Em vias de seriedade
Por Renan Machado
Na última semana, Santa Maria, cidade universitária distante aproximadamente 300 Km da capital Porto Alegre (RS), foi manchete no Mundo todo. Uma tragédia na boate Kiss, na madrugada de domingo (27), matou cerca de 230 pessoas, jovens, durante uma festa universitária. A grande mídia noticiou o incidente e seus desdobramentos dia a dia. Muito bem: e agora?
O sentimento de tristeza apodera-se de todos nós. Eram crianças com uma vida inteira pela frente? Sim. Jovens, como eu. “Poderia ser meu filho; meu neto”, dizem os mais velhos. Ainda assim, quem se encontra fora do contexto nunca saberá a dor que aflige famílias e amigos. Ao ler a notícia no jornal ou assistir na televisão, há a sensibilidade. O altruísmo. A compaixão. A mídia aproveita-se dos olhos que enchem-se de lágrimas facilmente e abusam do teor melodramático. “Foca na lágrima escorrendo” – disse-me uma vez um mestre acadêmico. – “Isso é de lei”, completou. Francamente. A postura jornalística, porém, é discussão para outros tópicos. Em pauta aqui temos: a tragédia aconteceu, o Planeta tomou as dores das vítimas, famílias e amigos em notas veiculadas na imprensa, as mesmas famílias e amigos que sentirão esse vazio pelo resto da vida. O que vem a seguir? Esquecimento não pode ser.
As jovens vítimas festejavam e brindavam à vida na boate Kiss, estabelecimento que encontrava-se irregular. Ainda da declaração de um dos sócios, dizendo que a renovação do alvará teria sido requerida, os documentos acusavam o vencimento da licença anterior em agosto de 2012. É preciso ser franco: o nome disso é negligência. Um show pirotécnico fazia parte da apresentação do grupo Gurizada Fandangueira. Pois bem. Que o sinalizador utilizado era inapropriado para locais fechados, só especialistas podem dizer. Por outro lado, a enxurrada de negligências avança sem piedade sobre os sonhos de guris e gurias que não puderam acordar de ressaca na manhã seguinte.
A administração da boate foi irresponsável em não alertar os artistas para os riscos de tal performance: o isolamento acústico é constituído de um material altamente inflamável e encontrava-se exposto, sem qualquer proteção. O vocalista foi igualmente irresponsável, pois não consultou os responsáveis pelo estabelecimento nem sequer teve o bom senso de imaginar que um sinalizador aceso num local com pé direito baixo, como, por fotos, é possível notar ser o caso da Kiss, poderia dar início a um incêndio.
A observação dessa sucessão de negligências vai ainda longe. Nem falemos dos extintores. A questão é: o leite está derramado. Nada trará de volta às famílias suas crianças. Como estamos acostumados no Brasil, as autoridades prontificam-se às mudanças tão só o estrago está feito. Não há planejamento. Tampouco ações que possam minimizar incidentes como este de Santa Maria. Passou da hora de prevenir antes de remediar. Passou da hora de encarar aquilo que está errado em vias de seriedade. Antes do capital e da politicagem, são vidas brasileiras que estão em jogo e clamam por zelo. Filhos deste solo que, ao crerem que sua Mãe Gentil não os esqueceu, ainda acreditam num País que cuida de seu povo.