Colóquio, um dedo de prosa: A revolução brasileira de junho de 2013

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Atualizado há 13 anos

Por Profa. Marilucia Flenik, Dra.

A revolução brasileira de junho de 2013 

O grito de revolta do povo brasileiro

Quando Moisés e Arão clamaram ao Faraó pela libertação do povo israelita, a reação do governante foi afligi-los ainda mais. Determinou que daquele momento em diante a palha não seria mais fornecida para a fabricação dos tijolos das pirâmides, devendo o povo assumir também aquela tarefa e continuar a cumprir as respectivas cotas de trabalho, sob pena de castigo. Quer dizer, a opressão ficou maior ainda. O povo então se queixou a Moisés e a Arão das condições insuportáveis do cativeiro. (Êxodo, 5,1-23) A história é bem conhecida. Dali em diante caíram as sete pragas do Egito na cabeça do Faraó e o povo seguiu o seu destino, caminhando no deserto, em busca da Terra Prometida, da abundância do leite e do mel.

Seria válida essa metáfora de comparação para o povo brasileiro? Penso que sim, pelo menos para uma grande parte da população brasileira. Todo aquele que é escravo da ignorância, da falta de condições mínimas de existência no que tange à saúde, a educação, a moradia; aquele trabalhador que utiliza um quarto de sua vida entupido em ônibus abarrotados; aqueles profissionais que trabalham duramente, em três turnos, e ao final percebem que um turno é destinado para cobrir as oito parcelas do Imposto de Renda, que ainda deve recolher ao Tesouro, além de tudo aquilo que já fora recolhido na fonte; e além do mais, ainda tem que arcar com as despesas da escola de seus filhos e dos planos de saúde, caso não queira enfrentar filas e esperar meses pela realização de um exame; e quando vai adquirir os alimentos no mercado, se surpreende com o quilo do tomate custando oito reais… BASTA! foi o grito da população brasileira. Estamos cansados das promessas e do falatório dos políticos, que parecem estar preocupados apenas com os marqueteiros e a melhor forma de continuar iludindo o povo.

O povo que foi para as ruas sabe que a carga tributária no Brasil é uma das maiores do mundo e que cada um trabalha até maio para pagar os tributos. Tudo bem, diante da concepção de uma política de justiça distributiva: recolher tributos de cada um de acordo com suas possibilidades, e distribuir recursos a cada um de acordo com suas necessidades. Mas isso não acontece no Brasil. Pelo tanto que o Tesouro arrecada, não poderíamos estar a um passo de uma nova onda de inflação, cuja origem é o descompasso das contas públicas. Já vivenciamos essa tragédia. No auge do regime militar, o Ministro da Fazenda elaborou um relatório para o recém escolhido Presidente João Figueiredo, mostrando que a economia estava combalida e que a máquina governamental deveria apertar os cintos a fim de sanar o déficit público. A reação do então Presidente foi sair com o chavão: “plante que o João garante”, e o governo continuou gastando. O resultado nós conhecemos: inflação de 40% ao mês, até culminar com o “enxugamento” monetário a partir dos bloqueios financeiros do Governo Collor. Alguém tem saudades daqueles tempos? Talvez os especuladores, porque era mais vantajoso para os ricos investir o seu capital no mercado financeiro, que criar novas empresas e novos empregos. Não nós, o povo brasileiro.

No momento em que a população inundou as ruas para protestar, houve um espanto geral, surgindo os questionamentos a fim de buscar compreender o fenômeno político. O que estava acontecendo? O povo não está satisfeito com o pão da bolsa família e os demais com o circo da Fifa? A nossa seleção canarinho vai entrar em campo, tal qual na época em que éramos 90 milhões em ação e gritávamos pra frente Brasil, salve a seleção? Ingênuos, iludidos…, mal sabendo dos horrores dos porões da ditadura… Essa é a diferença. Hoje vivemos sob os auspícios da democracia. A Constituição Cidadã de 1988 nos deu voz e nós estamos usando desta prerrogativa. Atabalhoadamente o governo reagiu aos protestos dos gritos de revolta nas ruas. Mas, especificamente, sobre o que estão protestando, além do preço das passagens do transporte público e de sua melhoria? Um cartaz de uma participante resume a questão. Nele está escrito: SÃO TANTAS AS NOSSAS QUEIXAS E REIVINDICAÇÕES QUE NÃO CABEM AQUI.

Auscultar os anseios da população brasileira e traduzir em políticas públicas é missão que se impõe à classe política. É tarefa urgente modificar o quadro institucional, cuja oportunidade é agora. Plebiscito, referendo, cinco pontos da Presidente Dilma? Serão temas para o próximo “dedo de prosa”.

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