Artigo de Filosofia: Ensaio do Absurdo

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Atualizado há 14 anos

  Por Vlad Myszka 

Se a vida já traz-nos derradeiras situações determinadas com exigüidade ostensiva em decorrência do desencadeamento da percepção vulgar de julgar previsões dos homens; num (selvagem) átimo que soma para abalar essa desordem feroz, trará o escritor Albert Cammus (1913-1960) um ponto faccioso ao estabelecer o regimento incontrolável das modificações passivas do real pela via do absurdismo. Albert C., o citado escritor franco argeliano, diagnostica a dinâmica do nosso tempo, e brinca com a rapidez das transformações.

Nesse sentido, vemos resultante no sujeito atual um anseio que está para a excepção das coisas, para o lado inesperado, desracionalizado. Um gradual desprendimento àquilo fixo, um atentado às convicções constituídas, porque é justamente na graduação contextual que se produz os efeitos de culto à novidade que descaracterizam o ritmo do conhecimento levando-o ao cerceamento cadavérico. Assim: todos sujeitos querem ser uma exceção e você não é uma exceção.

Acorrentado a estes anseios, perde-se a solidez com a qual podemos fazer do nosso discurso uma potente arma para travejar nas querelas. Haja vista que a referida graduação contextual, inspirada pelo extenso e intenso fluxo de informações da nossa época com o advento tecnológico e o neoliberalismo emergente, acarreta uma possibilidade de viajar nosso fascínio inconseqüente por uma diversidade maléfica de conteúdos superficiais que não admitem os ditames da lógica.

No Romance O Estrangeiro, Cammus conduz seu protagonista em cenas descomunais, o plano de fundo é o personagem ser condenado à morte por não expressar pranto no enterro da mãe. Essa desconexão dos predicados da vida como senhores no comando, é o ensejo para dizer sobre  a ocorrência de uma perversidade na tradição do conhecimento como demonstratividade. Em termos dialéticos, se uma ocorrência decorre para outra, no primeiro passo, devemos procurar uma limitação entre as duas ocorrências para que seja assaz afixado o próprio daquela ocorrência, simplesmente para que ela possa ser e possamos dizer sobre ela. Tome-se por exemplo uma quantidade de área, e adiciona-a outra. As duas possuem sua qualidade de própria e podem dar luz a outras quantidades de áreas também próprias desde que respeitadas suas limitações; e é isso que entenderemos como processo construtivo. Mas, quando nada se constrói, e reutiliza-se reiteradamente as duas (diversidade já permanente) áreas, o tráfego tornar-se-á obsoleto e nada poderá incidir sobre estas. Sejamos mais claros: a alternância dos campos com necessidade urgente e como último recurso é uma violência para com o conhecimento enquanto tenha sua validade explícita, quando incide sobre algo sem corresponder às formas explicitadas; e daí quando esse algo é eternamente remoldurado pela ausência de fundamento pela insistência do interlocutor que adiciona e readiciona contextos para  não admitir sua insuficiência, e para não dar à palavra o estatuto de funesta porque não atende o princípio do seu procedimento. O que será Infecundo. Improdutivo. Transversal.

Temos a noção de que, não desconsiderando que estamos considerando o cenário recente, o que vem para além da estrutura é um sedutor e atraente aos olhos humanos. Poderíamos justificar-nos pela reprodução midiática considerável,  ou tão-somente o aclamado acumúlo histórico pelo qual tanto temos nos vangloriado ao longo das datas dos idos, duelando por sua atualização. Aí, desembocamos numa corrente barrenta de conteúdos, que todos precisam estender ao mundo intelectual, letrado uma obra-prima manejada adstritamente pelo sujeito na condição de novo fazendo obras que inovam.  A busca pelo novo mata a capacidade da reinvenção.

A leitura do Cammus literário, face a face com este impacto contemporâneo, pode ser usada para dar conta de explicar este comportamento ”absurdo” ao constatar-se consciente no meio deste processo. Mas há que se perceber, que a natureza de toda esta história tende para uma história de desconstrução dela mesmo por estar cultuando a si própria. Uma coisa só é valida quando ela está portando o decreto de novo, logo, é necessário respeitar critérios forçosos para assumir uma coisa bem-feita, com suas potências atingidas na medida em que houver relacionalmente outras coisas forçosamente mal feitas para aditivar pilha nessa configuração de reconhecimento;

Agora, se a leitura de Cammus serve-nos bem como subterfúgio avantajado para espelhar a crítica a um mundo que não se preocupa mais tanto com a lógica racional, também será para observar uma linha que vai até a despreocupação com a essência. Para definir, a melhor maneira, talvez seja ver como dualismo entre processo (não aparência) e essência. Muito mais combina processo para traduzir tudo aquilo que não acompanhamos paulatinamente, mas é necessário para viver numa rede de interligações com séries avessas às vontades e desejos profundos da espirituosa vereda do conhecer.

É válido considerar.

Por ocasião, haja importância no verbo considerar.

Vlad Myszka é escritor e assessor cultural.

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