Espaço Cultural por Therezinha Wolff: No vento, o tempo

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Atualizado há 14 anos

Olhando através da janela de casa, ampla janela original de um tempo desconhecido, percebo que o crepúsculo já passou e eu nem percebi.

O cheiro da “dama da noite” é tão forte, quando o sol vai embora, que ativa nosso olfato.
Um leve tremor me faz lembrar que aquelas nuvens são efêmeras mas podem fazer a chuva e furar o telhado mais duro. Sinto medo? Não!
Junto todos os pedacinhos do crepúsculo.
Talvez ainda haja tempo, para a alegria do Natal.
Faz muito que o Natal chega cedo! A vida é tão ampla, tão cheia de possibilidades…
Talvez por levarmos um tipo de vida a nos exigir cada dia mais, os momentos sejam tão curtos que já nem temos tempo de sonhar.
O poder do tempo é muito forte.
Ele varre tudo. Tudo o que encontra em seu caminho.
Pode destruir as coisas mais importantes que temos.
Estragar tudo. Ele pode tudo: alegrar ou entristecer.
Que bom seria segurar o tempo para aquilo que nos faz felizes.
Ver sonhos realizados.
Entretida em meus pensamentos, mergulho no passado e ignoro o momento presente.
O vento que chega alivia meu coração.
Traz a vida simples e clara como a água das cachoeiras.
Cerco-me em labirintos de pensamentos e estranha teia começo a tecer.
A voz de minha mãe:
– Hoje vou cozinhar figos. Deixar aquele cheirinho gostoso se espalhar pela casa. Alguns vou colocar em compota. Já guardamos para o Natal!
Parece que sinto o gosto do passado na boca.
Longe, bem longe, o vento traz um apito. A 644 está entrando na cidade.
Deixo-me enlaçar pelo vento e a voz de meu pai:
– Vou temperar as carnes para o almoço. Com esse mormaço o tempero tem que ser forte. É bom trazer uma barra de gelo da fábrica do amigo Carvalho.
De repente ouço as risadas de um menino brincando com Duque, um pequeno fox, que late e pula pela varanda.
Risos e latidos dão lugar ao som de um piano, que acompanha um conjunto de vozes da família reunida.
São tantos ao redor da mesa!
Todos os lugares ocupados.
Tudo é paz e alegria como deve ser a Noite Santa.
O vento acaba.
Aumenta a temperatura e constato sua ausência.
Hora de fechar a janela.
Mais uma noite e percebo que se o tempo passa no calendário, não passa dentro da gente.
Transcende qualquer medida quando podemos sonhar.
Como cantou o poeta, “sonho um sonho de adulto, minha voz na voz do vento indo em busca”, diria eu, do tempo.
Tempo para viver, amar, aprender e sonhar.

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