Artigo Renan Machado: O cúmulo do conforto

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Atualizado há 14 anos

Coisa que abomino é escada rolante. Sei que muitos admiram a versatilidade (suposta) deste transporte indoor, mas comigo não há acerto. Dias atrás mesmo uma surpresa: vi-me dentro de um shopping. Surpresa, sim, pois se há outra coisa que abomino é shopping. Adentrei o local pelo mesmo motivo de sempre: visitar uma livraria. Isso eu tenho igualmente evitado. Procuro comprar pela internet ou sucumbir à nostalgia de livrarias de rua. Contudo, nesse caso, havia urgência.Precisava comprar um livro específico para uma confraternização de amigo secreto. Vamos lá, força!, pensei comigo.

Era no Shopping Mueller, próximo ao Centro Cívico de Curitiba. Pronto, já disse. Pois bem, estacionei o carro, o qual, diga-se de passagem, era o mais humilde naquela região do estacionamento, ao lado oposto da rua onde fica o shopping.

É um prédio grande, cheio de vagas, que serve para suprir lotações no estacionamento do Mueller, o que acontece nos fins de semana. Para atravessar deste prédio para o shopping existe uma passarela. Por algum motivo eu havia esquecido, mas tão logo tive de atravessa-la relembrei: uma esteira rolante rola (olha a redundância) carregando os peregrinos de um lado a outro. Que loucura!

Comentei com algumas pessoas o acontecido. Recebi de pronto a resposta, parafraseando o carteiro Jaiminho, do eterno seriado Chaves: “é pra evitar a fadiga”. O.K., sem problema. Mas diga-me você, leitor amigo: que diferença existe em caminhar pela passarela ou esperar, em pé, que a esteira rolante atravesse-o para o outro lado. Isso me fez pensar que talvez, apenas talvez, se dispusesse de assentos, a esteira seria uma boa pedida. Nada de luxo, cadeiras de latão, simples, dessas que encontradas em botecos.

O mais engraçado, porém, era o ato da travessia. Enquanto alguns, despreocupados, aproveitavam-se da comodidade para apreciar o trânsito truncado da Rua Mateus Leme, outros roíam unha de pressa. Irritavam-se no interior das tripas com a calma daqueles que, tranquilamente, eram levados pelo embalo da esteira.

Os apressados queriam andar, correr pela passarela, ora. Não podiam. Por sorte a passarela dispunha de um estreito corredor sem esteira nas laterais. Quem não quisesse curtir o passeio rolante, que caminhasse por ali. Alguns, porém, se apercebiam desta opção quando já estavam no meio do caminho pela esteira. Presenciei um caso em que o rapaz perdeu as estribeiras e pulou o corrimão da esteira para correr pela lateral. Juro.

Apesar dos pesares sobrevivi à travessia, duas vezes, e consegui comprar o presente de amigo secreto. Porém, e não surpreenda-se com isso, caro leitor, pois já falei da minha sina, não foi estranho quando, ao enfrentar a primeira escada rolante, já dentro do shopping, meu cordão desamarrado prendeu-se ao degrau quando eu saía do equipamento. Puxei o pé com força e este desprendeu. Disfarcei o tropique com uma reverência às senhoras detrás de mim, como um perfeito cavalheiro.

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