Educação a um clique de distância

No Ensino Superior, aulas virtuais são um dos rostos da transformação provocada pelo novo coronavírus. Habilidade para adaptação é testada entre docentes e discentes

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Foto: Mariana Honesko

O professor entra na sala de aula, cumprimenta os alunos, pede para que peguem seus cadernos ou no máximo, anotem o conteúdo no notebook. A prova é no papel, o trabalho apresentado em grupos. A aula termina, o professor troca de sala, os alunos aguardam o próximo mestre.

Basicamente, com exceção de aulas especiais, é assim a dinâmica das aulas no ensino superior. Ou melhor, era. Desde março, quando a pandemia da Covid-19 estourou, esse formato mudou – e muito. “Estamos iniciando a gravação dessa aula que lembro, será disponibilizada a seguir no link. Quem quiser participar, pode comentar no chat”, é a comunicação mais próxima da realidade praticada hoje, uma nova roupagem dos diálogos de professores com seus alunos. Na sala de aula das universidades e outras instituições de ensino pelo País afora, o impacto dessa alteração no cotidiano é bastante evidente. E não são poucos os que vivem essa situação completamente sem precedentes: na educação básica, por exemplo, segundo a Unesco, 165 países  fecharam suas escolas por causa da pandemia, interrompendo as aulas presenciais de 1,5 bilhão de estudantes e mudando a rotina de 63 milhões de professores até o dia 25 de março.

Além de um calendário modificado, as instituições tiveram que manter as aulas, só que de maneira virtual. Essa migração, do físico para o online, é uma medida extraordinária e autorizada pelo Ministério da Educação (MEC) adotada para cumprir as medidas de distanciamento social. Ainda que temporária, ao longo do andamento da pandemia, os prazos de duração das aulas virtuais foram dilatados, um empurrão da Covid-19 para a desconstrução de tudo o que se sabia até hoje sobre ensinar.

“Neste momento a gente precisa manter a calma. Estamos buscando soluções com os gestores estaduais e municipais. Mas, enquanto isso, acabei de assinar uma Portaria flexibilizando as regras do ensino à distância”, disse no dia 17 de março, o ministro da Educação, Abraham Weintraub. “Se trabalharmos todos, o Brasil supera a crise com o mínimo de perdas e danos”.

Se lecionar dentro do desenho tradicional já era desafiador, mesmo com uma sala repleta de jovens e  adultos, os professores estão se desdobrando para manter os alunos com os olhos na telinha ao longo dos 40 minutos de aula online. Muitos vêm usando de estratégias, como começar a aula com música, com uma piada, pedindo opiniões no bate-papo e até desafinando diante dos alunos em canções populares no microfone aberto. Vale dizer que os professores em casa, além de preparar a aula, cuidar com a pontualidade e enviar os canais de acesso às aulas para a turma, ainda precisam se organizar com o tempo e contar com a colaboração da família (não é hora de brincadeiras exageradas ou de botar roupa para lavar na máquina barulhenta, por exemplo). Tudo para deixar as aulas atraentes, tentado ser  fiel ao que escreveu o doutor em Medicina, Francisco Mora no seu livro Só se pode aprender aquilo que se ama’ (2013).

Em entrevista para o El Pais, Mora foi catedrático.

“Ninguém pode aprender qualquer coisa se não estiver motivado. É necessário despertar a curiosidade, que é o mecanismo cerebral capaz de detectar a diferença na monotonia diária. Presta-se atenção àquilo que se destaca. Estudos recentes mostram que a aquisição de conhecimento compartilha substratos neuronais como a busca de água, alimentos e sexo. O prazeroso. Por isso é preciso acender uma emoção no aluno, que é a base mais importante sobre a qual se apoiam os processos de aprendizagem e memória. As emoções servem para armazenar e recordar de uma forma mais eficaz”.

 

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Pago e gratuito

Até o fim de abril, 78% das instituições de ensino superior particulares do País migraram suas atividades presenciais para aulas virtuais. As outras 22% preferiram optar por suspender as aulas ou o semestre, segundo a segunda etapa do levantamento da empresa de pesquisas educacionais Educa Insights, divulgado em pareceria com a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES). E em tempos de transformação, o apelo ao prazer defendido por Mora, precisa de conexões – literalmente, conexões – e quando se trata de tecnologia, as instituições privadas, de fato, fazem isso com poucos obstáculos. Do outro lado da tela, estudantes acolhem a novidade com igual facilidade.

