*Por Aluízio Witiuk*
Caso não ouviu falar, não fique preocupado, são poucas as pessoas que conhecem a história daqueles que, de uma forma ou de outra, colaboraram para a estruturação das nossas cidades e, neste caso em especial, a construção de valores culturais, cívicos, éticos, patrióticos e de conhecimentos científicos para formação do cidadão.
A intenção é oportunizar a socialização da História e tornar instrumento de conscientização para valorizar todos aqueles que passaram pela nossa região e semearam valores indispensáveis para formação da cidadania.
O momento é oportuno, setembro é um mês festivo, são muitas comemorações, e uma delas é muito especial, trata-se do aniversário do Município de Porto União, que está completando 95 anos. Uma história que começa antes mesmo do polêmico Acordo de Limites entre os Estados do Paraná e Santa Catarina.
Até o ano de 1917, a região em litígio, União da Vitória (PR) e Porto União (SC), não tinha essa designação, pois formava uma única cidade paranaense, denominada oficialmente de Porto União da Vitória. É importante firmar que, até hoje, para a população não existem divisas de limites, somos um povo só, com hábitos e costumes, e o respeito pelos dois Estados que mantêm esta unidade.
No início do século XX, a nossa região ocupava lugar de destaque nacionalmente pela importância da localização geográfica e pelas riquezas naturais. A estrada de ferro cortava o Brasil do centro ao sul, era um perfeito canal de ligação e comunicação em todos os sentidos. É importante lembrar que só existe um verdadeiro desenvolvimento de uma região, quando se faz presente a educação, que é o fio condutor primordial do progresso.
Historicamente, no Brasil, a Educação não foi prioridade dos governantes, quando realizada, pois esteve focada no interesse de ordem político-partidária.
Era fim do século XIX, foi implantado no Brasil, no Estado de São Paulo, o modelo de Grupos Escolares. No Estado do Paraná, a criação dos grupos escolares começa em 1903, em Curitiba, na Capital, servindo de modelo de estrutura do grupo escolar de São Paulo.
Fim do século XIX e início do século XX, o Brasil estava consolidando um novo regime, o Republicano. Essa nova forma de governo buscou para a educação inspiração significativa. A construção de um Grupo Escolar tinha como por base um prédio imponente, com sua arquitetura ostentando um país que caminha para a modernidade.
Na nossa região, a do Contestado, não foi diferente, principalmente por ser uma cidade do interior, onde a beleza arquitetônica chama atenção de todos. Localizado num ponto estratégico, e seguindo o modelo imponente, foi construído e inaugurado no dia 2 de junho de 1913, o Grupo Escolar Serapião, no alto da Igreja Matriz de Porto União (SC). As aulas eram ministradas pela competente Professora Amazília.
O estabelecimento de ensino foi construído pelo Governo do Paraná, em terras que, após o Acordo de Limites em 20 de outubro de 1916, passaram a fazer parte do território catarinense. O Grupo Escolar Professor Serapião precisou ser transferido para terras paranaenses, passando a funcionar provisoriamente em uma casa, na Rua Dr. Carlos Cavalcanti, em frente o Hotel Casa Verde.
O governador do Paraná, Afonso Alves de Camargo, em 1925, autorizou a construção do primeiro prédio escolar da cidade de União da Vitória, localizado na Praça Coronel Amazonas. Permanecendo assim, o Grupo Escolar Professor Serapião no prédio que hoje é chamado de Escola Municipal Professor Serapião.
O prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico Estadual, por ser considerado um dos marcos da implantação da cidade de União da Vitória, possuindo um notável valor histórico e cultural a ser preservado.
Em Porto União, o prédio onde funcionou o Grupo Professor Serapião, passa a funcionar e a chamar Escolas Reunidas “Professor Balduíno Cardoso”, agora pertencente ao Governo do Estado de Santa Catarina.
O Grupo Escolar Professor Balduíno Cardoso, atualmente denominado de Escola de Educação Básica Professor Balduíno Cardoso, foi criada na mesma data de origem de Porto União – SC, no ano 1917.
O prédio que acolheu o Grupo Escolar Professor Serapião, Escolas Reunidas “Professor Balduíno Cardoso” e o Fórum da Comarca de Porto União, hoje abriga o valoroso Grupo Escoteiro Iguaçu, o qual tem procurado manter a beleza, zelo e a conservação do Patrimônio Público Tombado pela Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina.
Está se aproximando o centenário da construção do primeiro prédio escolar de Porto União, em terras catarinenses.
