
Nesta semana, alunos e professores da Universidade Estadual do Paraná (Unespar), campus União da Vitória, se reuniram em uma assembleia geral no salão nobre da Instituição. Foram longas horas de discussão e, o resultado, que já era esperado, saiu: professores e alunos continuam em greve.
A pauta é extensa e está dividida em três partes. Uma diz respeito aos professores, que pedem por autonomia e melhores condições de trabalho. A dos acadêmicos reflete diretamente nas condições de aprendizado. A outra, dos reitores, são financeiras. Contudo, todas têm algo em comum: a luta por uma educação superior de qualidade.
A movimentação na Unespar já se arrastava por algum tempo, até que no início deste ano, o Governo do Estado reduziu os repasses das verbas de custeio para a instituição. Segundo Aurélio Bona, pró-reitor de Extensão e Cultura e um dos representantes do comando de greve local, os cortes já acontecem há três anos. “O custeio do ano passado foi menor em 30% em relação ao ano anterior”, lembra. Isso equivale aproximadamente R$ 600 mil de custeio em 2014.
Contudo, em meio à crise na Educação, o Governo Estadual informou que reduziria a zero os repasses para este ano. Foi quando começou uma movimentação administrativa entre reitores e Governo. Na ocasião, Beto Richa, se reuniu com reitores dos campi da Unespar e se comprometeu em pagar parcelado o repasse. Conforme o diretor do campus do município, Vanderlei Sanches, serão cerca de R$ 300 mil para o primeiro trimestre. No entanto, o dinheiro ainda não está na conta. “No segundo trimestre já não sabemos se o Governo vai mandar o dinheiro. Mas se o primeiro trimestre não for depositado, não vamos conseguir nos sustentar”, alerta. “A questão do custeio é a manutenção. É tudo que você precisa para manter o prédio aberto”, explica.
Na Unespar todos os serviços são terceirizados. Apenas funcionários e professores são contratados e concursados pelo Estado. “A empresa que faz a limpeza bancou os funcionários no mês de janeiro”, denuncia Bona. “Mas se eles não receberem não irão continuar”, adianta.
O pagamento dos serviços terceirizados não é o único problema do campus. Uma obra de ampliação do prédio orçada em R$ 300 mil está parada há mais de um ano por quebra de contrato. “O Governo pagou só a primeira parcela, depois não pagou mais e a empresa rescindiu o contrato. A obra era para ser inaugurada em março do ano passado”, conta Bona.
Mais uma obra é lembrada agora, pelo diretor. Conforme Sanches um elevador era para ter sido instalado dentro do prédio ainda no ano passado. Contudo, pela falta de pagamento, a empresa também interrompeu os trabalhos.
Outro déficit do campus é a falta de professores. Nesse caso o problema não é por conta da falta de repasse do Governo, mas da nomeação de concursados que já foram homologados. “O que nós conseguimos nomear foi no mandato anterior. De realização de concurso e nomeação não teve nada no mandato atual, só processos que já estavam correndo até 2011”, lembra Sanches.
O campus em União da Vitória tem aproximadamente 1.200 alunos. A Unespar é a que tem menos funcionários por número de alunos no Estado, entre as universidades estaduais. Já o campus do município é o que tem menos efetivo (10) em toda a Unespar e contabiliza mais alunos entre os sete campi da Universidade. “É uma média de um funcionário para cada 150 alunos”, contabiliza o pró-reitor.
Por lei, o campus tem 121 cargos de professores para ocupação. Porém em União da Vitória, o déficit é de 58 professores efetivos. Na cidade, são os professores contratados que lotam as vagas. “Temos 34 professores colaboradores. Eu não posso ampliar esse quadro, porque temos uma carga horária para o nosso campus de 700 horas. São cerca de 17,5 professores para 40 horas semanais. Já estamos estourados em mais de 700 horas, temos o dobro de colaboradores”, condena Sanches. “É um número muito elevado de colaboradores quando o ideal é de contratados”, aponta.
No entanto, o imbróglio entre Unespar e Governo Estadual não está nem perto do fim. Conforme grevistas, a pauta de reivindicações ainda não chegou à mesa do Governo e o que foi discutido até o momento não é suficiente. “Na reunião que o governador teve com os reitores ele se comprometeu em fazer o repasse do custeio. Houve um acordo e, aparentemente, o fantasma de fechar as portas foi sanado”, diz Bona.
Força acadêmica
Ainda no campus de União os alunos têm destaque na greve. O grupo que se juntou ao movimento é grande e, conforme a representante do Diretório Central Estudantil, Camila Schwarzer, antes mesmo de os professores anunciarem a greve no dia 9 de fevereiro, eles já haviam sinalizado a paralisação. “As decisões do Governo afetam diretamente a nossa vida acadêmica. Nós já sabíamos da falta de professores, já sabíamos de como eram as condições. A gente não tem como sair para fazer aula de campo, nossos computadores não têm capacidade para suportar os programas de certas aulas no laboratório”, comenta.
Outro impasse está no pagamento de bolsas de iniciação científica. O valor é de R$ 400 e o aluno não pode estar registrado em outro emprego. A dedicação tem de ser exclusiva para pesquisa. “Já faz dois anos que os pagamentos vêm atrasando. É um dinheiro que os alunos contam e quando não recebem todo mês, recebem atrasado,” denuncia a estudante.
Em nota, o Diretório também apontou as frequentes “aulas vagas” como um atraso na educação superior, uma biblioteca deficitária, com títulos antigos e, muitas vezes, ultrapassados. “Nesse momento de crise no estado do Paraná não devemos deixar de lutar por motivo nenhum. Há muito tempo estamos em silêncio aceitando medidas que aos poucos vem acabando com a educação pública do ensino superior. Nossa indignação vem ao constatar que a arrecadação do estado aumentou em 2014, mas os repasses de verbas não aconteceram”, diz parte do comunicado.
O grupo se reúne com frequência para decidir os comandos de greve entre os acadêmicos. A comunicação com outros campi é fundamental na organização. Camila já esteve em Curitiba em uma assembleia para a construção de propostas com outros alunos. Já na cidade, o grupo organizou uma agenda de movimentos. Um deles foi realizado na tarde de ontem, quando os alunos saíram às ruas de União da Vitória com cartazes em punho e gritos de ordem.