Porto União: um olhar sobre o que já foi visto

·
Atualizado há 14 anos

*Por Leni Trentim Gaspari*

Escrever um texto com a intenção de contar algo sobre a história da cidade significa pensar o “local” como algo construído e reconstruído pelas relações sociais e essa construção e reconstrução passa pela questão da recuperação de memórias e compreensão da identidade cultural do grupo que a constitui.

Nessa perspectiva, encaminho minhas reflexões sobre uma temática que considero bastante interessante que é a presença dos museus nas cidades, pois eles, por retratarem as vivências humanas de determinados grupos tornam-se “guardiões” de memórias e de elementos representativos de determinadas culturas.

O Museu Municipal de Porto União tem seu registro histórico documentado na publicação da primeira Revista Luminária da FAFI em 1972, com o trabalho de pesquisa de Wilson Miguel Balardini, na época aluno do Curso de História, o qual em consulta ao Livro Tombo do Museu retirou as informações com as quais faço um breve histórico da origem do referido Museu (não consegui localizar esse livro, caso algum leitor possa me dar notícias agradeço).

Em requerimento datado do dia 21 de junho de 1962, o professor Aniz Domingos solicitou a Câmara Municipal de Porto União, a criação do Museu. A 7 de agosto de 1963 foi aprovada a Lei n.º 390, no entanto, só em 03 de agosto de 1965 o prefeito Municipal da época, Sr Salustiano Costa Junior, dá poderes ao Professor Aniz Domingos para fundar, criar e iniciar o “Museu Municipal de Porto União”.

Assim, em 15 de outubro de 1965 é constituída a primeira diretoria composta pelos seguintes membros: Diretor: Professor Aniz Domingos; Secretário: Frei Libório Lueg; Tesoureiro: Arbus dos Santos; Conselheiros: Ronaldo Cunha Costa, Nelson Santos, Sadala Azis Domingos e José Andrade Azevedo. Consta que nessa ocasião foi organizado o Estatuto da entidade, seguindo modelo do Museu Imperial de Petrópolis, adaptado à realidade local, o qual foi aprovado oficialmente em 12 de dezembro do mesmo ano.

O referido documento foi publicado no Diário Oficial de Santa Catarina em 26 de março de 1966 e no dia 31 do mesmo mês e ano foi registrado no Cartório de Registro Civil de Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas. A solenidade oficial de inauguração, e início do funcionamento portanto, segundo Balardini, ocorreu em 20 de abril de 1968, na “Semana do Índio” às 17 horas, pelo professor Aniz Domingos, idealizador, organizador e fundador da instituição.

O autor cita algumas palavras proferidas no ato da inauguração pelo referido professor: “Esta casa traz consigo toda a glória de um passado nobre, a ventura de um presente histórico e a esperança de um futuro imortal que lembra o altruísmo de um povo, a lealdade e a fé de uma raça”.

Nesse ato foi proferida também uma saudação pelo representante dos poderes legislativo e executivo o vereador Lando Kroetz e a fita simbólica de abertura foi descerrada pelo prefeito Dr. Victor Buch Filho e pelo cidadão Jaime Correia Pereira representante dos antigos moradores.O evento contou com a presença de moradores, de ilustres autoridades e da imprensa local que registrou tão importante fato histórico da cidade.

Vale ressaltar que nas diversas secções do Museu encontravam-se vitrines com diferentes documentos históricos, objetos das etnias que compunham a população das “Gêmeas do Iguaçu”, objetos e móveis de antigos moradores e uma sala temática com várias peças e objetos da cultura indígena brasileira.

Tal acervo proporcionou oportunidades de estudo e pesquisa para os alunos dos cursos de História mediante convênio assinado entre o Diretor da FAFI, Prof. Francisco Filipak e o Diretor do Museu, no ano de 1971, cumprindo assim a função de aproximação com a comunidade e de instituição comprometida com a realidade social, centro de educação aberta com vistas a ampliação do acesso ao saber a maior número de pessoas.

O Museu Municipal de Porto União, teve sua denominação alterada para Museu Municipal Prefeito Salustiano Costa Junior (não consegui ainda descobrir o ano) e estava instalado no prédio localizado a rua Prudente de Morais, esquina com a rua XV, até abril de 2012, quando foi transferido para a Vila Gemma, na Rua Sete de Setembro em Porto União, antiga residência do Sr Rafael Benghi e família (será tema do meu próximo artigo).

Em novo espaço, o museu encontra-se aberto à população como uma realidade concreta, com amplas oportunidades para os educadores refletirem junto aos estudantes as questões de patrimônio, história e memória da cidade. Memória entendida não como algo imutável, mas como possibilidade de reflexão sobre o passado por meio de sua representação no presente.

Encerro este texto homenageando minha querida Porto União pelo seu aniversário, em 05 de setembro próximo, com um pensamento do historiador Marcelo Saldanha Sutil “as cidades são como livros abertos, onde foram depositadas as representações de cada momento. Ler esses espaços é delimitar novas possibilidades de olhar aquilo que já foi visto e perdeu-se no tempo”.

Leni Trentim Gaspari é Membro da ALVI
(profleni@yahoo.com.br)

Fique sempre atualizado

Entre no nosso grupo do WhatsApp e siga nosso perfil no Instagram para não perder nenhuma notícia!