Profa. Marilucia Flenik, Dra.
A revolução das pessoas de boa vontade
Um aliado importante, o Papa Francisco I
Não há como deixar de se entusiasmar com a Jornada Mundial da Juventude Católica, realizada no período de 23 a 28 de julho de 2013, na cidade do Rio de Janeiro. No domingo, na missa do envio, mais de três milhões de pessoas, muitas vindas de todos os confins da Terra, reunidas na praia de Copacabana, rezando, cantando e, em completo silêncio, nos momentos mais íntimos de comunhão com o Senhor Jesus, nosso Deus e Senhor.
A Igreja do encontro, do acolhimento, da paz, do Amor. Colhemos das atitudes e das palavras do Papa Francisco I ensinamentos que devem ser gravados no nosso coração e no nosso cérebro. Quando Gerson Camarotti, o repórter que conseguiu a primeira entrevista exclusiva com o Papa, perguntou a ele o que achava dos movimentos de protestos ocorridos no Brasil, a partir de junho de 2013, ele respondeu: “não sei sobre o que os jovens brasileiros estão protestando; mas adianto que um jovem que não protesta não me agrada. Porque o jovem tem a ilusão da utopia, e a utopia não é sempre ruim. A utopia é respirar e olhar adiante. O jovem é mais espontâneo, não tem tanta experiência de vida, é verdade. Mas às vezes a experiência nos freia. E ele tem mais energia para defender suas ideias. O jovem é essencialmente um inconformista. E isso é muito lindo! É preciso ouvir os jovens, dar-lhes lugares para se expressar, e cuidar para que não sejam manipulados.”
Sobre o povo brasileiro afirmou que nós temos um grande coração e nos exortou dizendo: “não se cansem de trabalhar por um mundo mais justo e solidário. Sempre se pode colocar mais água no feijão.”
Um ponto crucial foi o exemplo de sobriedade e o desapego ao dinheiro e a ostentação. O Papa não é o Príncipe da Igreja, mas sim o Papa é quem serve a Igreja. Feita a inevitável pergunta sobre a perda de fiéis da Igreja Católica, disse que não saberia explicar esse fenômeno. Mas levantou uma hipótese a partir de sua experiência na Argentina, dizendo: “Para mim é fundamental a proximidade da Igreja. Porque a Igreja é mãe, e nem você nem eu conhecemos uma mãe por correspondência. A mãe… dá carinho, toca, beija, ama. Quando a Igreja, ocupada com mil coisas, se descuida dessa proximidade, se descuida disso e só se comunica com documentos, é como uma mãe que se comunica com seu filho por carta.”
Relatou que estava ao lado de Dom Cláudio Hummes, o nosso Cardeal de São Paulo, quando foi proclamada a sua eleição; e no primeiro abraço que recebeu, ouviu do amigo: “não se esqueça dos pobres”, o que o motivou a escolher o nome “Francisco”.
Recordou o Papa que no mundo há pessoas que não têm o que comer, enfermos que não têm acesso à saúde, pessoas que morrem de frio nas ruas, crianças que não recebem educação, sendo que nada disso é notícia; contudo, se a Bolsa de Valores cai um ou dois pontos, é uma grande notícia anunciada como uma catástrofe. Neste mundo em que vivemos, afirmou o Santo Padre, impera uma feroz idolatria ao dinheiro. A política mundial está impregnada pelo culto ao dinheiro, movendo uma economia autossuficiente que dispensa a ética. Esse tipo de mundo apresenta no centro os interesses econômicos daqueles que produzem e usufruem dos bens materiais. Descuida-se dos extremos, as crianças, os jovens e os velhos, que são mal atendidos; os anciãos são descartados como não produtivos e os jovens também estão em processo de descartagem; a porcentagem de jovens desempregados na Europa é alarmante, sendo que o culto ao dinheiro criou um humanismo desumano.
Sobre o diálogo com as outras religiões, disse: “hoje se faz necessária uma cultura do encontro em todo o mundo e um diálogo entre todas as religiões. Que cada um sinta a necessidade de dar à Humanidade valores éticos, que atendam a realidade humana. Todos devem trabalhar pelos demais, segundo os valores da própria fé. A urgência é tal que não podemos brigar entre nós. Primeiramente deve-se trabalhar pelo bem estar do próximo e paralelamente estabelecer um espaço de conversa a fim de nos entendermos reciprocamente. Urge a proximidade para solucionar os tremendos problemas mundiais que se apresentam. Enquanto existir crianças com fome, jovens sem educação, enfermos e anciãos sem assistência médica, ninguém poderá dormir tranquilo. A Igreja não é beneficente mas vivenciar a fé significa acolher o próximo e isto é misericórdia.”
Sobre o que os jovens brasileiros protestam? Por um mundo melhor e mais justo e o Papa Francisco I tem muito a nos ensinar.