Artigo de Renan Machado: Coluna Cartas da Província

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Atualizado há 14 anos

Pessoas de vidas corriqueiras anseiam quebrar a rotina. Dayworkers diria o personagem de um filme fajuto de comédia adolescente. Eis esta a cruz daqueles que tanto lutam por uma vida menos comum, no bom sentido da coisa. Digo por experiência própria. Não que eu fosse um dayworker, mas na minha infância hiperativa, meu horror era repetir o ontem, hoje. Costumava fazer planos para meus dias, pensando no jantar durante o almoço. Era uma ansiedade que sem dúvida colocava em apuros meus pais e avós, os quais não tinham um segundo sequer de sossego.

Certa vez, há uns 12 anos, lembro-me de ter tido um sonho esquisito. Passávamos, eu, meus pais, primos e tios, o feriado na casa de meu avô, como de costume. No sonho, a família reunida à mesa, quando, de súbito, ruídos vindos da sala de estar chamam a atenção.

Mais tarde eu descobriria que eram provocados por minha mãe que, com a desculpa de ir ao banheiro, dispunha os presentes sobre o tapete e simulava o barulho de um Papai Noel transitando por uma chaminé que nem ao menos existia. Mas aquele era, sem dúvida, um momento mágico. Eu e as outras crianças, por conseguinte, corremos para a sala em euforia e lá encontramos dezenas de presentes próximos à lareira.

Por um instante achei tudo muito estranho, já que outrora não havia uma lareira na casa de minha avó, e agora ali, encontrava-se uma. Porém, a felicidade falava mais alto, quando olhei pela janela, e esqueci a tal da lareira.

O que vislumbrei, foi maior do que qualquer surpresa que eu poderia encontrar sob os embrulhos natalinos. O meu maior sonho para a noite de natal se realizava, quando, do céu estrelado, flocos de neve caíam suaves. Não seria nada de mais, se não o absurdo de estar nevando no Brasil, em pleno dezembro. Mas para mim, um baita presente: uma nevasca no natal; daquelas agradáveis, não aterradoras, mas espirituosas. Seria algo inédito e divertido pra burro. Porém, no ponto alto do sonho, acordei. Foi uma frustração acordar e me deparar com a monotonia de mais um dia crônico, onde nada de novo acontecia.

Inconscientemente, eu formava, quando criança, uma ideia que viria à tona, novamente, 12 anos depois: ainda da independência, estamos todos à mercê da rotina. E no verão só piora. Os dias são amenos pela manhã bem cedo e não tardam, porém, a esquentar; próximo às 5 da tarde, uma breve chuva de pingos grossos desaba, torrencial, do tipo que se sente o cheiro.

Nos outros momentos, o dia de verão é desgastante, abafado e para os desocupados, até parece perene. As vestes empapam-se de suor e banhos, três vezes por dia, com o chuveiro na regulagem “verão”, são indispensáveis. Por muitas vezes, ansiei por situações inusitadas, como as de meu sonho de garoto, mas acho que me acostumei com as coisas como são.

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