
Marizete da Silva, três filhos biológicos e mais três de coração. Conhecemos a história dessa guerreira por um acaso. Era um dia de folga para os Rondonistas, as horas eram apenas de descanso, nada de atividades. Mas, recebemos o convite de uma localidade próxima a Irará para visitá-los e aceitamos.
Não dispúnhamos de transporte no dia para chegar até a Fazenda Boca de Várzea. Mas, logo a Prefeitura providenciou um táxi, e é ai que começa a história.
Quando o táxi estacionou em frente à Escola São Judas, já observamos uma mulher ao volante, era Marizete, a nossa taxista. Simpática e prestativa, Marizete do táxi – como é chamada, foi logo falando para colocarmos nossos pertences no porta malas. “É aqui mesmo minha gente, podem pular para dentro do carro, que já estamos partindo.”
Todos prontos, Marizete para não perder o gancho já começou a falar. Contou sobre o orgulho de formar três filhos e ter acolhido mais três à família Silva.
Marizete chegou a Irará com 11 anos, e hoje beirando os 50 já sente que é uma iraraense. Nascida em Ouriçangas, Marizete veio de família humilde, casou muito cedo e logo teve seus filhos. Mas o que não imaginava era que entre os passos de comerciante, taxista, mulher e mãe encontraria três famílias que carregavam a incerteza do futuro de um filho.
Sua primeira adoção aconteceu há muitos anos, quando uma adolescente de 15 anos engravidou de um homem mais velho. A moça morava em uma vila perto de Feira de Santana na Bahia e Marizete quando soube da situação resolveu ajudar. A moça não queria o filho, pois o pai era negro, Marizete logo disse. “Tenha o bebe, eu cuido dele. Durante a sua gravidez garanto que não vai ficar sozinha fia(sic)”.
A jovem teve o bebe em casa, com a ajuda de uma parteira – atividade muito comum na Bahia ainda nos dias de hoje, e após perder muito sangue o pequeno que já havia nascido sem pai, deu início a sua vida sem uma mãe. Mas isso por pouco tempo. Marizete pegou a criança para criar.
Hoje Gugu tem 17 anos, e sabe do seu passado. “Não escondo nada dele, eu criei, dei amor e o apoio em tudo”, afirmou a taxista.
Após a primeira adoção, Marizete acolheu mais duas crianças em sua vida, as histórias são parecidas, de pais casados, mães jovens e negras que tinham medo da rejeição.
“Minha casa é grande, e o meu coração baiano maior ainda. Sou humilde, trabalho de taxista e comerciante há 25 anos, mas não nego um colo ou um prato de comida pra quem precisa. Se eu sou assim, muitos que tem tudo poderiam dar só um pouquinho pra quem necessita, não precisa adotar é só ajudar. Isso não vai ser nada para aquele que tem tudo, e tudo para aquele que não tem nada”, contou Marizete, com os olhos já inundados pelas lágrimas.