Artigo: Celebração

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Atualizado há 13 anos

Por Tânia Margaret Malschitzky Ruski

Segundo Rubem Alves… “A celebração de mais um ano de vida é a celebração de um desfazer, um tempo que deixou de ser, não mais existe. Fósforo que foi riscado. Nunca mais acenderá. Daí a profunda sabedoria do ritual de soprar as velas em festa de aniversário. Se uma vela acesa é símbolo de vida, uma vez apagada ela se torna símbolo de morte”.

Não deixa de ser verdade, pois a cada ano que passa vamos envelhecendo, ou seja, nossa chama de vida vai aos poucos se apagando. Vamos escrevendo nossa história através de nosso trabalho, do convívio com amigos e familiares. Como seres humanos a nossa qualidade e tempo de vida depende dos hábitos adquiridos, das escolhas saudáveis ou não que fazemos, ou quando temos a sorte de sermos abençoados com uma genética de primeira! Mesmo com uma rotina de cuidados saudáveis ou abençoados, temos que ir fazendo nossa manutenção com medicina preventiva.

Não podemos mudar o tom de pele, estatura, a cor dos olhos, nosso bio tipo está estabelecido, somos únicos neste universo de diferentes. Nesta singularidade ainda levamos conosco a história de nossos pais, herança física, hábitos e costumes. Às vezes herdamos algum objeto. Eu mesma ganhei um louçeiro que tem quase 100 anos e que ficou mergulhado na Grande Enchente de 1983, como a maioria dos móveis antigos foi feito com madeira de lei, assim não sucumbiu ao aguaceiro. Como gosto de tudo que tem história fiquei muito feliz com este presente, mandei restaurar e hoje está na nossa sala de visitas. Vemos em programas de televisão, livros, revistas e escolas o incentivo do quanto é importante manter viva a história dos povos, seus usos e costumes e por sua vez a conservação do patrimônio histórico para que não se deteriore com o passar do tempo. Construções antigas, prédios públicos, museus, escolas, igrejas precisam e devem ser restaurados seguindo com uma manutenção de qualidade, inevitável não pensar em Porto União, quase centenária.

Cada vez que chega seu aniversário e este mês comemoramos seus 96 anos, começo a garimpar situações que lembre sua história. Como abrir a tampa de um baú de memórias, foquei no meu Colégio Santos Anjos, precisamente no dia que recebi o convite para a missa que seria celebrada na Capela pelo aniversário dos seus também 96 anos, para alunos e ex-alunos. Seria muita alegria poder visitar meu Colégio que tantos anos fez parte da minha vida, primeiro como aluna depois como professora, totalizando quase doze anos de “intimidade”. Eu iria matar as saudades daquele espaço com tanta história para contar. Assim que cheguei ao pátio interno procurei pelo sino, mas só vi uma corda balançando sem rumo, uma cena melancólica, era ele que dava o sinal das entradas e saídas dos alunos, não sei se estava na oficina para algum reparo ou polimento ou aposentado de vez, ou quem sabe, longe de mãozinhas mexeriqueiras. Bem melhor o sino pendurado sem a corda, mania de “dar pitacos!” Uma ex-aluna gentilmente acompanhou-me até a Capela, o corredor que levava até ela não era mais com aquele piso antigo, uma cerâmica com desenhos tão conhecido meu; agora um muito brilhante, parecendo porcelanato. Caminhei com cuidado, o risco de eu escorregar era grande, pois usei um sapato com salto meio alto, afinal era um dia especial.

Assim que entrei na Capela levei um susto, na minha lembrança a capela onde tantas missas e Retiros Espirituais aconteceram, era bem maior, será que a cortaram pela metade para dar lugar a mais uma sala de aula? Confesso que com minha busca por história, tradição fui me encolhendo nas minhas lembranças. Num devaneio lembrei-me do Teatro Municipal e Palácio do Catete no Rio de Janeiro, Colégio São Bento em São Paulo, Theatro da Paz em Belém do Pará, Museu Imperial em Petrópolis e tantos outros espalhados pelo nosso imenso país, como eles estariam se estivessem sendo dilapidados pela modernidade? Sobraria apenas um esqueleto arquitetônico para mostrar um pouco da época que foram construídos. Já dentro da Capela procurei os vasos com flores do jardim que as irmãs cultivavam, para enfeitar, perfumar e colorir o altar e o ambiente de recolhimento e devoção, mas o que eu vi foram flores artificiais, imaginei como seria se nós enviássemos e recebêssemos flores artificiais nos aniversários e festividades… Novamente sem pedir licença, uma melancolia foi instalando-se de mansinho… O padre que celebrava fez uma missa diferente, pelo menos para mim, até eu pegar uma folha que estava escrito: Rito Ucraniano Católico, afinal Deus é um só.

Desconfiei que os organizadores do evento tiveram dificuldades de encontrar um padre católico disponível para celebrar a missa e que conhecesse a história do meu, do nosso querido Colégio Santos Anjos num dia tão especial. O propósito foi cumprido, no fundo agradeci o empenho e a boa vontade dos envolvidos nesta celebração. Para diminuir minha frustração saí pelo corredor que me era familiar e sem medo de escorregar. Fui caminhando devagar para admirar os quadros dependurados no alto da parede, das primeiras turmas do Curso Normal. Quadros antigos combinando com um piso também antigo e cheio de histórias, combinação perfeita.

Nesta galeria acabei encontrando o da Turma de Normalistas de 1946, onde tinha a foto da minha querida mãe a Sra. Ruth Goya Malschitzky, atualmente com quase 86 anos. Fiz uma viagem no tempo lembrando quando ela contava que ia de trem para lecionar nas cidades de Joaçaba e Valões, atualmente Irineópolis. Aquele passeio pelo corredor foi tudo que eu precisava naquele momento. Encanto para os meus olhos e quietude para o meu coração!

Tânia Margaret Malschitzky Ruski é Acadêmica da ALVI – Cadeira nº 26

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