É preciso dar o devido valor e respeito pelo patrimônio arquitetônico da nossa querida Porto União. É oportuno, neste mês festivo, ativar um olhar especial às construções, descobrir o valor arquitetônico de cada prédio e preservar, em todos os sentidos, a nossa História.
Sabe-se pouco das pessoas que construíram “a nossa história”, visando ao bem comum da sociedade. Um bom exemplo é o Professor Joaquim Serapião do Nascimento. No Centenário do Contestado e também no Centenário do Prédio que carregou o seu nome, é oportuno e justo que se conheça um pouco da vida do abnegado e preclaro Professor Serapião, o qual é Patrono da Cadeira nº 30 da Academia de Letras do Vale do Iguaçu – ALVI.
Nasceu em Iguape, município do Litoral Sul do Estado de São Paulo, no ano de 1847, filho do Senhor Gabriel José do Nascimento e Senhora Matilde do Nascimento. Era jovem quando veio residir no Estado do Paraná, e logo deixou a sua marca, tornando-se conhecido como emérito educador. Na capital paranaense, por longos anos, dirigiu o Colégio Nossa Senhora da Luz, na cidade de Castro, o Colégio Nossa Senhora Santana do Iapó. Exerceu o cargo de Secretário do Superior Tribunal de Justiça do Estado do Paraná.
Ficou consagrado no campo da poesia, prosador e teatrólogo fecundo, compôs diversas peças, tendo-se extraviado os originais de muitos trabalhos. Algumas obras publicadas: José do Egito; O nascimento de Jesus; O filho pródigo; A vítima do jogo; e O Senhor Aprígio em apuros, ou a carta que dá dinheiro. O ser humano pode impor-se à comunidade em que vive por várias formas: ou pela grandeza de seus feitos, ou pela continuidade da sua ação, ou pela intensidade dos seus atos.
O professor Joaquim Serapião do Nascimento chegou a União da Vitória no ano de 1901, e trazia a marca de longos prélios em prol da cultura. Viveu em nossa cidade, com que estamos a aprender, na relação entre a brevidade daquele tempo e a profundidade do rastro que ele deixou. A definição do homem que ele foi: um gesto fremente, uma atitude empolgante, um ímpeto de vida, uma alma intensa, em suma.
Não foi, na verdade, por obra estupenda, nem tampouco, pelo paciente e longo labor do mestre-escola que a sua figura avultou na sociedade de Porto União da Vitória daquela época. Foi, sim, pela intensidade que ele punha nos seus atos, pelo entusiasmo com que viveu os episódios da cidade, pelo ardor e pela altura das suas convicções, com que entrava em todas as liças.
Um aluno seu, filho ilustre desta terra, comparava-o aos mosqueteiros de Dumas, não só pela aparência física, mas também pela reação pronta e viva do espírito, sempre segundo a mais bela padronagem moral, em face das solicitações da vida.
O professor Serapião era um ser magnífico, a base de sua pedagogia era o sentimento pela Pátria. O aluno era preparado para a vida nacional. A sua lição não era de repetição simples do texto dos compêndios, apondo aqui e lá a referência que a didática impunha. Era o comentário largo e vivo tomado de emoção; era, a propósito de tudo, da Língua, da História e da Geografia, uma evangelização ampla de civismo que empolgava o aluno em que a alma do mestre fremia.
O dia 26 de novembro de 1906, foi marcante para Porto União da Vitória. A ponte provisória sobre o Rio Iguaçu foi inaugurada, um dia de festa, pois a estrada de ferro era uma das expressões mais vigorosas daquela época.
À noite, houve sessão solene no Clube União. Uma cabocla bonita do Jararaca, a Luiza Amâncio, descalça e toucada de flores, em pé no procênio, representava União da Vitória. Diante dela, o Professor Serapião declamou, fremindo, o poema que compusera naquele dia:
Selvagem qual bugre nu:
Banhada pelo Iguaçu,
À beira dele nasceste,
Linda cabocla indolente!
A dormir em mata ingente,
Entre colinas cresceste!
Como criança da roça,
Foi teu berço uma palhoça
Erguida em férteis zonas,
Foi teu primeiro luzeiro
O vaporzinho CRUZEIRO
Do Coronel Amazonas!
Qual cordilheira dos Andes,
Vazada em cadinhos grandes,
Cogitavas inativa!
Então ribombou por tudo,
Assim como um grito agudo,
A voz da locomotiva.
Do ventre a saltar fumaça,
Ei-la ligeira que passa
Do Estado a maior ponte:
É o progresso nos trilhos
Em procura de outros brilhos
De cintilantes horizontes!
