*Por Leni Trentim Gaspari / Membro da ALVI*

Escrever sobre as praças é algo que me encanta porque pensar sobre o tema me leva a refletir que elas sempre estiveram presentes na história das cidades. São espaços livres e públicos de grande importância para a sociabilidade das pessoas consistindo num referencial urbano marcado pela convivência humana em tempos diferentes e também com funções e proporções diferenciadas, no entanto, com um ponto em comum: é o local do encontro e da convivência, da reunião, de festejos, de cerimônias oficiais enfim, local onde se atestam valores sociais e de entretenimento. Logo, espaço de história, memória e patrimônio.
Em União da Vitória, mesmo antes da criação oficial da Praça Coronel Amazonas o espaço já era local de encontro e de convivência, de “reunião de gente” que ali se encontravam por vários motivos. Encontramos na obra Apontamentos Históricos de União da Vitória, 1768-1933, de Cleto da Silva (1932, p.58) que em 1891, foi requerido por alguns moradores uma área para a construção de um prado de corridas que ali permaneceu até o acordo de limites com Santa Catarina, quando o terreno passou a ser aproveitado como parte do quadro urbano da nova cidade. Nas palavras de Cleto da Silva: “onde era o prado, hoje (1933) estão os edifícios do Estado, Fórum, Grupo Escolar, Hotel, Cadeia e também a Igreja Matriz”.
As praças ao longo do tempo tornaram-se cenários de diferentes eventos e funções e desempenharam papéis diferenciados na sociedade. Além do seu significado social podemos afirmar que elas também são um espaço de memória histórica. Nessa perspectiva, certamente foi com a ideia de homenagear o Coronel Amazonas Araujo Marcondes que os homens do passado decidiram dar essa denominação à praça que aos poucos despontava, primeiro no imaginário das pessoas da pequena comunidade para depois efetivar-se no papel como documento legal. Não encontramos a Lei Municipal que determina a criação da referida praça, no entanto, num estudo feito no Jornal A Imprensa, de janeiro de 1923, há uma matéria que descreve uma competição esportiva realizada por ocasião do Natal, naquele espaço que já era denominado como Praça Coronel Amazonas, vejamos parte do texto, na grafia original:
Não passou inteiramente despercebido entre nós o dia do nascimento de Jesus Christo, pois a officialidade da Força Federal aqui acantonada, encheu-nos esse dia com um interessante programma conforme passamos a descrever: Festa Athletica Organizada pelo Destacamento do 15º Batalhão de Caçadores, na Praça Coronel Amazonas, (grifo nosso) as 15 e ½ horas.
Na sequência do texto o jornalista, não identificado, descreve toda a programação de uma competição esportiva que trouxe muita animação e alegria a população: “[…] no decorrer das provas ouvia-se o entusiástico torcimento dos assistentes que alegres pela vitória deste ou daquelle aplaudiam sem cessar, dando vivas e batendo palmas”. A narrativa mostra a necessidade e a valorização do encontro com o outro, do contato e da sociabilidade.
Na pesquisa da Professora Lili Matzembacher, sobre os Monumentos e Marcos de Porto União e União da Vitória (1985, p.84), consta que o Monumento (busto) do Coronel Amazonas de Araújo Marcondes, foi construído como “homenagem do Município ao referido coronel”. De acordo com a “Lei 139, de 30 de julho de 1925, foi autorizada a ereção do referido Busto, mas somente inaugurado em 19 de dezembro de 1953”. Parece óbvio que praça já existia legalmente em 1925 já que houve a preocupação legal de se colocar um busto do Coronel no local. Outro documento que consultamos em nossa pesquisa foi o Decreto n.º34 de 09 de abril de 1940 , o qual em seu artigo 1º diz: “Fica concedida gratuitamente ao Governo do Estado do Paraná na Praça Coronel Amazonas desta cidade, a área de cinco mil seiscentos e noventa e sete metros quadrados”. Em 14 de junho do mesmo ano o prefeito Astopho Macedo de Souza, concede ao Estado, a Carta de Data n.º 568, legitimando a doação que foi feita para a construção da Escola José de Anchieta, conforme mostra croquis em anexo ao Decreto.
Os documentos são fontes seguras para a escrita da História e verificando a plataforma administrativa de José Cleto, escrita e apresentada ao povo em 1947, à época de sua candidatura a prefeito de União da Vitória, no objetivo n.12 de sua proposta consta: “Iniciar o ajardinamento da Praça Coronel Amazonas em frente a Igreja e Ginásio Estadual”. Portanto, a Praça já existia oficialmente, ele estava se propondo a revitalizá-la e o fez com maestria. Vejamos parte do relatório que ele escreveu sobre o período de seu mandato de 1947-1951, (p.25). Mantivemos o texto com a grafia original da época:
Praça Coronel Amazonas
Este logradouro publico antes terreno baldio e esburacado, óbra construída em nossa gestão, veio dar novo realce ao principal centro urbano da cidade. Está regularmente ajardinada; recebeu nova iluminação elétrica; foram colocados ali vinte e quatro bancos e ao seu centro sitúa-se o ALTAR DA PÁTRIA que é simbolisado pelo Mapa do BRASIL, estlisado e em cimento, com as divisas estaduais em côres da bandeira, nómes dos Estados e Territorios e das suas Capitais, estando ainda orientado pelo meridiano verdadeiro. Nessa mesma Praça em seu contorno foram calçadas ou pedregulhadas as ruas e construídos boeiros de pedras, subterraneos, para drenagem das águas, além de diversos refugios para pedestres.
No mesmo Relatório (p.88-93) estão citados vários marcos e placas comemorativos de alguns serviços públicos realizados pelo prefeito José Cleto, entre eles consta: que “ Na Praça Coronel Amazonas, nesta cidade, um monólito em ‘pedra ferro’, entalhado a mão, com mais de 3.000 quilos, marco comemorativo da sua construção e inauguração com cinco placas de bronze […]. Assim, ela recebeu seu primeiro monumento histórico, fato importante pois, os monumentos são heranças e representações do passado, os quais transformam-se em fontes de conhecimento das ações dos homens no tempo.
Iluminada, ajardinada e com um visual atrativo, a Praça consolidou-se como espaço de “ver e ser visto”, de passear, conversar, ver o mundo passar. Local onde estudantes do Ginásio Túlio de França, (à época, ficava em frente) se encontravam para trocar ideias e paquerar e muitos namoros ali começaram e terminaram em casamentos. Os idosos encontravam-se para conversar, os pais levavam seus filhos para brincar e as professoras faziam aulas práticas com as crianças no mapa do Brasil. Esse era o recanto preferido delas e dos adultos também. Ainda hoje desperta boas lembranças nas pessoas que viveram esses momentos, mas que lamentam profundamente o desaparecimento do mapa que era visto pela comunidade como uma herança social por envolver questões de patrimônio, memória e identidade cultural. Na foto abaixo destaca-se o mapa do Brasil e representa uma solenidade cívica realizada em 1952, na gestão do Prefeito Domício Scaramella.
Ao comemoramos o aniversário da nossa querida cidade creio que é oportuno falarmos da praça como espaço de memória histórica, como patrimônio cultural, mas não só dela. Precisamos estar atentos as políticas de preservação para garantir a história acumulada, garantir a identificação dos indivíduos com o seu espaço, criando a ideia de pertencimento e principalmente decidir sobre a cidade que queremos para viver e sobre a sociedade que queremos construir. Esse com certeza é o melhor presente que União da Vitória pode receber do seu povo.
Este texto faz parte de uma pesquisa mais ampla que estou construindo sobre a referida Praça.