“Precisamos aproximar o produtor e o consumidor de mel”

Ivanir Cella, presidente da Federação das Associações de Apicultores de SC. (Foto: Divulgação FAASC).

A Feira do Mel de Santa Catarina acontece há 22 anos. Durante duas décadas ela foi realizada nas ruas do Centro de Florianópolis. Porém, em 2020, por conta da pandemia, os produtores decidiram transformar a feira em virtual, até que seja seguro fazer novamente uma feira presencial. Com o formato virtual a feira ampliou e agora atinge todas as cidades de Santa Catarina e Brasil, não apenas os moradores da capital catarinense.

Santa Catarina é referência em produção, tecnologia, organização e desenvolvimento do setor apícola. E todos os anos participam da feira pequenos e grandes produtores de todos os cantos do estado com mel, mel de melato de bracatinga, cera, extrato de própolis, pólen, favo, biscoitos e bolos, entre outros produtos.

Nesta entrevista exclusiva à coluna Pelo Estado, Ivanir Cella, presidente da Federação das Associações de Apicultores de Santa Catarina (FAASC) fala dos problemas e desafios do setor, explica porque o preço do mel é tão caro e dá caminhos para mudar o cenário.


Pela segunda vez a Feira do Mel é realizada de modo virtual. Qual a avaliação e as expectativas sobre o modelo que surgiu durante a pandemia?

Em função da pandemia a Feira não pode ser realizada de modo presencial como ocorria há 20 anos no Centro de Florianópolis, então para manter o evento decidimos fazer do modo virtual para atender aquele público cativo que todo comprava o mel para estocar por ano, pois muitos compradores tinham confiança num determinado produtor ou gostava mais de determinados méis de determinados produtores, já que Santa Catarina tem uma diversidade muito grande de méis. E para nossa surpresa os resultados foram muito bons. A feira, que era estadual, mas realizada só em Florianópolis, virou nacional e até, porque não dizer, internacional em função das vendas pela internet.

Então o que parecia ser um problema acabou abrindo novas oportunidades?

Exatamente. A divulgação pela internet acabou atraindo muitos compradores de todo o Brasil. Não só os consumidores direitos, mas o pessoal de supermercados e distribuidores. Todos viram na feira a possibilidade de ter contato direito com os produtores. Abriu um leque de negócios para todo o país. E também abriu a possibilidade de inserção dos pequenos produtores na venda virtual, que é uma tendência e os esses produtores estavam mais acanhados. A partir da feira ganharam prática no e-commerce e criaram seus próprios sites.

Esse mercado virtual então abriu um novo campo para produtores sem experiência nesse negócio?

A maioria dos produtores são agricultores, que trabalham o dia todo na lavoura, produzem o seu mel, entregam pro vizinho, ou num mercado da região, mas não tem isso como atividade principal. A feira virtual abriu essa outra possibilidade e uso o exemplo de um produtor de Itapiranga que produzia 2 mil quilos de mel, vendia uns 500 quilos direto, o resto vendia para os atacados, e depois da feira do ano passado, com a divulgação pela internet, vendeu toda a produção dele.

“O grande gargalo do setor é a dificuldade do pequeno produtor em envasar seu próprio mel. Isso custa muito caro”.

E esses produtores receberam algum apoio para entrar nesse tipo de mercado?

No primeiro momento não. Mas a feira virtual acabou mostrando esses produtores para várias entidades. A partir daí o Sebrae já se colocou à disposição para apoiar esses pequenos produtores; o Sistema Faesc/Senar já colocou um engenheiro de alimentos para apoiar na área técnica, de inspeção e também na questão da gestão do negócio. A UFSC, através do Centro de Ciência Agrária (CCA) , também está apoiando. Enfim, a feira colocou os produtores na vitrine.

Um dos problemas do mercado do mel é o preço, por que o mel é tão caro?

Santa Catarina é um estado de referência no mercado e de políticas públicas para o setor; é referência em qualidade do mel, basta dizer que nos últimos cinco anos levamos prêmios na maioria das categorias de méis em nível mundial. Essa qualidade tem a ver com as condições naturais e também em função de não usar produtos químicos. Mas o grande gargalo é a dificuldade do pequeno produtor em envasar seu próprio mel. Isso custa muito caro. O produtor entrega o mel dentro do balde para consumo, que não precisa ser processado porque a abelha já fez o trabalho todo. Não tem como limpar mel. Você pode peneirar para tirar favo, que nem sujeira é, tirar uma cera que não faria mal nenhum, mas microorganismos não tem como matar no mel. Porque se for ferver, estraga o mel. Então é um produto que por si só já sai pronto para o consumo. Só que o mel está enquadrado no Ministério da Agricultura como produto de origem animal e aí tem as mesmas leis que tem o leite e a carne, por exemplo, que são produtos perecíveis. Então precisa de dois veterinários responsáveis, entre outras exigências que ficam pesado para o produtor.

Então a legislação e o processo todo encarecem o mel?

Sim, por exemplo, o pequeno produtor cria uma associação com cerca de 30 produtores, cada um produz 500 quilos de mel para envasar de duas, três vezes por ano para não deixar cristalizar. Ele vai pagar uma análise mais ou menos R$ 800; daí paga dois veterinários, paga o contador. Então hoje custa muito caro para pequenos entrepostos.

E como mudar esse cenário?

O grande desafio do estado hoje é diminuir essas dificuldades para que os pequenos produtores consigam fazer o envase do mel. Hoje é mais barato pegar o mel, embarcar num container e exportar para os Estados Unidos, por exemplo. Ele chega mais barato do que você pegar uma concha, encher um balde, colocar num pote e vender para o teu vizinho. Então é preciso mexer na legislação, precisar criar consórcios para pagamento de profissionais, trabalhar gestão, enfim, capacitação de profissionais que fazem a inspeção. Existe uma lei tramitando no Congresso Nacional para que o mel deixe de ser um produto animal e passe a ser um produto vegetal. Mas essa lei enfrenta barreiras no Conselho de Veterinária. Eu estive na Cidasc discutindo a questão da inspeção do mel. Recebi informação de que faz essas inspeções é o Conselho de Veterinária e não o Estado. Porque a legislação federal diz que pode ser engenheiro de alimentos, pode ser agrônomo como responsável técnico. Tem que ter um responsável técnico da unidade e mais um veterinário para acompanhar o envase, que não acompanha e só cobra o valor. Então são dois profissionais: um responsável técnico e ou pelo produto. Mas será que não basta um responsável apenas?

“A Feira Virtual do Mel abriu um leque de negócios para todo o país e deu a possibilidade de inserção dos pequenos produtores no e-commerce.”

Mas então é preciso mudar a legislação?

É preciso mudar, mas alguma coisa pode ser feita. Por exemplo: dá pra criar um consórcio e esse veterinário ser responsável por vários entrepostos, para minimizar o custo. Mas no fundo não temos uma ideia pronta. Temos que fazer um mutirão dessas entidades, com apoio do Sebrae, do Senar, da Epagri, enfim, buscar uma solução.

Para resumir, qual o maior desafio do setor?

A gente reclama dessa questão do envase, e acho que reclama com razão, mas não é uma crítica ao governo do estado, que tem se esforçado para resolver vários problemas. A gente precisa criar um mutirão que faça diminuir a distância entre o produtor e o consumidor e aumentar o consumo do mel no Brasil que é muito baixo em relação a outros países. Isso porque o preço é proibitivo. Não é o produtor que ganha muito

0 COMENTÁRIOS