Sérgio Svidnicki é aluno  de Agronomia no Centro Universitário Vale do Iguaçu  (Uniguaçu), instituição privada de União da Vitória. Morador de Paulo Frontin (PR), cerca de 45 quilômetros da sede da instituição, ele conta que as aulas remotas são de fácil acesso e permitem o entrosamento entre o professor e aluno, característica tão marcante e única das aulas presenciais. “Não tive problemas em acessar a plataforma. Tenho acesso à internet, perfeitamente. A questão de concentração, claro, depende de cada um, até da escolha da casa para usar aquele tempo para o estudo”, comenta. Morador do centro de União, o acadêmico Marcos Moreira, do quinto período de Direito da Universidade do Contestado (UnC), de Porto União, também compartilha da vivência de Sérgio. “Uso muito a internet no cotidiano, é uma ferramenta importante para o trabalho e faculdade, ainda mais agora, com o isolamento. Desde o início da pandemia, nossas aulas são remotas e não tive problemas com isso”.

Mas, diferente da Uniguaçu, da UnC e de outras tantas versões similares, as faculdades públicas tiveram trabalho duplo: mudar sem ter tido oportunidade de tatear o sistema virtual. Os sete campi da Universidade Estadual do Paraná  (Unespar),  por exemplo, tiveram que encarar a migração das aulas presenciais com coragem e despidos de qualquer “pé atrás”. Afinal, embora os profissionais usem da tecnologia para alguns projetos, a parte maciça das aulas é aplicada de maneira presencial. “De repente, da noite para o dia, tivemos que transformar todas as nossas atividades e aulas em atividades remotas, trabalhar por home office. Foi um choque no início, criando até mesmo uma certa rejeição de alguns professores e alunos em trabalhar nesta forma remota, o que é perfeitamente compreensível”, conta a diretora do Centro de Áreas das Ciências Humanas e da Educação do campus em União da Vitória, Kelen dos Santos Junges. “A preocupação principal da instituição e dos professores foi não deixar os alunos desamparados e, ao mesmo tempo, manter a qualidade do ensino e da aprendizagem. Estamos reinventando nossas práticas e nossas aulas a cada dia, usando a tecnologia disponível. Há um esforço coletivo hoje na comunidade acadêmica para passar por este período da melhor forma possível, tanto no âmbito profissional quanto humano”.

A Unespar não era exatamente inexperiente  no modelo virtual. Antes da pandemia, ela já tinha adotado o moodle como plataforma digital para atividades online, inclusive, com alguns professores participando de formações para usar o modelo nas disciplinas. “Mas nem todos os professores estavam preparados, nem os alunos. E por termos ciência de que a  maioria de nossos alunos é da classe trabalhadora, alguns inclusive trabalham na área da saúde, moram em municípios vizinhos, no interior, alguns não têm acesso à internet, outros têm acesso limitado, enfim, dificuldades diversas. Estamos usando dos mais variados meios para atender o máximo possível de alunos: cada professor, dependendo, do perfil da sua turma e da sua disciplina, utiliza outras plataformas, além do moodle, elabora videoaulas, usa ferramentas digitais, aplicativos e redes sociais”.

Mesmo assim, os ruídos ainda são bem audíveis e no ensino público, o volume do barulho é mais alto. Atuam driblando os percalços do caminho, os comitês de apoio, criados para atender a demanda de dificuldade dentro da pandemia, e também os diretórios acadêmicos.

Marcílio Fragoso é presidente do Direito Central dos Estudantes (DCE) no campus em União. Conforme ele, ainda existem muitas barreiras e o acesso remoto é falho. “Desde a migração das aulas, as dificuldades cresceram muito. Temos acadêmicos cogitando a desistência dos cursos. Apesar de todos os esforços dos professores, não se está alcançando todos os acadêmicos”, pontua. Fragoso lembra que além da limitação de acesso, muitos dos estudantes do campus são pais, tem filhos pequenos em casa, e sim, há quem sequer disponha de computador onde moram. “A gente pode baixar o Word [editor de texto do pacote Office] no celular e mandar para o professor, mas não é a mesma coisa. Os professores têm bom senso de não cobrar nada magnífico, porém isso também frustra os estudantes porque eles sabem que podem fazer mais. Não existe um aprendizado total, somos frutos da educação presencial. Estamos tendo um ano perdido em conhecimento, infelizmente”.

O retrato pintado pelo presidente do DCE não é, nem de longe, uma distorção da realidade. Dados divulgados em abril pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que uma em cada quatro pessoas no Brasil não tem acesso à internet. Em números totais, isso representa cerca de 46 milhões de brasileiros que não se conectam à rede. Quase a metade das pessoas que não têm acesso (41,6%) afirmam que o motivo para não acessar é não saber usar. Uma a cada três (34,6%) não ter interesse. Para 11,8% delas, o serviço de acesso à internet é caro e para 5,7%, o equipamento necessário para acessar a internet, como celular, laptop e tablet, é caro.

