque do carro, mas não poderemos comprar água”, pontua. “A água mantem pessoas, tornando-se ai um produto mais valioso e de primeira necessidade”, completa.

Quem precisa preservar?

Quando se fala em desperdício, o “chapéu” só parece servir no consumo doméstico. Mas, na divisão do bolo, este tipo de uso aparece em último lugar no ranking e, sem exageros. “A agricultura é o que mais utiliza a água, com 70% disso. Depois, vem a indústria, com 20% e o consumo doméstico é de 10%”, aponta Maria Luiza.

Mililitros que valem ouro*

ÁGUA

Média de R$ 3

GASOLINA

Média de R$ 3,35

DIESEL

Média de R$ 2,89

ALCOOL

Média de R$ 2,59

ENERGÉTICO

Média de R$ 19,74

REFRIGERANTE

Média de R$ 2,42

* Preço do litro, podendo ter variações

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