Por Mariana Honesko

Fazer uma foto interessante é possível a partir de um simples toque na tela de um celular. O resultado fica ali mesmo e raramente sairá dali. Se o registro não agradou, basta um novo clique, agora na tecla “Del”, e pronto. É só começar de novo. Para os mais empolgados com a arte de fotografar, o mercado tecnológico dispõe de inúmeros modelos de câmeras. Sofisticadas, a maioria é digital, ou seja, ainda requer algum ajuste do fotográfico mas dispensa o trabalho pesado. Basta mirar, escolher ou aproveitar o momento e registrar. Em segundos, a foto está feita.
Como o celular, as câmeras também permitem o uso de uma “borrachinha” sobre o que não está bom. Embora prática e com a facilidade de revelar o resultado no instante em que o botão é disparado, o modelo digital parece não suprir toda a essência da fotografia. A opinião pode não ser compartilhada entre fotógrafos amadores, aqueles que registram apenas a família ou a beleza da natureza, por exemplo. Mas, entre os profissionais, ela é praticamente unanimidade: o sistema analógico se foi mas deixou saudade.
E, mesmo com tanta tecnologia à disposição, engana-se quem pensa que o modelo analógico ficou para trás. Sirlei Loss, funcionária da Pastoral da Saúde, não abre mão do modelo antigo. As fotos de sua família são feitas a partir do filme 35mm. “Não quero abandonar minha máquina!”, sorri, com apego ao material. Segundo ela, o registro feito no “modo manual” traz resultados mais reais e fieis ao que foi retratado. “Fica mais original, sem retoque mesmo. Eu gosto mais”, sorri. A Pastoral da Saúde também mantém o registro de suas ações e atividades a partir de uma máquina analógica. “Usamos pouco e fica bom”, garante Sirlei.
O pequeno arsenal de material, ainda à espera da procura dos clientes, confirma o comportamento de Sirlei. Na Foto Íris, empresa que desde 1912 trabalha com fotografia em União da Vitória, há uma pequena cartela de clientes que ainda dependem da máquina analógica para preservar memórias. Não são muitos, mas os que tem, mantém uma certa regularidade nas visitas à loja.
Alberto Ihlenfeld, fotógrafo da empresa e filho do fundador dela, aguarda a retirada de alguns originais. Conforme ele, a revelação só ocorre quando uma grande quantidade de material é reunida. “Antes, revelávamos cerca de mil fotos por dia”, lembra. O sistema analógico, que “obrigava” a revelação, ia na contramão do digital também no aspecto material. Por conta do computador, por exemplo, a impressão das fotos é bastante pequena na comparação com o que ocorria com os filmes 35mm. Mas, voltar ao passado é impossível. Ihlenfeld se modernizou e o único filme de 36 “poses” ainda está no balcão. “Já levei um ano para vender dez filmes”, sorri.
Um passo na tecnologia

Marco Antônio Sokol há décadas carrega uma câmera nas mãos. Ele já passou por algumas fases e lembra bem da transição do analógico para o digital. “Eu estou trabalhando com o sistema digital há mais de dez anos, foi quando o novo sistema começou a tomar força total aqui no Brasil. As câmeras nos dias de hoje estão muito melhores, muito automatizadas”, avalia. “O fotógrafo não precisa ter tantos conhecimentos, tanto é que vemos a quantidade fotógrafos que surgiram no mercado ultimamente. A tecnologia avança e temos que acompanhá-la”, completa.
Sokol já teve laboratório analógico em seu estúdio mas abandonou o modelo a partir da chegada do modelo digital. “Nos dias de hoje existe uma dificuldade muito grande em conseguir insumos (filmes, químicos e papel), além do valor estar superior ao do digital. Raramente aparece algum cliente pedindo esse tipo de serviço, mas quando tem, envio para laboratórios de fora”, explica.
Corrigindo más impressões

Marco Aurélio Iasinski tem 21 anos de profissão. Fotografo experiente, lamenta a quase extinção dos filmes em película. Dentro do mercado, precisou se adaptar e desde 2006 “abraçou” o modelo digital. “Não tem como ir contra a tecnologia. Claro, dá saudades do filme e hoje vejo que os novos fotógrafos nem sabem como funcionavam. Com o digital, se a foto não ficou boa, é só deletar. Com o filme, não tinha disso: é foto perdida e só pode ver depois que revela”, diferencia, com bom humor.
Show de magia
Aos 15 anos, Franciele Misturini iniciou a arte da fotografia. Começou como aprendiz, na época, com filme 35mm. “Era muito legal. No primeiro ano eu só retocava as fotos que saiam com risquinhos, por conta de sujeira no negativo. Um ano depois comecei a fotografar em estúdio. Tínhamos que fazer 36 poses diferentes e com 36 luzes diferentes pois o filme era muito caro e também não poderia errar. Você tinha que ter a luz na sua cabeça, saber exatamente a potência dos seus strobos (ajuste para a definição da velocidade)”, conta. “A fotografia era conhecimento de luz, mas também magia. Lembro que tinha que aprender até a sincronia que a cliente piscava”, completa.

Franciele, agora com 17 anos de profissão, precisou se adaptar à chegada dos novos e modernos processos. Ela confessa que a transição não foi fácil e que justamente o modelo analógico ampliou seu leque de conhecimento. “O princípio da fotografia é o mesmo. Eu sempre fotografei no manual e sempre farei assim. Posso dizer que sinto muita falta disso tudo”, sorri.
Captando o momento
A fotografia nasceu em 1822, quando o físico francês Nicéphore Niepce eternizou a primeira imagem da realidade em uma chapa de metal. Mais tarde, outro francês, Louis Daguerre e o britânico William Talbot anunciaram em 1839 suas descobertas sobre engenhocas que tiravam fotos. Por isso, o “bebê” tem mais de um pai, já que a fotografia nasceu a partir da combinação de vários estudos e da contribuição de outros tantos cientistas.
Na teoria, a palavra “fotografia” tem raiz grega e significa desenhar com luz e contraste. Na prática, a definição significa a captura de imagens por meio de exposição luminosa e na fixação em uma superfície sensível.