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Voltando ao passado, a diferença entre o modelo pago e gratuito já era evidente. Na verdade, a realidade de hoje repete um processo histórico. A educação no Brasil começa em 15 de outubro de 1827 (daí a data onde se lembra o Dia do Professor). Mas, naquela época, o acesso ao ensino era limitado: apenas as famílias ricas tinham condições de pagar pela educação. Foi apenas a partir dos anos 30, com o surgimento dos grupos escolares, que o ensino gratuito se organizou para atender amplamente.

Adaptação

Não adianta bater o pé e cantarolar a letra de ‘Não vou me adaptar’, dos Titãs. Darwin já doutrinava: sobrevive quem melhor se adapta às mudanças. Na vida do ser humano ao longo de sua existência, se moldar ao que é preciso, parece ser algo quase natural. Hoje, natural e obrigatório, requisitos para quem não quer ser empurrado pela avalanche da transformação.

Assim, essa nova organização, tanto para alunos como professores, precisou acontecer de maneira breve, já que a pandemia descoberta em dezembro, impôs um ritmo acelerado e para não ver o ano letivo perdido ou carreiras iniciadas com atraso, docentes de todo o país mergulharem nas explicações dos colegiados para entender a nova dinâmica em lecionar.

Em alerta desde o dia 17 de março, a Universidade do Contestado (UnC) desencadeou uma série de ações seguindo as orientações dos profissionais da Saúde e do MEC. Mas, mesmo com a correria sugerida por toda a pandemia, a instituição não foi pega de surpresa: um dia após o decreto de isolamento em Santa Catarina, a adoção das aulas remotas já era uma realidade. “A instituição promove a cada ano letivo, capacitações aos professores com a aplicação de tecnologias digitais e metodologias ativas, o que de certo modo, possibilitou o cumprimento do dia letivo ao acadêmico, sem prejuízo do calendário acadêmico quanto às aulas teóricas”, defende a diretora do campus em Porto União, Ana Claudia Flenik. “As aulas remotas foram muito bem aceitas e compreendidas pela comunidade acadêmica da UnC que reconhece no professor a dedicação e o esforço para repassar o conhecimento sem prejuízo da qualidade das aulas e serão adotadas enquanto persistir a suspensão das aulas presenciais”.

Mesmo assim, foi e é desafiador. O professor na UnC, Jacob Augusto Krapp Hoff, que dedica 20 dos seus 63 anos ao ensino, resume o sentimento dos mestres: ele garante que jamais viveu algo tão discrepante.

“Uma experiência nunca vivida. Mas, no caso do exercício da profissão de advogado o desafio é uma rotina, sempre novidades que exige estudo e mais estudo”, diz.

No Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv), instituição pública municipal, as adaptações inerentes a Covid não foram difíceis, segundo a reitoria. É que a instituição começou  o uso do ensino à distância já há uma década. Processo tímido, que teve o curso de Informática de Gestão como cobaia, e que agora fica mais arrojado.

“Nos últimos anos concentramos esforços e optamos por, primeiramente, adaptar a matriz curricular do curso de Administração para implantar os 20% de carga horária EaD permitidos pelo MEC para os cursos presenciais, projeto piloto desenvolvido pela atual coordenação do curso. Em seguida outros cursos adotaram o mesmo padrão”, conta a doutora Simone Santos Junges, Pró-Reitora de Ensino.

Na seqüência, a Uniuv fez o credenciamento junto ao MEC para ofertar outros cursos na modalidade EaD e a nova estrutura pode ser opção para os estudantes desde o ano passado.

“Foram diversas reuniões com professores e coordenadores, consulta à comunidade, enfim, um processo longo e exaustivo, mas que seguiu todos os trâmites necessários para que, no segundo semestre de 2019”, explica a Pró-Reitora. Os cursos neste contexto são ofertados em duas ou três noites por semana, concluídos em no máximo três anos.  “Resistências? Nada além do normal ou esperado, pois é inerente ao ser humano recear o novo, o diferente”, sorri Simone.

Mas, nem tudo são flores para os modelos pagos: entra como bola extra nesse imenso malabarismo, as dificuldades das instituições pagas em manter os mesmos padrões. É que a taxa de evasão de alunos também tende a crescer. Segundo o Sindicato das Instituições de Ensino Superior Privado (Semesp), este índice pode subir 11% no acumulado deste ano em relação a 2019 e variar entre 32% e 34% dos alunos. “Como o atual cenário é inédito e altamente incerto, o número de alunos que desistirão nos próximos meses dependerá exclusivamente das ações tomadas pelos órgãos competentes e também pelas próprias instituições de ensino”, justificou em entrevista à Veja, Rodrigo Capelato, diretor-executivo da entidade.