Eis a cabocla bendita
De pé, no banco da glória!
Cercada de lindas flores,
Ao som de cantos de amores,
Eis a UNIÃO DA VITÓRIA!
Além de participar da vida cotidiana e de colaborar conosco, por meio da sua grande escola, o Professor Serapião comungou os interesses políticos do município. Embora fosse, quase sempre, elemento de oposição à política dos governos, a sua inteligência esteve sempre a serviço da causa pública.
O Coronel Amazonas Marcondes quis estabelecer a heráldica municipal, pediu ao competente professor que idealizasse o brasão que União da Vitória deveria ostentar.
O professor Serapião é visto na escola e na rua, – nas suas relações públicas – mosqueteiro galhardo de um ideal cívico.
Aproximemo-nos agora, por um instante, da sua intimidade amável. Transportemo-nos, respeitosamente, ao recesso do seu lar.
Aquela riqueza espiritual, aquela exuberância de alma, aquele entusiasmo tenso sobre a vida coletiva contrastam com a pobreza material da sua casa e com uma vida doméstica dolorosa. Homem pobre, de caráter rijo, não sabia dobrar-se. Consciência cívica sem jaça, não podia transigir com a insinceridade política. Nunca subiu às posições vantajosas que dão brilho e fortuna. Viveu um árduo labor.
Quando já estava no fim da vida, por duas vezes a desgraça bateu-lhe fortemente à porta, ferindo-lhe a companheira: na primeira cegou-a, na segunda levou-lhe a razão.
Ela, afinal, continuou feliz, servida por sua dedicação, embalada por sua ternura. Mas o velho mosqueteiro, às vezes, pendia a cabeça e deixava cair da mão calejada o antigo florete retorcido. Uma melancolia imensa ia encher-lhe o cansado coração.
À MINHA MULHER AMÉLIA
É para mim um suplício
Ir-te visitar n´hospício,
Onde infelizes só moram:
Nessa triste habitação,
Onde em febre, exaltação,
Riem, gemem, cantam, choram!
Tu gemes; também te ris.
Como se fosses feliz
Em tamanha desventura!
Do bem que tinhas privada,
Aí estás atirada
Em negro mar de amargura!
Como se fossem teus olhos
Feridos por uns abrolhos,
Deles a luz se extinguiu!
Ficaste em completa noite,
Veio da dor o açoite,
A loucura te feriu
Pelo infortúnio que passa,
O mal derramando em massa,
Sendo de perto atingida,
Qual flor de quebrada haste,
Tu sucumbiste, vergaste,
Em noite dupla envolvida.
Dois meses, anos lentos
Repletos de desalentos,
Tu tens passado a pensar;
Sendo também desgraçado,
Eu em pensar afogado,
Vivo tua sorte a chorar!
Murcha ou morta a confiança,
Não me resta uma esperança,
De boa, um dia, te ver!
Nossa vida esfacelada.
Para nós não há mais nada,
Mas nada sinto, senão morrer.
(Serapião do Nascimento – Curitiba, 09 de maio de 1910)
O professor Serapião, foi mais que um exemplo de educador, por ter prestado inúmeras contribuições ao setor educacional das cidades, tanto na formação discente como docente, deixando vários discípulos seguindo seus passos.
No dia 11 do mês de junho do ano de 1911, aos 64 anos, faleceu na capital paranaense, Curitiba, o poeta, prosador, teatrólogo, Secretário do Superior Tribunal de Justiça do Estado do Paraná e emérito Professor Joaquim Serapião do Nascimento.
Alguns anos se passaram, e o poeta Rodrigo Júnior foi desfolhar sobre o seu túmulo raso este punhado de versos:
Ó mestre de meu pai, Serapião, nobre vulto
Que às velhas gerações iluminaste a vida,
Alto exemplo lhes dando e a norma esclarecida
Do teu saber – final resplandecente e culto.
Praz-me em rima sem cor, mas de ternura ungida,
Dizer que a gratidão te rende assíduo culto,
E que ainda em nós por ti – em proclamá-lo exulto,
Da saudade reluz a chama inextinguida.
Poeta e pobre, subiste um Calvário de dores,
mas nunca fraquejou, na pungitiva estrada,
teu caráter sem quebra, adamantino e pulcro!
Pois que estes versos maus se transformem em flores
E caiam como beijo, em chuva perfumada,
Sobre a pedra feral que cobre o teu sepulcro!
– Aluízio Witiuk é Professor da Universidade do Contestado e Membro da Academia de Letras do Vale do Iguaçu