Profa. Marilucia Flenik, Dra.
O VIAJANTE, O SUPER HOMEM: aquele que escala altos montes e se ri de todas as tragédias da cena e da vida.
Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) é um marco na história do pensamento humano. Ele próprio se declarou um destruidor que usaria o martelo para desmontar a Filosofia e a falsa moralidade que imperava no seu tempo, onde os homens de bem, somente aparentavam cultivar os valores cristãos, mas agiam de forma totalmente diferente. O filósofo é acusado frequentemente de haver inspirado Hitler com suas ideias de super homem. Na verdade o que Nietzsche fez foi colocar nas próprias mãos das pessoas os respectivos destinos.
A metáfora de “subir a montanha”, significa a elevação da pessoa humana. Cristo se transfigurou no alto da montanha perante Pedro, Tiago e João, mostrando que a grandeza humana está no seu espírito. No entanto, caso a criatura humana queira viver descobrindo seus caminhos, escalando as próprias montanhas, terá que vivenciar alegrias e tristeza. Subir… subir… ainda que lá no alto veja apenas os seus sonhos despencarem no abismo… Nesse momento de compreensão da miséria humana – tu és pó e ao pó voltarás – há o instante de apreensão do “ser”. Esse “é” o super homem… aquela pessoa capaz de endurecer ao ponto de arrostar as vicissitudes da vida e não esmorecer.
No Livro “Assim Falou Zaratustra”, Nietzsche relata um encontro de um homem encantado com Zaratustra que lhe diz: “eu procuro o grande homem, alguém que seja sincero, reto, simples, alheio ao fingimento, um homem de toda a probidade, um vaso de sabedoria, um santo de conhecimento, um grande homem!”. Eis a definição de “um super homem”, alguém que personifica o que há de melhor na espécie humana, ou seja a fidedignidade, cujas palavras e atos não se contradizem.
Deixo aos meus leitores um trecho adaptado das palavras de Zaratustra, no momento da descoberta do super homem pelo viajante.
“Enquanto subia a montanha, pensava Zaratustra nas muitas viagens solitárias que fizera desde a sua mocidade e nas muitas montanhas, cumeeiras e cristas que escalara. ‘Eu sou um viajante e um escalador de montanhas – disse de si para si. Cada qual vive unicamente a si mesmo. O meu próprio ser está enfim de regresso, e quanto dele próprio andou durante muito tempo por estranhas terras e disperso entre todas as coisas e todas as contingências.
Agora preciso seguir o meu caminho mais rigoroso! Começou a minha viagem mais solitária.’ Segue o teu caminho de grandeza, o que veio agora a ser o teu último refúgio, que até aqui se chamou o teu último perigo! Segue o teu caminho de grandeza: a tua melhor animação agora é não existirem caminhos atrás de ti! … E se, mais adiante, te faltarem todas as escadas, será preciso saberes subir sobre a tua própria cabeça; senão, como quererias seguir adiante? Sobre a tua própria cabeça e por cima do teu próprio coração. Agora o mais suave vai-se tornar para ti o mais duro. Aquele que sempre cuidou muito de si acaba por se tornar enfermiço com o excesso de cuidado. Bendito seja o que endurece! Não gabo o país onde fluem manteiga e mel!
Mas tu, Zaratustra, que querias ver todas as razões e o fundo das coisas, precisas passar por cima de ti mesmo, e ascender, ascender até as tuas próprias estrelas ficarem abaixo de ti! ‘Sim! Ver-me a mim próprio, e até as minhas estrelas, olhando para baixo! Só isso chamo o meu cume; é esse o último cume que me falta escalar.’ Assim falava consigo Zaratustra enquanto subia, consolando o seu coração com duras máximas. ‘Reconheço a minha sorte. Estou pronto! Começa agora a minha última solidão. Que mar tão negro e triste a meus pés! Que sombrio e noturno pesadelo! Ó, destino e oceano! É mister que eu agora desça para vós… Estou pronto!”
Assim falou Zaratustra no píncaro da montanha onde reinava o frio, mas, quando chegou perto do mar e se encontrou sozinho entre as rochas da margem, sentiu-se cansado do caminho e ainda mais cheio que dantes de ardentes desejos.”