Virtual, mas não EaD

Vista com uma certa desconfiança por parte dos conselhos profissionais do país, a Educação à Distancia (EAD) registra índices de evasão elevados e resultados não totalmente satisfatórios, ao mesmo tempo em que tem demonstrado maior capacidade de atrair alunos. Segundo o mais recente Censo da Educação Superior, feito pelo Inep (órgão do Ministério da Educação), em 2018, pela primeira vez na história, o número de vagas ofertadas em cursos universitários à distância (7,1 milhões) foi maior do que o número de vagas em cursos presenciais (6,3 milhões).

Mas, é preciso entender a rotulagem. Neste momento de pandemia, as instituições migraram para as aulas virtuais, um conceito diferente do que a sigla EaD representa. Não tem nem a quem culpar já que nem jurisprudência o País – ou qualquer nação do mundo – tinha. A última paralisação com mote similar aconteceu em 2009, quando as aulas foram suspensas por cerca de duas semanas em alguns lugares em meio à disseminação do H1N1.

O Decreto Presidencial n.º 9,057 de 25 de maio de 2017, que regulamenta o artigo 80 da Lei n.º 9394/96, define educação à distância como o “processo de ensino e aprendizagem que apresenta flexibilidade em relação ao tempo e ao lugar, podendo professores e alunos de uma mesma turma estarem em lugares diversos, com possibilidade de acessar as aulas ou o conteúdo em horários também diversos”. Para que isso ocorra, porém, se faz necessário o uso de tecnologias de informação e comunicação, e a mediação por professores qualificados.

Até dezembro de 2019, o Ministério da Educação permitia que os cursos presenciais ministrassem até 20% de sua carga horária no formato EaD. Porém, em dezembro de 2019 a Portaria n.º 2.117, do Ministério da Educação, publicada em 11 de dezembro de 2019, ampliou a carga horária de ensino a distância permitida nos cursos presenciais para 40%, com poucas restrições. Então, cursos que tenham até 40% de sua carga horária ofertada na modalidade EaD podem ser considerados cursos presenciais. Os demais, que ultrapassam essa porcentagem, se encaixam na modalidade de ensino a distância.

“O EaD promove a flexibilização de tempo, espaço de estudo e participação do processo educacional quando, como e onde o aluno quiser. Todas as interações e atividades são registradas automaticamente no ambiente virtual de aprendizagem, ao contrário das aulas remotas”, pontua a diretora do campus da UnC.

O conceito virtual e EaD, embora heterógenos, mobiliza uma outra via importante em meio aos casos. Levantamento do Google mostra que a procura por especializações à distância teve um salto de 130% nas buscas nos últimos dias. Outro levantamento, agora realizado pela Catho Educação, apontou um aumento de 68% em matrículas para cursos EaD ou semipresenciais, entre o período de 21 de março e 6 de abril. “Acredito que mesmo após a pandemia a procura pela modalidade EaD deverá crescer de forma considerável. No entanto, acredito também que as pessoas que optarem por esta forma de formação, deverão ficar atentas à qualidade do serviço oferecido, se a instituição é credenciada no MEC, se os cursos são autorizados e reconhecidos”, ressalta o professor, José Carlos Gonçalves, da Uninter, campus em União da Vitória.

O que vai acontecer depois?

“Não tenho dúvidas que o cotidiano das pessoas irá mudar pós-pandemia. Acredito que o sistema de ensino no País também”, avalia o pró-Reitor acadêmico da Uniguaçu, Mateus Cassol Tagliani.

Mas, uma resposta sincera poderia render até uma tese. Ela já começa a ser desenhada, só que não na mesma velocidade em que os casos da Covid-19 se espalharam pelo mundo. A resposta vem cheia de outras perguntas: como igualar o ensino público e privado? Seria melhor ter “cancelado” o calendário letivo? As aulas virtuais realmente capacitaram os estudantes? Foi um ano perdido?

Mas, sem dúvida, o conceito da pescaria e da habilidade em tirar peixes do seu habitat, combina muito bem com essa experiência nunca antes vivida. Será que o processo de isolamento não mostrou que o melhor é aprender a pescar sozinho? Ou será exatamente o contrário? O coronavírus, a seu modo, também ensina. Só resta aprender e fazer a lição de casa para que os danos sejam os menores possíveis.

 

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