Por Mariana Honesko

Do alto de seus 81 anos, Domicela Lurdes Chibior Sawaya é dona de uma beleza nada discreta. Os olhos grandes e azuis contrastam com os cabelos brancos, elegantes, e com o vermelho usado nos lábios. Ela usa roupas discretas mas de bom corte. O sorriso é longo e fácil. É provável que por tantos predicados, somados com uma história que se confunde com os passos das lojas de União da Vitória, que Domicela tenha sido eleita pelo Sindicado do Comércio local como uma das 47 empresárias do Paraná com maior destaque no ano. O prêmio é o primeiro título que recebe em praticamente 50 anos de comércio local. “Foi uma surpresa muito grande. Nem percebi que os colegas falavam “empresária do ano” para mim. Achei que era apenas chateação”, conta.
Não era apenas isso: na noite de sexta-feira, 18, Domicela recebeu o troféu da Fecomércio do Paraná, um símbolo pelo seu dinamismo a frente dos negócios herdados especialmente após o falecimento de seu marido, Salim Touma Sawaya, o libanês que se rendeu aos encantos de Domicela. Aos 27 anos, ele veio ao Brasil para estudar mas foi derrotado pela paixão. A volta para casa não aconteceu e, em União da Vitória, ele inaugura sua própria casa comercial, a Casa São Jorge. “Que tinha um pouco de tudo: tecidos, calçados masculinos e camisaria”, lembra Domicela, viúva há 16 anos.

Com a morte de Salim, em 1998, a empresária não teve muita opção. Assim, decidiu comandar a empresa. No caminho, encontrou amparo nos braços de uma das filhas, Samari, que abraçou a mãe e a causa. “Ainda bem que tinha ela para ajudar porque foi um desafio assumir tudo”, conta. “O pai sempre mimou muito a mãe. Não deixava ela fazer nada, cuidava de tudo”, sorri a filha, revelando o carinho dedicado durante 37 anos por Salim.
Na época, a Casa São Jorge já era identidade extinta: o endereço, na Rua Professor Cleto, chama-se Sawaya Magazin. A marca durou cerca de 50 anos. Hoje, a loja é mais enxuta, está na Professora Amazília, e tem na versatilidade o segredo. Na Sawaya ainda é possível encontrar a linha de camisaria, mas é a lingerie o carro-chefe das vendas e de uma clientela essencialmente feminina. Domicela é dona do negócio mas age como funcionária: chega cedo e fica na loja o dia todo. “Nunca pensei em como seria longe daqui, mas certamente sentiria muita falta”, sorri.
Comerciante desde o berço
Domicela não poderia ter encontrado o marido em lugar mais apropriado. “Ele era sobrinho do dono da loja onde eu trabalhava”, revela a homenageada. Na época, a Casa Colombo foi o primeiro emprego oficial de Domicela. Lá, trabalhava como balconista.
Mas, bem antes de estrear no comércio da cidade, ela já passeava neste território. Domicela é filha de um casal de comerciantes. Seus pais tinham uma padaria na cidade de Campo Largo (PR) e, assim, desde muito cedo, ela e seus irmãos viviam os sabores e aromas da profissão. “Praticamente nasci atrás do balcão”, diz. Na adolescência, a jovem e seus pais – ele é de Chicago, nos Estados Unidos, e a mãe do Brasil – vieram para as Cidades Irmãs. O desembarque foi em Porto União mas logo, União da Vitória também abraçou os novos moradores. Na história de Domicela, passado e presente e provavelmente o futuro, convivem bem, em harmonia.