
É uma tarefa difícil desenhar a história de alguém em poucas linhas de jornal, mais ainda quando esse alguém é uma parte da história das Cidades Irmãs, que gerações – três ou quatro delas – já passaram por suas mãos, quando as salas de aula de quase todas as escolas de ensino regular e superior tem sua identidade cravada nelas. Mas a tarefa foi aceita, só faltava um tempo com a mestra para que ela resumisse, ao menos tentasse, seus 55 anos de magistério.
Era uma sexta-feira de feriado, chovia muito lá fora, o inverno já anunciava sua primeira frente fria e o céu ficava a cada momento mais nublado. Já passava das 14 horas quando entrei na Uniuv. Não havia avisado, cheguei assim, de repente. As tentativas de agendamento pela manhã foram em vão, isso porque minha personagem, muito católica, estava dando boas-vindas ao novo Bispo de União da Vitória, Dom Agenor.
Os corredores estavam vazios, quase ninguém nas salas, mas sabia que uma pessoa certamente encontraria por lá. Se tem outra coisa que lembra Fahena Porto Horbatiuk além de sua dedicação à fé e às aulas, é sua disciplina com horários. Não é porque é feriado, ora, que todos devem cruzar seus braços!
Quando entrei em sua sala logo confirmei meu palpite. Lá estava a Fahena, atrás de um computador, rodeada de livros escritos por professores e alunos da Uniuv e algumas obras do africano Mia Couto, seu escritor preferido do momento.
Fahena prontamente me recebeu e até brincou que já havia perdido as contas das entrevistas e homenagens que concedeu e recebeu nas últimas semanas. A procura toda já era esperada, a dúvida que rondava pelos corredores da Uniuv foi cessada, e o anúncio da quarta aposentadoria da professora foi confirmado na semana passada. “Acho que se dessa vez eu não for eles vão me enxotar daqui”, brinca Fahena.
Sua jornada pelo Centro Universitário de União da Vitória (Uniuv) começou há 21 anos. Ela também carrega a responsabilidade de ser a fundadora da Colégio Técnico que ocupa um bocado de espaço da Instituição. No entanto, no magistério, o começo foi muito antes dos anos 2000, em 1961. Na época, lembra Fahena, os professores eram suplementaristas, o que se traduzia em muitas horas trabalhadas não em uma ou duas escolas, mas em dezenas delas. A mestre começou com aulas no Colégio Santos Anjos, onde também estudou quando pequena, logo passou para o Lauro Müller Soares, José de Anchieta, Túlio de França, Cid Gonzaga, em Porto União, Antônio Gonzaga e, no ensino superior, caminhou pelas três das quatro universidades espalhas pelas Cidades Irmãs. A primeira foi a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (Fafi) – hoje campus da Universidade Estadual do Paraná – passou para a Universidade do Contestado e logo a Uniuv.
Tantas escolas assim não eram sua intenção, na verdade, nunca houve um planejamento. “Nunca soube o que vinha depois, quando me aposentava, nunca planejava”, confessou. “É o que vai acontecer agora, vou ver o que vem pela frente, quando estiver lá (Florianópolis) eu penso.”
A capital catarinense foi escolhida pela maior parte de sua família. É lá onde moram suas duas filhas, netos e uma irmã, que também é professora. Os convites para ir embora são incontáveis e feitos há anos. “Minha irmã sempre me chamava para trabalhar na Universidade Federal de Santa Catarina, dizia “olha, aqui eu trabalho a metade do tempo que você e ganho mais”, mas nunca aceitei.”
As recusas se deviam a uma espécie de promessa feita por Fahena. “Essa comunidade investiu em mim, então eu tinha que dar um retorno”, comenta. “O nosso povo merece receber o melhor, não o que sobra. Por que eu deveria ir embora dar meu melhor em outro lugar?”, questiona.
No entanto, depois de ter vivido seus setenta e dois anos por aqui, ela decidiu partir, e dividir o tempo com suas filhas e netos, se “ocupar com outras coisas”. “Não importa se é no campo da fé ou lecionando, vou continuar trabalhando. Esse não é um fim, tanto que nem vou ter descanso, só estou indo embora porque já precisam de mim em agosto em Florianópolis”, avisa.
A professora assim que desembarcar na capital já começa com oficinas de literatura em algumas comunidades de Florianópolis. “Minha casa já está prontinha há mais de 20 anos lá, dessa vez preciso ir.”
Fahena afirma que não irá se desligar das cidades nem dos colegas, apenas vê-los com menos frequência. “Não vou poder visitar todo o tempo a cidade, até porque é longe de Florianópolis, mas vou me manter conectada pelos meios eletrônicos.”
Cortar todos os fios será impossível e o que vem pela frente não foi calculado. “Do futuro? Eu não sei. Talvez formar uma trama social seja a parte mais difícil. Vou ver quando estiver lá.”
Na raiz
Filha de mineira descendente de italianos, sempre teve o gosto pelo estudo. Sua mãe era professora formada na tradicional Pedro II no Rio de Janeiro. Foi de lá que veio para as Cidades Irmãs seguir a vida de outra maneira, talvez mais calma. O Bairro São Gabriel, em Porto União, era onde Fahena morava e estudava junto de mais três irmãs.
A mais estudiosa era a pequena Fafa, que não se conformava em tirar menos que nove. “Eu estudava de verdade, eu sempre estudei de verdade, para valer como se fosse a vida e a morte.”
Porém, essa cobrança não vem de casa, mesmo sendo filha de uma educadora. “É meu caráter, eu sempre gostei de estudar. E quem começa toma gosto pela coisa”, diz com o sorriso motivador estampado no rosto.
Faheninha, como é chamada carinhosamente pelos seus colegas e alunos, é a irmã do meio, e a filha doentinha da família. “Sempre fui adoentada do estômago. Daí quando era hora de trabalhar em casa, como eu não podia fazer nada, minha mãe me dava uma enciclopédia, para eu ficar lendo para os outros enquanto trabalhavam.”
Ainda pequena estudava no Colégio Santos Anjos, escola só de meninas, o que sua mãe não aprovava. “Ela dizia que uma criação só com meninas não era boa para nós.” E foi dessa decisão que Fahena foi estudar em um curso técnico antes de começar o Magistério. As aulas de contabilidade, matemática e economia eram puxadas e seus colegas de sala de aula, agora, usavam terno e gravata. “Eu era meninota ainda e eles homens formados já”, lembra. “Naquela época não parecia curso técnico, parecia uma faculdade. ”
Já no ensino superior – cursado na Fafi – Fahena se dedicava ainda mais. Casada e mãe de sua primeira menina, não tinha tempo para o descanso. “Levei a sério todos os meus estudos e o que aprendi na faculdade de Letras me serviu para cursar o meu mestrado”, contou a professora fazendo referência a qualidade das aulas de francês. “Todos os livros eram nessa língua e tudo que aprendi foi na faculdade.”