*Por Renan Machado*
Que não soe em tom de despedida. Xô, pra lá. Mas nesta sexta-feira, há de se prever, fria, contanto que o clima bipolar deste novembro não torne a virar, Cartas da Província traz uma singela homenagem. Coisa pouca, de se envergonhar, eu diria, caso não tivesse boa intenção, perto da grandeza do doutor qual estou prestes a falar. Vamos por partes.
Nessa semana eu ouvia a rádio CBN, preso ao carro no trânsito caótico de Curitiba em obras. Meio disperso, devo dizer, até que, de súbito, uma entrevista chamou-me atenção. “Autora fala sobre lançamento de livro que conta a história dos 93 anos do Hospital Pequeno Príncipe”. Minhas orelhas puseram-se em riste. Primeiro, porque gosto de livros. Segundo, porque o hospital tem um capítulo inteiro na minha história de vida.
O Pequeno Príncipe é um hospital curitibano voltado, principalmente, à pediatria. Quando criança, recém-nascido ainda, eu sofria de intolerância à lactose. Uma situação, se dirá hoje, comum e de fácil identificação. Mas nos idos de meus seis meses as coisas eram diferentes. Noites horríveis, contam meus pais, aquelas passadas em claro com meus berros de dor. Ninguém sabia a origem de tudo aquilo.
Morávamos em Ponta Grossa na época. Foi quando meus pais ouviram falar de um doutor curitibano, pediatra, bem afamado como profissional. Decidiram arriscar. Na capital, hospedavam-se no Hotel Siena, esquina das ruas Desembargador Mota e Silva Jardim, em frente ao Pequeno Príncipe, hospital no qual conheceram Ivan B. Fontoura, um senhor simpático, de sorriso fácil, o responsável por desvendar o mistério. “Não deem mais leite para esse menino, a não ser que plantem um campo de soja no intestino dele”, deve ter dito o doutor Ivan, se conheço um pouco dele. As dores cessaram e eu pude crescer em paz.
Por muito tempo, depois que nos mudamos para a capital, continuei a tratar-me com o doutor Ivan. Eu diria até uns dez ou doze anos. Ele atendia, além de no Pequeno Príncipe, num consultório da Rua Nunes Machado. Recordo-me bem das consultas: na balança, peso e altura eram mensurados; em seguida, respirar fundo era lei. Nada de arrepiar por conta do estetoscópio gelado. No final, se tudo corria bem, como sempre correu, levava pra casa o palito adocicado, utilizado para examinar a garganta, e uma porção de balas de banana como recompensa.
Apesar dos pesares, bons tempos de infância. Do doutor Ivan eu sinto saudade, pois há tempos não o vejo: abandonou a Província para viver no litoral paranaense e dedicar-se ao atendimento médico voluntário. Um homem espirituoso, o doutor Ivan. Um coração maior que o mundo. Adverti dantes que seria singela a homenagem. Está aí. Em suma, de lágrimas nos olhos, deixo apenas duas palavras mais: obrigado, doutor.